O Diabo Sabe que lhe Resta Pouco Tempo

Paris, dezembro

Aline Magalhães Pinto

Numa noite dessas, ao descer a Champs-Elysée para ver “a mais bela avenida do mundo” decorada para o Natal, uma frase me veio à mente e logo se transformou numa espécie de ideia fixa: “O Diabo sabe que lhe resta pouco tempo”.

Champs-Elysée é desses lugares onde tudo mundo já foi ou quer ir. Nesta época do ano, o cosmopolitismo se radicaliza numa labiríntica e tensa Babel.  A frase lacônica do Apocalipse de João (12, 12)* me faz pensar que o Natal pode até ser o aniversário do Cristo, mas o fim de ano – nossa parcela anual de fim do mundo – é domínio do “Danado”. Como se o fim de ano convertesse a todos em pobres demônios, afligidos que somos por uma escassez de tempo aguda, severa e voraz. Quando chega o fim de ano fica claro para todos que tudo é uma questão de tempo. Por um lado, emerge em tons de verdade absoluta a sensação de que não há mais tempo. E os afazeres e projetos começam a ser sistematicamente adiados para o “ano-que-vêm”, inevitavelmente atrelados a todo tipo de promessa. Por outro lado, o sentimento de privação do tempo gera a necessidade de aproveitá-lo ao máximo, uma carga emocional que encontra seu alívio nas farturas e exageros gastronômicos e etílicos das inúmeras festas de fim de ano (do trabalho, da faculdade, do grupo de amigos, etcs; sendo o ápice, claro, Natal e Reveillon ) e na exacerbação consumista.

Em plena Vacances de Noël, quando mostra a versão natalina de sua ácida delicadeza, a Cidade-luz é um cenário privilegiado para observar, não uma contradição entre temporalidades distintas, mas uma dinâmica temporal tensa e bem orquestrada entre postergar e gastar. A cidade mais visitada do mundo lida com uma economia temporal que coaduna sem conciliação as expectativas dos milhares de turistas dispostos a tudo para levar para casa um pouco do luxo francês e desfrutar do romantismo parisiense, uma população orgulhosamente avessa ao lado kitsch do consumismo desenfreado e as levas de imigrantes, sobretudo aqueles cujas origens culturais não se encontram nas tradições judaico-cristã, e que insistem em não se tornar invisíveis. É fim de ano para todos e todos estão na rua, todos estão sem tempo, todos sabem que, para 2011, já não há mais o que fazer e essa antecipação do fim deve ser aproveitada intensamente.

Para 2011, a administração da Ville investiu no clima de austeridade com elegância e refinamento bem representado pela figura de Audrey Tautou, uma espécie de madrinha do projeto de decoração deste ano, e pelos espelhinhos em forma de discos pendurados nas árvores, coisa que supostamente enfeita sem despesa energética. A meu ver, o que deveria ser uma obra de arte luminosa e dinâmica, com os anéis de diâmetros distintos e posições alternadas que envolvem as árvores em Champs-Elysée do L’arc de triomphe até a Place de la Concorde, abre mão de tal maneira da simbologia tradicional do natal, dispensando as estrelinhas, bolinhas, sinos, papais-noels e etcs, que a gente quase se esquece que é Natal. Quase, já que as filas gigantescas de turistas frenéticos para compras versus as inúmeras performances de grupos de jovens que chegam de RER (Trens que cortam Paris em direção às periferias) e metro para “faire la Fête”  garantem a especificidade do espetáculo do fim de ano.  Neste palco cada um luta por espaço para garantir o aproveitamento à sua maneira do tempo que resta, antes que o ano se acabe.

Chegando a Place de la Concorde me deparo com outra face do fim de ano em Paris, essa visivelmente enraizada em tradições bem antigas: uma feirinha que se chama marché de Noël, cuja origem remonta mais ou menos ao séc. XIV , e que são sempre acompanhadas por um  carrossel e outros brinquedos gratuitos. Os brinquedos conferem qualquer coisa de pueril ao natal da grande cidade. No caso do marché da Concorde há a imensa roda gigante colocada no final da Champs-Elysée garante um efeito visual bastante agradável e oferece uma vista panorâmica única ao preço de 10 euros. Como o Marché da Concorde existem vários outros espalhados por toda Paris, são “super sympa” e vendem todo tipo de artesanato e comidas típicas, tudo isso acompanhado pelo vin chaud, que para uma brasileira e sobretudo  mineira vai remeter diretamente ao quentão de festa junina. Nesses mercados pode-se deliciar uma culinária francesa que não corresponde exatamente à frugalidade das pequenas porções da alta gastronomia. Pelo contrário, grandes quantidades de gâteaux, pâtisseries, confiseries, charcuteries e pães de todos os tipos, estão ali para satisfazer os amantes da boa comida.

Contrastando com o projeto éco-responsable da prefeitura de Paris, fora da Champs-Elysée encontramos uma decoração exuberante e diversificada graças à iniciativa da associação de comerciantes locais reunidos na operação « Paris Illumine Paris ». Em todos os bairros há ruas com iluminação natalina e por fim toda cidade fica muito charmosa e mais iluminada do que já é. Destaque incontestável para o Boulevard Haussmann com as vitrines e decoração da Magasins Printemps e Galeries Lafayettes. Verdadeiros templos do consumo em Paris que se transformam, com suas vitrines de bonecos dançantes, num passeio familiar para o parisiense e também para turistas. Enquanto os bonequinhos entretêm as pessoas com um noël Rock’nRoll, dentro dessas galerias, inusitadas filas para entrar em lojas de luxo como Chanel e Vuitton.

E é assim que em Paris, sem previsão de neve e sem fogos de artifício, 2011 cumpre seu epígono, ao passo que nós – primeira pessoa mais que retórica-, aguardamos como uma redenção a renovação da cota de tempo, quando voltamos a ter a sensação de tempo de sobra, um ano novinho, que acabará de começar.

Mais  sobre o fim de ano em Paris:

http://www.paris.fr/noel

http://www.paris.fr/loisirs/les-grands-rendez-vous/noel/plein-feu-sur-les-rues-de-paris/rub_10064_stand_108653_port_25228

http://www.sortiraparis.com/loisirs/articles/45110-la-grande-roue-de-paris-a-la-concorde-revient

*Pelo que alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Mas ai da terra e do mar! porque o Diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta. (Apocalipse, 12:12)

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