Holywood nos lembrando de nosso Oblivion?

[Brayan Seixas]

Um dos títulos mais comentados do cinema mainstream este ano parece ter sido muito injustamente criticado. Oblivion, a ficção científica do diretor Joseph Kosinski, protagonizada por Tom Cruise, foi descrita por quase a totalidade dos veículos de comunicação como uma verdadeira decepção, uma obra repleta de clichês e óbvias alusões a outros filmes do gênero. No entanto, isso é tudo que pode ser dito criticamente sobre a obra? Seria este apenas mais um blockbuster hollywoodiano gerador de renda?

Ao longo deste texto tentarei mostrar a profunda e bela arte contida em todo o filme. Argumento que nele são abordadas questões filosóficas fundamentais, de valor inestimável.   Não há dúvida, por outro lado, que a estética do filme enquadra-se perfeitamente bem nesta moldura criadora da indústria cultural, com dezenas de minutos de tiros, explosões e músicas que causam aflição mais pelo volume em que são inseridas no contexto global do que pela composição propriamente dita. Recuso-me apenas a esta reducionista visão maniqueísta entre arte comercial e arte pura e, assim, me arrisco e me exponho aos simplistas, eficientes e vulgares posicionamentos críticos que a reforçam. Alguns podem afirmar que Kosinki não pensou em nada do que aqui trato. A recorrência de metáforas neste caso, entretanto, aparece como demonstração da intencionalidade e não mera coincidência. Independente desta questão, Calvino surge aqui para nos trazer esclarecimento: “Quem comanda a narração não é a voz, é o ouvido”.

Para aqueles que não viram o filme, aconselho que vejam antes de ler o restante deste texto. Não me atreverei a fazer uma descrição da obra, afinal já tive essa lição com Manoel de Barros: “Acho que o nome empobreceu a imagem”.

Todas as reflexões filosóficas desenvolvidas aqui podem ser agrupadas em dois temas gerais: 1) memória e realidade e, 2) coisificação e emancipação. Não seria necessário dizer que esses limites são arbitrários, mas de algum modo ajudam a sistematizar a multitude de questões implícitas ou explícitas no filme.

Inicia-se o filme pelo sonho que Jack (Tom Cruise) tem recorrentemente, sonho este que vem na forma de lembrança, de um fato, porém, jamais vivido. As imagens sonhadas de Jack e da mulher aparecem algumas vezes, não sabendo exatamente se se trata da recordação de um sonho ou de uma lembrança. Contra-intuitivamente, Jack resigna-se à realística certeza da não vivência de tal fato. Assim, a distinção entre realidade e sonho é de, algum modo, questionada pelo constante sentimento de dúvida que acomete o personagem. Afinal, qual é o estatuto da realidade? Qual a substância dos sonhos?

Podemos admitir a realidade como um sonho compartilhado e os sonhos individuais como realidades singulares paralelas? Estaríamos nós em um sonho do qual ainda não acordamos? Não seria a loucura a vivência de um sonho individual no âmbito da vivência dos sonhos vividos coletivamente? O que pode ser conclusivamente dito acerca destas fronteiras entre sonho, vida real e morte? Seria o conteúdo dos sonhos o determinante do conteúdo da realidade ou vice-versa? Os sonhos tornam-se fatos ou os fatos tornam-se sonhos? Estas reflexões talvez sejam tão antigas como propriamente o que chamamos história, aparecendo em várias obras artísticas de diversos tempos. Já em Shakespeare temos a famosa (quase vulgar) frase: “Somos feitos do mesmo material dos sonhos e a nossa curta vida acaba com o sono”.

O tema é aprofundado no filme quando percebemos que o sonho de Jack é a realidade vivida por outro Jack. Ora, embora seja isso de uma beleza indescritível, não é algo novo. Esse jogo está magistralmente presente em Borges. Em contos como El otro e Veinticinco de agosto, 1983, o personagem se depara com alguém que é ele mesmo em outro momento da vida. A realidade do narrador se desmancha frente à existência do outro, afinal, nossa “óbvia” separação entre o sonho e o real nos leva a crer que um dos personagens deve estar necessariamente sonhando o outro. O enigma talvez não possua solução plausível.

O que há de real nos múltiplos Jacks de Oblivion? Poderíamos admitir uma simplista assunção de uma ideia que se encerra em filmes deste gênero. A ficção científica aqui presente parece limitar-se à clonagem de seres humanos. A existência de múltiplos eus é um tema de fundamental importância para o ser humano. Não falo aqui das multiplicidades de nossa personalidade, da coexistência de diferentes, por vezes antagônicas, dimensões de nosso ser, como seriam os heterônimos de Fernando Pessoa.   A reflexão sobre a alteridade neste caso assemelha-se mais a ideia Borgiana do outro.

Os múltiplos Jacks talvez correspondam às nossas próprias vivências ao longo da história, quem fomos, quem somos e quem seremos. Quem nunca pensou em poder voltar ao passado contendo a memória da vida até agora para poder refazer a sua própria história? À primeira vista poderíamos tomar como absurdo tal pensamento ou, no mínimo, como estupidamente inútil. Por outro lado, não raramente justificamos algumas de nossas escolhas um tanto indesejáveis no presente através do desfecho final que encontraremos com o passar dos anos. Em outras palavras, muitas vezes tomamos decisões acreditando que a pessoa que seremos no futuro sabe que aquilo era, de alguma forma, necessário, acreditando que o eu do futuro tem uma visão distinta da nossa. Ora, não seria essa experiência no tempo de uma repetição do eu futuro? Qual é a lógica da presunção de mudança de posicionamento ao longo dos anos, senão se já vivemos este futuro e aqui estamos de volta refazendo nossa história? “O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer. Eu conversei com ele na vigília e ele ainda me atormenta” (Borges).

Avançando para o segundo grupo de reflexões, encontramos aqui a preciosidade do filme. O que ocorre com Jack ao longo da história é a libertação do ser no mais amplo sentido. Jack e Victoria são lançados em um mundo cuja narrativa já está toda pronta.

Embora muitos tenham feito a pobre associação entre o TET e sua destruição com a nave de Independence Day, a metáfora desta “brilhante máquina”, como referida por Malcolm Beech (personagem de Morgan Freeman), vai muito além dessa superficial apresentação. O TET representa tudo aquilo que nos domina e que nos temos que enfrentar.

A fala do TET para o Jack ao final do filme é emblemática: “Jack, eu te criei. Eu sou o seu deus”. Assim, esta máquina inventada pelo homem, mas que o domina pode ser encaixada na figura da religião, ou da ciência ou do dinheiro, por exemplo. O que é a religião senão uma criação do homem que o coisifica a tal ponto de dominá-lo por completo?

Particularmente em relação à ciência, a metáfora do TET se ajusta perfeitamente ao que representa este princípio ordenador em nossas vidas. No filme, foi precisamente a busca pelo conhecimento do objeto desconhecido que levou à completa coisificação do homem. Assim é a ciência em nossa sociedade. As verdades científicas são entendidas de tal modo que, em vez de constituírem uma explicação reconhecidamente limitada dos fenômenos experimentados, assumem uma ação normativa sobre as demais coisas. Destarte, a ciência passa a ser o deus criador e condutor da história, o elemento que se mantém fora do círculo hermenêutico manipulando os indivíduos que invariavelmente nele são lançados.

Lutar contra esta verdade não é tarefa fácil, pois pressupõe uma agressão corporal. A cena da luta entre os dois Jacks, a versão 49 e a versão 52, é fundamentalmente simbólica desta violência. Há um combate interno em nós, entre aquele eu que está preso à segurança da narrativa e legitima sua existência coisificada e um outro eu que quer libertar-se.

Dar lugar a esta essência libertadora é, entretanto, uma transgressão. Esse movimento, embora inerentemente humano, não é natural. Essa libertação, emancipação, esse ato de transcender expressamente é cultivar a nossa essência e deixa-la florescer.

Diante de uma transformação como esta, os seres ao redor tendem a nos inibir. Foi esta a reação da personagem Victoria (Andrea Riseborough) ao longo de todo o filme, tentando suprimir em Jack toda potencialidade de exprimir sua humanidade e libertar-se. Eles sabem do risco que é o amor, o pensamento, a arte, a filosofia e se eles não conseguirem impedi-lo, eles enfim tentarão matar este ser desviante, errante… humano.

A filiação às ideias metafísicas, deus, a ciência, a racionalidade na história, etc, gera precisamente esta “paixão intelectual” incondicional, capaz de exterminar todos em prol da manutenção desta alegada verdade. Agarrar-se a uma verdade como o TET é uma segurança que paralisa o ser humano, que o deixa cheio de medo. Há uma cena ainda na primeira metade do filme que retrata fielmente esta busca de matar aquilo que pode trazer vida. Jack retorna à base com uma flor e a mostra para Victoria, que imediatamente, com toda a frieza possível, trata de dar um fim aquele objeto que pode contaminá-los.

E a flor é assim mesmo, ela pode nos contaminar. Quem já viu um Girassol de Van Gogh pode confirmar esta sentença. Esta contaminação libertadora que a arte traz também aparece no filme com relação à literatura. Na mesma ocasião em que Jack leva uma flor, ele também carrega um livro, Lays in Ancient Rome, de Macaulay, o qual é lido sub-repticiamente.

Aliás, foi exatamente este livro que libertou Jack. Malcolm Beech afirma ter percebido alguma humanidade em Jack por causa deste livro que ele levou e estudou. Este pressentimento do personagem de Morgan Freeman traz consigo uma belíssima metáfora também. Ele diz ter percebido que Jack é especial. Reparemos, porém, que todos os “humanos” criados por TET são Jacks. Em outras palavras, todos nós somos especiais no sentido de que a essência e a potencialidade para sua transcendê-la explicitamente estão contidas em nós.

Há também uma óbvia referência ao mito da caverna de Platão muito belamente construída. Jack é capturado por Malcolm Beech e os demais humanos  e é levado para uma caverna. Lá, ele acorda em um local escuro, onde é capaz de vislumbrar a sombra de Malcolm, continuando incapaz, todavia, de perceber a verdade sobre este alienígena até então. Assim, dentro da caverna escura, Malcolm grita “LUZES” e tudo se torna claro. Torna-se possível ver que a caverna está cheia de seres humanos. Este é um momento chave do filme, onde a verdade vem à tona, revelando que estes seres supostamente inimigos, pertencentes a uma outra espécie, são, em verdade, seres humanos como ele.

As verdadeiras imagens do mundo não eram acessíveis para Jack até que um esclarecimento o toma conta. Ele não conseguia desvelar outras formas de narrar sua existência porque foi ensinado a não transgredir. É isto que Malcolm diz a Jack antes de acender as luzes: – “Você nunca viu um saqueador de perto, não é isso? Claro que não! Não vá à zona de radiação. Não faça muitas perguntas. Isto não é parte do trabalho”.

Falando em zona de radiação, uma interessante metáfora é construída através dessa ideia. As zonas de radiação são locais proibidos, cujas fronteiras, em verdade, encerram o território individual de cada versão do Jack. Neste sentido, a recomendação do TET estava correta: ir à “zona de radiação” é perigoso, pois lá se corre o risco de encontrar-se com você mesmo, de encontrar-se com o outro que preenche de significado sua existência. Não deve haver dúvida de que isso é perigoso.

Inúmeras outras metáforas e reflexões poderiam ser identificadas ou lidas no filme. A proposta aqui não é exauri-las, antes, porém, abordar aquelas que para este “eu” sobrepujaram as demais. Este ensaio talvez nem possua valor algum, afinal, a mais importante humanidade do filme, o amor, essa magia, esse sentimento incompreendido por Julia (Olga Kurylenko), o que conduz Jack a toda revolução de sua história não foi sequer abordado. Isto, contudo, caro leitor, não é descaso, é intencional.

Enfim, as conexões entre a memória e quem efetivamente fomos e somos, entre nossos sonhos e nossa realidade são pontos vitais para o aprofundamento da infindável busca de nós mesmos. Igualmente importantes são os movimentos de auto-violência, de estranhamento do familiar e de familiarização do estranho, de corajoso lançamento para dentro da nossa própria história e de transcendência da essência do nosso ser-aí. Toda esta atitude, nas palavras de Malcolm Beech, “é uma viagem sem volta, mas valeria a pena”.

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