A Esfera Erótica – Max Weber

A ética fraternal da religião de salvação está em tensão profunda com a maior força irracional da vida: o amor sexual. Quanto mais sublimada é a sexualidade, quanto mais baseada em princípio, e coe­rente, é a ética de salvação da fraternidade, tanto mais aguda a tensão entre o sexo e a religião.

Originalmente, a relação entre o sexo e religião foi muito íntima. As relações sexuais faziam, freqüentemente, parte do orgiasticismo má­gico ou eram o resultado não-intencional da excitação orgiástica. A base da seita dos skoptsy (Castradores) na Rússia evoluiu de uma tentativa de eliminar o resultado sexual da dança orgiástica (radjeny) do Chlyst, considerada pecaminosa. A prostituição sagrada nada tinha que ver com uma suposta “promiscuidade primitiva”; foi, habitualmen­te, a sobrevivência do orgiasticismo mágico no qual todo êxtase era considerado “sagrado”. E a prostituição profana heterossexual, bem como homossexual, é muito antiga e, com freqüência, bastante sofisticada. (O treinamento das tríbades ocorre entre os chamados aborígines.)

A transição dessa prostituição para o matrimônio legalmente constituído está cheia de todos os tipos de formas intermediárias. Con­cepções do matrimônio como uma disposição econômica para garantir a segurança da esposa e a herança legal para o filho; como uma ins­tituição importante (devido aos sacrifícios mortais dos descendentes) na vida no além; e tão importantes para a procriação — essas concepções do casamento são pré-proféticas e universais. Nada têm, portanto com o ascetismo em si. E a vida sexual, per se, teve seus fantasmas e seus deuses como qualquer outra função. Uma certa tensão entre a religião e o sexo só se destacou com o culto temporário da castidade dos sacerdotes. Essa castidade bastante antiga nem pode ter sido determinada pelo fato de que, do ponto de vista do ritual vigorosamente padronizado do culto da comunidade, a sexualidade era facilmente considerada como especificamente domina­da pelos demônios. Além disso, não era por acaso que subseqüentemente as religiões proféticas, bem como as ordens de vida controladas pelos sacerdotes, regulamentavam, quase sem exceção importante, as rela­ções sexuais em favor do matrimônio. O contraste de toda regulamen­tação racional da vida com o orgiasticismo mágico e todos os tipos de frenesis irracionais se expressa nesse fato.

A tensão entre religião e sexo foi aumentada pelos fatores evo­lucionários, de ambos os lados. No lado da sexualidade, a tensão levou da sublimação ao “erotismo”, e com isso a uma esfera cultivada cons­cientemente, e portanto não-rotinizada. O sexo foi não-rotinizado não só, ou necessariamente, no sentido de ser estranho às convenções, pois o erotismo contrasta com o naturalismo sóbrio do camponês. E foi pre­cisamente o erotismo que as convenções da Cavalaria habitualmente tomavam como objeto de sua regulamentação. Essas convenções, porém, regulamentaram caracteristicamente o erotismo, disfarçando as bases naturais e orgânicas da sexualidade.

A qualidade extraordinária do erotismo consistiu precisamente num afastamento gradual do naturalismo ingênuo do sexo. A razão e significação dessa evolução, porém, envolvem a racionalização universal e a intelectualização da cultura. Desejamos delinear, brevemente, as fases dessa evolução. Partiremos de exemplos do Ocidente.

O ser total do homem está, agora, alienado do ciclo orgânico da vida camponesa; a vida se tem enriquecido cada vez mais em seu conteúdo cultural, seja esse conteúdo avaliado intelectualmente, ou de forma supra-individual. Tudo isso se operou, através do estrangula­mento do valor da vida, em relação ao que é simplesmente dado, no sentido de um maior fortalecimento da posição especial do erotismo. Este foi elevado à esfera do gozo consciente (no sentido mais sublime da expressão). Não obstante, e na verdade devido a essa elevação, ele parecia uma abertura para a essência mais irracional, e portanto mais real, da vida em comparação com os mecanismos da racionalização. O grau e a forma pela qual uma ênfase de valor é colocada no erotismo, como tal, variaram enormemente por toda a história.

Para os sentimentos incontidos dos guerreiros, a posse das mu­lheres e a luta por elas tiveram o mesmo valor que a luta pelos tesouros e conquista do poder. Na época do helenismo pré-clássico, no período do romance cavalheiresco, uma decepção erótica podia ser considerada por Arquíloco uma experiência significativa, de relevância duradoura, e a captura de uma mulher podia ser considerada um incidente in­comparável numa guerra heróica.

Os tragediógrafos conheciam o amor sexual como um poder au­têntico do destino, e seu repertório incluía ecos duradouros dos mitos.

Uma mulher, porém — Safo —, não foi igualada pelo homem na ca­pacidade de sentimento erótico. O período helênico clássico, o período do exército dos hoplitas, concebia as questões eróticas de uma forma relativa e excepcionalmente sóbria. Como o provam todas as suas con­fissões, esses homens foram ainda mais sóbrios do que a camada edu­cada dos chineses. Não obstante, não é exato que esse período não conhecesse a ansiedade mortal do amor sexual. O amor helênico ca­racterizou-se exatamente pelo oposto. Devemos lembrar-nos — apesar de Aspásia — do discurso de Péricles e finalmente da conhecida oração de Demóstenes.

Para o caráter exclusivamente masculino dessa época de “demo­cracia”, o tratamento da experiência erótica com mulheres como “des­tino da vida” — para usar nosso vocabulário — teria parecido quase que ingênuo e sentimental. O “camarada”, o rapaz, era o objeto exigido com toda a cerimônia do amor, e este fato ocupava precisamente o centro da cultura helênica. Assim, com toda a sua magnificência, o eros de Platão é, não obstante, um sentimento muito controlado. A beleza da paixão báquica não era um componente oficial dessa relação.

A possibilidade de problemas e de tragédia tendo por base um princípio surgiu na esfera erótica, a princípio, através de algumas exi­gências de responsabilidade que, no Ocidente, nascem do cristianismo. A conotação de valor da sensação erótica, como tal, evoluiu porém primordialmente e antes de tudo o mais sob o condicionamento cultural das noções feudais de honra. Isto aconteceu pela transferência dos símbolos da vassalagem cavalheiresca na relação sexual eroticamente sublimada. O erotismo recebeu uma conotação de valor mais freqüen­temente quando, durante a fusão da vassalagem e das relações eróticas, ocorreu uma combinação com a religiosidade cripto-erótica, ou direta­mente com o ascetismo como durante a Idade Média. O amor dos tro­vadores da Idade Média cristã foi um serviço erótico dos vassalos. Não se dirigia às moças, mas exclusivamente às mulheres dos outros ho­mens; envolvia (teoricamente!) noites de amor abstêmias e um código de deveres casuísta. Com isso começou a “provação” do homem, não perante seus pares, mas diante do interesse erótico da “dama”.

A concepção da “dama” foi constituída exclusiva e precisamente em virtude da sua função de julgar. A masculinidade do helenismo contrasta claramente com essa relação entre o vassalo e a “dama”.

O caráter especificamente sensacional do erotismo desenvolveu-se ainda mais com a transição das convenções da Renascença para o in­telectualismo crescentemente não-militar da cultura dos salões. Apesar das grandes diferenças entre as convenções da Antiguidade e da Re­nascença, estas últimas eram essencialmente masculinas e de luta; sob esse aspecto, aproximavam-se muito da Antiguidade. Isso se deve ao fato de que, à época de Cortegiano e de Shakespeare, as convenções renascentistas haviam acabado com a castidade dos cavaleiros cristãos.

A cultura dos salões baseia-se na convicção de que a conversação intersexual é importante como força criadora. A sensação erótica, clara ou latente, e a comprovação do cavalheiro perante os olhos da dama tornaram-se meio indispensável de estimular essa conversação. Desde as Lettres Portugaises, os problemas amorosos reais das mulheres tor­naram-se um valor de mercado intelectual e específico, e a correspon­dência amorosa feminina tornou-se “literatura”.

A última intensificação da esfera erótica ocorreu, em termos das culturas intelectualistas, quando essa esfera colidiu com o traço ine­vitavelmente ascético do homem especialista vocacional. Sob essa ten­são entre a esfera erótica e a vida cotidiana racional, a vida sexual especificamente extraconjugal, que havia sido afastada das coisas co­tidianas, pôde surgir como o único laço que ainda ligava o homem à fonte natural de toda vida. O homem emancipara-se totalmente do ciclo da velha existência simples e orgânica do camponês.

Uma tremenda ênfase de valor sobre a sensação específica de uma salvação interior em relação à racionalização foi o resultado disso. Uma alegre vitória sobre a racionalidade correspondeu, em seu radi­calismo, à rejeição inevitável, e igualmente radical, de uma ética de qualquer tipo de salvação no outro mundo, ou supramundana. Para essa ética, a vitória do espírito sobre o corpo deveria encontrar seu clímax precisamente aqui, e a vida sexual poderia até mesmo adquirir

o caráter de ligação única e necessária com a animalidade. Mas essa tensão entre uma salvação da racionalidade que se voltava para o mundo interior e a que se voltava para o mundo exterior será mais aguda e mais inevitável precisamente onde a esfera sexual é sistema­ticamente preparada para uma sensação erótica muito valorizada. Essa sensação reinterpreta e glorifica toda a animalidade pura da relação, ao passo que a religião salvadora adquire o caráter de uma religião de amor, fraternidade e amor pelo próximo.

Nessas condições, a relação erótica parece oferecer o auge insu­perável da realização do desejo de amor na fusão direta das almas entre si. Nessa entrega sem limite é tão radical quanto possível em sua oposição a toda funcionalidade, racionalidade e generalidade. É citada aqui como o significado singular que uma criatura, sem sua irracionalidade, tem para outra, e somente para essa outra específica. Do ponto de vista do erotismo, porém, esse significado, e com ele o conteúdo de valor da própria relação, baseia-se na possibilidade de uma comunhão experimentada como uma unificação completa, como um desaparecimento do “tu”. É tão esmagadora que pode ser interpre­tada “simbolicamente”: como um sacramento. O amante considera-se preso à essência da verdadeira vida, que é eternamente inacessível a qualquer empresa racional. Sabe-se livre das frias mãos ósseas das ordens racionais, tão completamente quanto da banalidade da rotina cotidiana. Essa consciência do amante baseia-se na indelebilidade e inexauribilidade de sua própria experiência, que não é comunicável e, sob esse aspecto, equivale à “posse” do místico. Isso ocorre não apenas devido à intensidade da experiência do amante, mas à dedicação da realidade possuída. Sabendo que a “própria vida” está nele, o amante coloca-se em oposição ao que, para ele, é a experiência sem objetivo do místico, como se enfrentasse a luz mortiça de uma esfera irreal.

Assim como o amor consciente do homem maduro está para o entusiasmo apaixonado do jovem, assim a ansiedade mortal desse ero­tismo do intelectualismo está para o amor cavaleiresco. Em contraste com esse último o amor maduro do intelectualismo reafirma a qualidade natural da esfera sexual, mas o faz de modo consciente, como uma força criadora materializada.

A ética da fraternidade religiosa opõe-se, radical e antagonica­mente, a tudo isso. Do ponto de vista de tal ética, essa sensação interior e terrena da salvação pelo amor maduro compete, da forma mais aguda possível, com a devoção a um deus supramundano, com a devoção a uma ordem de Deus eticamente racional, ou com a dedicação de um anseio místico de individuação, que só parece “genuíno” à ética da fraternidade.

Certas inter-relações psicológicas das duas esferas aumentam a tensão entre religião e sexo. O erotismo mais elevado coloca-se psico­lógica e fisiologicamente numa relação mutuamente substitutiva com determinadas formas sublimadas da piedade heróica. Em oposição ao ascetismo racional, ativo, que rejeita o sexo como irracional, e que é considerado pelo erotismo um inimigo poderoso e mortal, essa relação sucedânea é orientada especialmente para a união mística com Deus. Dela segue-se a constante ameaça de uma revanche mortalmente re­quintada da animalidade, ou de um deslizar inexorável do reino místico de Deus para o reino do Demasiado-Humano. Essa afinidade psicológica aumenta naturalmente o antagonismo dos significados interiores entre o erotismo e a religião.

Do ponto de vista de qualquer ética religiosa da fraternidade, a relação erótica deve manter-se ligada, de forma mais ou menos requintada, à brutalidade. Quanto mais sublimada for, tanto mais brutal. Inevitavelmente, esta relação é considerada de conflito. Tal conflito não é exclusivamente, nem mesmo predominantemente, o ciúme e a vontade de possessão, excluindo terceiros. É muito mais do que a coação mais íntima da alma do companheiro menos brutal. Essa coação existe porque jamais é percebida pelos próprios parti­cipantes. Pretendendo ser uma dedicação extremamente humana, ela constitui o gozo sofisticado de si mesmo no outro. Nenhuma comunhão erótica consumida sabe-se baseada em qualquer outra coisa que não uma destinação misteriosa de um para o outro: o destino, neste sentido mais elevado da palavra. Com isso, ela se sabe “legitimada” (num sentido inteiramente amoral).

Mas, para a religião da salvação, esse “destino” é apenas o in­cêndio puramente fortuito da paixão. A obsessão patológica, assim cria­da, a idiossincrasia e as variações de perspectivas e de toda justiça objetiva podem parecer, à religião da salvação, como a mais completa negativa de todo o amor fraternal e toda servidão de Deus. A euforia do amante feliz é considerada “boa”; tem a necessidade cordial de poe­tizar todo o mundo com características felizes, ou encantar todo o mundo num entusiasmo ingênuo para a difusão da felicidade. E encontra sem­pre a zombaria fria da ética radical, e de base verdadeiramente reli­giosa, da fraternidade. Os trechos psicologicamente mais completos das obras de Tolstói podem ser citados, quanto a isso. Aos olhos dessa ética, o mais sublime erotismo é o pólo oposto de toda fraternidade, orientada religiosamente nestes aspectos: deve, necessariamente, ser exclusiva em sua essência interior; deve ser subjetiva no mais alto sentido imaginável; e deve ser absolutamente incomunicável.

Tudo isso está, decerto, longe do fato de que o caráter apaixonado do erotismo, como tal, parece à religião da fraternidade uma perda indigna do autocontrole e da orientação no sentido da racionalidade e sabedoria das normas desejadas por Deus ou da “posse mística” da santidade. Para o erotismo, porém, a “paixão” autêntica, per se, constituio tipo de beleza, e sua rejeição é blasfêmia.

Por motivos psicológicos e de acordo com seu sentido, o delírio erótico só está em uníssono com a forma orgiástica e carismática de religiosidade, que, porém, num sentido especial, é interiorizada. A acei­tação do ato do matrimônio, da copula carnalis, como “sacramento” da Igreja Católica, é uma concessão a esse sentimento. O erotismo entra facilmente numa relação inconsciente e instável de substituição ou fusão com o misticismo exterior e extraordinário. Isso ocorre com a tensão interior muito forte entre erotismo e misticismo. Ocorre porque são psicologicamente substitutivos. Fora dessa fusão, o colapso no or­giasticismo ocorre muito rapidamente.

O ascetismo voltado para o mundo interior e racional (ascetismo vocacional) só pode aceitar o matrimônio racionalmente regulamentado. Esse tipo de matrimônio é aceito como uma das ordenações divinas dadas ao homem, como uma criatura inevitavelmente amaldiçoada em virtude de sua “concupiscência”. Dentro dessa ordem divina, é dado ao homem viver de acordo com as finalidades racionais que ela impõe e somente de acordo com elas: procriar e educar os filhos, e estimular-se mutuamente ao estado de graça. Esse ascetismo racional interior deve rejeitar a sofisticação do sexo transformado em erotismo, como uma idolatria do pior gênero. Por sua vez, esse ascetismo reúne a sexualidade primária, naturalista e não-sublimada do camponês, transformando-a numa ordem racional do homem como criatura. Todos Max_Weberos elementos da “paixão”, porém, são então considerados resíduos da Queda. Segundo Lutero, Deus, para impedir o pior, é tolerante para com esses elementos de paixão. O ascetismo racional voltado para o mundo exterior (asce­tismo ativo do monge) também rejeita os elementos apaixonados, e com eles toda a sexualidade, como um poder diabólico que põe em risco a salvação. A ética dos quacres (tal como se evidencia nas cartas de William Penn à sua mulher) bem pode ter conseguido uma inter­pretação autenticamente humana dos valores interiores e religiosos do casamento. Sob tal aspecto, a ética quacre foi além da interpretação luterana, um tanto grosseira, do significado do matrimônio. De um ponto de vista exclusivamente interior, somente a ligação do matrimônio com o pensamento da responsabilidade ética de um pelo outro — daí uma categoria heterogênea à esfera exclusivamente erótica — pode encerrar o sentimento de que alguma coisa única e suprema poderia estar encerrada no matrimônio; que ele poderia ser a transformação do sentimento de um amor consciente da responsa­bilidade, através de todas as nuanças do processo vital orgânico, “até o pianíssimo da velhice”, e uma garantia mútua e uma dúvida mútua (no sentido de Goethe). Raramente a vida oferece um valor em forma pura. Aquele a quem é dado, pode falar da graça e fortuna do destino — e não do seu próprio “mérito”.

Extraído de “Rejeições Religiosas do Mundo e Suas Direções”  in: TRAGTENBERG, Maurício (org.). Textos Selecionados / Max Weber. São Paulo, Abril Cultural, 1997. pp. 275-281. Dísponivel em goo.gl/4dfWZH.

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