Por que ler Primo Levi?

[Alicia Ivanissevich]

Na edição inaugural de 2012 da revista Ciência Hoje*, o cientista político Renato Lessa dedicou a sua coluna ‘Sobre Humanos’ à memória de um dos mais importantes escritores do século 20, Primo Levi. Após discorrer sobre a relevância de obras marcantes desse químico italiano, preso pelos alemães em dezembro de 1943 e deportado para o campo de Auschwitz no ano seguinte, Lessa termina seu relato com uma frase perturbadora: “Não ler Primo Levi significa, mesmo sem sabê-lo, dar sobrevida ao fascismo”.

Sentença provocativa, sem dúvida. Afinal, aqueles que não tiveram a oportunidade de ler Primo Levi poderiam se sentir incomodados e até injustiçados com a afirmação. Aliviada em parte por ter sido apresentada a poucos contos desse colossoanos atrás, fiquei igualmente constrangida com a frase de Lessa, uma vez que ainda não conhecia a obra-prima de Levi, É isto um homem?. Passados alguns meses, acabei me rendendo à leitura desse depoimento real e devastador.

A história dos campos de extermínio no sul da Polônia — narrada no livro em primeira pessoa — é bem conhecida e estudada, o que não atenua o impacto que causa logo nas primeiras páginas. Já no prefácio, o autor adverte que não fará novas denúncias sobre a dolorosa experiência sofrida por milhões de judeus e de outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial. Sua intenção ao escrever esse livro é “fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana”.

O relato começa com uma chamada severa a nosso cotidiano medíocre e a nossa pequenez de espírito. São versos dirigidos a todos que têm um lugar confortável para morar, comida quente e farta no prato e rostos amigos para se amparar. “Pensem bem se isto é um homem / que trabalha no meio do barro, / que não conhece a paz, / que luta por um pedaço de pão, / que morre por um sim ou por um não. / Pensem bem se isto é uma mulher, / sem cabelos e sem nome, / sem mais força para lembrar, / vazios os olhos, frio o ventre, / como um sapo no inverno.”

Segue ao alerta introdutório a descrição de como ele foi detido num refúgio na montanha pela milícia fascista em dezembro de 1943, quando tinha apenas 24 anos e fazia parte do despreparado e mal armado movimento de resistência Justiça e Liberdade, que lutava contra o líder da nova República Social Italiana, Benito Mussolini. Por ser judeu, foi enviado ao campo de concentração de Fóssoli, próximo à província italiana de Módena. Mas o pior ainda estaria por vir. Em fevereiro de 1944, foi deportado num trem de carga com 12 vagões, abarrotado de prisioneiros judeus – mães, velhos, crianças, doentes –, para o campo de Auschwitz. Eram 650.

A viagem durou longos dias de privação: frio, sede, fome, fadiga, dor. É ali que se inicia o processo de degradação, de usurpação de tudo o que é necessário para ser humano.

Em pleno inverno, sem poder beber ainda que seja um pouco de neve, os detentos são levados a uma sala fracamente aquecida. Obrigados a despir-se e a entregar os sapatos nunca mais verão seus documentos, seus pertences. São tosquiados e barbeados. Têm que permanecer em pé por horas, descalços com água fria até o tornozelo, calados. Passam por banho e desinfecção. São então tatuados no braço esquerdo. Levi é marcado com o número 174.517, que o acompanha por toda a vida.

A descrição vertiginosa de cada dia de trabalho e sobrevivência no campo vai haurindo as forças do leitor. Privados de identidade, os prisioneiros – de origens e línguas diferentes – mal conseguem estabelecer um diálogo. Arrancam-se deles a dignidade, o olhar para si e para o próximo. A luta pela sobrevivência vai perdendo o sentido para muitos que, exaustos e sem razão para manter-se erguidos, se deixam adoecer. Os que não vão para a câmara de gás são levados à ala dos enfermos. Levi é um deles. E, imprevisivelmente, é lá que se encontra sua passagem para a liberdade.

Com a proximidade das tropas russas em fins de 1944, os nazistas evacuam o campo de Auschwitz e obrigam os sobreviventes a marchar até local mais seguro. Alguns doentes ficam, abandonados à própria sorte. Levi sobrevive. Ele e mais dois.

Conhecemos o pesadelo do Holocausto. Não é isso o que impressiona. Não é a primeira vez que um regime autoritário trata minorias com crueza e crueldade. Não é para a mesquinhez e a inclemência dos nazistas que o autor nos atenta. Nem sequer existe nele um apelo por vingança. É de outra forma que ele nos toca.

É o próprio Levi que diz que os personagens dessas páginas não são homens; que sua humanidade ficou sufocada. Que, entre mortos e fantasmas, o último vestígio de civilização desapareceu. Que não é um homem quem espera seu vizinho morrer para tirar-lhe um pedaço de pão. Mas é ele também que nos mostra que, às vésperas da libertação, ao redor da estufa, com cadáveres em camas vizinhas, dois de seus companheiros de ala escutam sua história de guerrilha nas montanhas na Itália. É naquele momento, através do diálogo, que eles voltam a se sentir humanos.

Levi começou a escrever este relato meses depois de ser libertado, e levou pouco mais de um ano para concluí-lo. Mas, segundo ele, sua concepção já nasceu nos dias do campo: “A necessidade de contar ‘aos outros’, de tornar ‘os outros’ participantes, alcançou entre nós, antes e depois da libertação, caráter de impulso imediato e violento, até o ponto de competir com outras necessidades elementares”. Essa urgência por tornar visível esse drama coletivo e advertir sobre a infecção latente que se esconde nos sistemas autoritários e dogmáticos permitiu que esta obra viesse a tona.

Não sei se, mesmo sem sabê-lo, dei até agora sobrevida ao fascismo. Mas tenho uma certeza: não se é a mesma pessoa depois de ler Primo Levi.

*[N.E.] http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/2890

4 comentários sobre “Por que ler Primo Levi?

  1. Parabéns Alicia! Certa vez uma enfermeira descreveu para mim o estado de decrepitude de um paciente terminal sem comparar o estado desse paciente com o de um prisioneiro de campo de concentração. Pena que a imagem de um prisioneiro de campo de concentração possa não ocorrer a alguém que cuide de um paciente terminal. Sua resenha me fez lembrar dessa enfermeira e da frustração que senti ao conversar com ela.

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  2. Caros, li as duas resenhas a respeito da obra e, em ambas, há imprecisões significativas para a interpretação do autor. Sei que a intenção dos textos não é a de se aprofundar na obra de Levi, porém, como estudioso do autor, senti-me na obrigação de avisar-lhes (desculpem-me a petulância).
    Em primeiro lugar, Levi não foi atraído ao grupo de “partigiani” por espírito “jovem e revolucionário” como diz Daniel. A história é muito mais complexa e menos ideológica do que isso. Foi quase o acaso, obviamente aliado à vontade de lutar contra a República Fascista, que o fez se aliar à banda de resistência. Levi sempre foi antifascista, mas nunca tinha pensado, até aquele momento, em pegar em armas para integrar a resistência contra o fascistas italianos aliados aos alemães.
    Em segundo lugar, a República Social Italiana que a autora do post, Alicia, cita começa em setembro de 1943, quando Mussolini já tinha sido deposto do poder. O início da RSI é que desencadeia os movimentos de resistência pelo território italiano, sobretudo no norte do país. Os principais focos da resistência foram em Turim, terra natal de Levi. Seu grupo era realmente inexperiente e despreparado, afinal, foi um dos primeiros, mas não se chamava Justiça e Liberdade, mas sim tinha uma espécie de “filiação” a esse grupo, muito maior e mais significativo.
    Para aprofundar-se nessas histórias, dois livros são fundamentais:
    Il lungo viaggio di Primo Levi, Frediano Sessi
    Partigia, Sergio Luzzato

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