Tudo o que você queria saber sobre a diversidade linguística e não tem mais língua pra perguntar

[Beto Vianna*]

Antônio Risério, no seu Oriki Orixá, nos diz que pode haver povos sem deuses (se assim são os índios suyás) e não existir, no planeta, um só povo sem poesia. Pensando bem, a universalidade poética não é surpresa. Poetar é amassar o mesmo barro de que são feitas as conversas dos humanos com o mundo à sua volta e consigo mesmos: a linguagem. Pelo mesmo motivo, outro fenômeno universal é a estonteante diversidade de nossas línguas. Para cada povo – ou “comunidade de fala”, dizem os linguistas -, a língua brota de um jeito particular nas conversas próprias da comunidade. E a diversidade não se resume a uma simples equação entre línguas e povos. Tal como a poesia, a linguagem é um torno em atividade constante, moldando formas inesperadas a cada toque das mãos. Tal como na poesia, cada vez que conversamos com alguém, mudamos irreversivelmente nosso modo de estar no mundo, mudando, por sua vez, o próprio espaço da linguagem.

A diversidade humana no falar e no ouvir deveria encantar a todos. Infelizmente, não é bem o caso. Há séculos, alguns de nós (vergonhosamente, também humanos) descobriram que a maneira mais eficaz de excluir, explorar e espoliar uma pessoa é romper a ligação umbilical entre seu modo de viver e o seu modo de dizer. Posta em prática, a empreitada teve como resultado o desaparecimento de milhares de línguas, e, o que de fato é grave, das relações humanas que essas línguas traduzem. Essa é a situação depauperada que vivem, hoje, milhares de povos no mundo (eu me arrisco a dizer: todos), após cinco massacrantes séculos de empresa colonial e pós-colonial.

O seminário e os seminaristas

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Fotos: Iphan

Foi esse grave (mas esperançoso) cenário que provocou, de 17 a 20 de novembro de 2014, em Foz do Iguaçu, o Seminário Ibero-Americano da Diversidade Linguística. Autoridades, professores, cientistas, poetas, lideranças indígenas e representantes de línguas minoritárias de vários países da América Latina e da Península Ibérica se reuniram para renegociar a dívida que temos com a nossa diversidade linguística, bem como propor políticas públicas na área.

Tinha de ser Foz para acolher um evento assim. Banhada pela tríplice fronteira – Argentina, Brasil e Paraguai –, a região é testemunha da antiga (e continuada) história de marginalização dos povos e línguas guaranis. O seminário foi organizado pelo Iphan, em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos e a nativa Universidade da Integração Latino-Americana. Primeira universidade bilíngue brasileira, a Unila está em vias de fazer do guarani (língua cooficial no Paraguai e no Mercosul) mais do que um rostinho bonito no currículo. Cristiane Grando, poeta e professora da Unila (talvez se perguntarmos a ela, nessa mesma ordem), resume bem a ópera do ponto de vista dos que vivemos a academia, como um “momento privilegiado de reflexão sobre nossas experiências cotidianas em educação superior, pesquisa e extensão universitária, contando com a participação de especialistas de várias partes do Brasil e de diversos países ibero-americanos”.

Ao lado de conversas e reflexões preciosas (não me pergunte em que língua: eram realmente várias), algumas ações importantes marcaram o seminário, como o reconhecimento, pelo Iphan, das línguas talian, asurini e guarani mbya como referências culturais brasileiras, passando a fazer parte do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (o INDL). Autoridades dos países Ibero-americanos também se reuniram durante o evento, para trocar experiências e propor políticas conjuntas (o que resolveram, não sei dizer – a sessão era restrita ao alto clero). Voltando à não oficialidade, as mesas foram divididas em três eixos temáticos: direitos linguísticos e línguas minoritárias, as línguas portuguesa e espanhola no cenário atual (um tópico mais ao gosto de quem se liga na economia linguística mundial, que não é meu caso), e produção e gestão de conhecimento sobre diversidade linguística. Um fórum com a participação de professores da Unila e sessões com apresentação de relatos de experiência deram voz à diversidade cultural e política dos presentes.

Como não há espaço para percorrer o seminário todo, concentro-me nos palestrantes que encerraram e abriram o evento, o Padre Bartolomeu Melià e o professor José Bessa. Apesar dos votos, o padre é talvez o crítico mais ácido, mais longevo e mais consciente das políticas linguísticas ainda vigentes neste canto do mundo, cuja perversidade deveu-se, originalmente, principalmente e por muito tempo, ao papel da Igreja nas Américas, com menção desonrosa para a Companhia de Jesus. Melià nasceu na espanhola Mallorca, mas foi no Paraguai, estudando as línguas e as gentes guaranis, que construiu sua sensibilidade e uma obra fantástica. E alarmante.

A floresta e os guaranis

Em artigo seu, Bartolomeu fala de deforestación linguística nas Américas. Parece, mas não é uma metáfora. Não é coincidência que cada evento de ocupação civilizadora dos espaços indígenas de convivência (em senso lato, as florestas), abra uma picada de adversidade linguística, que é a imposição de novos modos de dizer, de “apontar juntos” para o mundo, a uma gente que se fez gente em um ambiente linguístico e ecológico próprios. Note que o espaço original de linguagem (o que os políticos da linguística chamam de “línguas originárias”) nunca foi isolado, nunca foi fechado em si mesmo. Os povos indígenas das Américas sempre mantiveram e ainda mantêm inúmeros contatos linguísticos com as comunidades do entorno, falantes e ouvintes em outras línguas. Tal como na África ou na índia atuais, não é raro um indiozinho falar mais de uma língua além da materna, pois uma “língua” particular (tal como a costumamos objetificar) nada mais é que um nó na grande rede de conversações que mantemos uns com os outros, tenhamos ou não um jeito diferente de dizer as coisas.

A deforestación de que fala Bartolomeu Meliá não acontece, portanto, com as trocas, (enriquecedoras, aliás) linguísticas, tão próprias do bicho humano desde que nos entendemos por gente. O desmatamento linguístico ocorre quando autoritariamente se rompem modos de viver, em relações em tudo antissociais e, portanto, impeditivas do estabelecimento de um espaço de linguagem. No caso específico do encontro espanhol-guarani, Melià nos fala, inclusive, do intercâmbio de sons, de termos e de regras, que pouco difere das outras muitas trocas que essas duas línguas historicamente viveram. O desmatamento não trata, portanto, de cortes no “código linguístico”, mas nas relações entre os povos, entre as pessoas, que podem ou não ser relações sociais. O encontro dos europeus com os guaranis não foi. E continuam não sendo os encontros das frentes civilizadoras com os povos indígenas das Américas, aquelas responsáveis, como diz Darcy Ribeiro, pela mais assombrosa história de transfiguração étnica do planeta. O desmatamento arbóreo – literal? – portanto, não é só recurso metafórico para a motosserra da linguagem. Arrancado de suas condições tradicionais de existência, resta ao índio – ou a qualquer um – refugiar-se no deserto linguístico do opressor. Vivemos, ou deixamos de viver, exatamente aquilo que temos na ponta da língua.

Em sua palestra de encerramento, ensina o professor Melià (minha transcrição não é exata): “quando uma língua desaparece, não pergunte se ela estava fragilizada ou ameaçada, mas que economia colocaram no lugar dela”. E não precisamos tomar essa sugestão de Bartolomeu Melià por algum tipo de marxismo transplantado. É que nenhuma política linguística europeiforme, de ideologia da “língua única” (ou mesmo do farsante bilinguismo, como denuncia Melià), até hoje, foi implantada sem uma correspondente domesticação política, social e econômica daqueles que perderam a voz original. E sabemos muito bem a que e a quem isso serve.

 

“Até logo, agora não falo mais…”

José Ribamar Bessa Freire, amazonense exilado em universidades cariocas, onde leciona, estudioso da história de nossas línguas indígenas e, principalmente, um baita escritor de veias abertas (foi companheiro de Thiago de Mello no verdadeiro exílio, patrocinado pela ditadura), abriu o seminário com o assombro que o seminário merecia: “Em cinco séculos, mais de 1.100 línguas indígenas desapareceram do mapa do Brasil e outras tantas do continente americano, levando com elas conhecimentos, cantos, rezas, narrativas, poesia, mitos, afetos”.

No entanto – prossegue Bessa – se a atenção àqueles que perdem suas línguas já seria motivo suficiente para lutarmos contra o genocídio linguístico, se é – ou deveria ser – direito legítimo de cada povo, de cada pessoa, viver, amar e sonhar em sua própria língua, o cataclismo da perda linguística não se abate apenas sobre a cabeça de seus falantes. Inúmeras espécies de plantas e animais, que estão à beira da extinção pela mesma sanha civilizadora, são conhecidas apenas por povos cujas línguas estão igualmente em perigo de desaparecer.

Diz Bessa em artigo seu (ver aqui): “A sobrevivência das línguas ditas minoritárias interessa, portanto, não apenas aos seus falantes, mas ao conjunto da humanidade, pois está relacionada à preservação da biodiversidade”. Mais uma vez, vemos com tristeza que a deforestación de Padre Melià é tudo, menos uma figura de linguagem.

Em Foz, José Bessa nos apresenta a Dona Maria Rosa, moradora do Posto Indígena Icatu, em São Paulo, e ali a única falante da língua Ofaié Xavante. Ao escutar o que havia dito a um gravador, a velha inicia um diálogo com o aparelho, e pergunta pelo pai e pela mãe. Ao final, se despede: “Até logo, agora não falo mais porque estou rouca, viu?” A cena aparece no filme Terra dos índios, de Zelito Viana. Mas isso é 1978. Um diálogo para nunca se repetir mais.

Diversidade de línguas e diversidade da língua

É por essas e por outras que os linguistas-ativistas espanhóis (principalmente os catalães, mas também os galegos e os demais) não falam de “contato”, mas de conflito linguístico. E em política linguística, desconfia-se cada vez mais do termo línguas “minoritárias” preferindo-se o muito mais adjetivo minorizadas. Em um e outro caso, trata-se de substituir um termo escorregadio, despolitizante, por seu correspondente engajado, tensionante. No primeiro caso, questiona-se a aparente e enganosa neutralidade do contato; no segundo caso, denuncia-se a redução de um ato político destrutivo a uma condição inerente à língua. Independente do número de seus falantes, de seus contextos de uso ou dos modos de sua gramática, uma dada língua é um ponto nodal em uma rede de conversas, e toda tentativa de apagamento será conflituosa e minorizante para essa língua (nós, mineiros, conhecemos bem essa diferença, quando nos referimos às cidades “mineradoras” como, pelo contrário, mineradas).

Se posso levar às últimas consequências o que proponho neste texto, preciso dizer que o Seminário Ibero-Americano da Diversidade Linguística deixou um ponto a desejar (ainda que esse encontro tenha sido o primeiro do gênero, ainda que os organizadores e muitos participantes não vejam pertinência no meu ponto – dentro ou fora do seminário –, e ainda que o Padre Melià, na minha talvez entusiasmada interpretação, tenha, sim, abordado tal ponto). E o ponto é que, se de fato estamos preocupados em defender o direito de todos de viver suas vidas em suas línguas, a diversidade linguística não pode continuar a ser encarada como uma simples taxonomia de línguas. Há diversidade, inclusive e principalmente, em cada língua. Ou seja, os modos de dizer variam, mesmo quando decidimos dar um mesmo nome a um “conjunto de modos de dizer”.

O Brasil conversa hoje em cerca de 250 línguas nominais. Superando anos de minorização no conflito com o português (língua artificialmente única e oficial brasileira desde o século 18), alguns grupos vêm conseguindo espaço ou reconhecimento para suas línguas, fora do círculo estrito de suas conversas. Um bom exemplo é o município de São Gabriel da Cachoeira, que, em lei municipal de 2002, tornou cooficiais o nheengatu, o tucano e o baniwa já de fato, e agora de direito, faladas por sua população, inclusive não índios e índios de outras etnias, principalmente aqueles que perderam suas línguas originárias. Outro bom exemplo é o já mencionado INDL, que, em atenção ao decreto presidencial de 2010, promove a “identificação, documentação, reconhecimento e valorização das línguas portadoras de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.

Acontece que os “grupos formadores da sociedade brasileira” que têm sua língua minorizada não são apenas os conversadores das diversas outras línguas nominais não portuguesas. São, em sua maioria, falantes de português, mas um português rejeitado na maioria dos espaços institucionalizados de conversação, da escola ao atendimento médico, da vida profissional aos salões da justiça, dos meios de comunicação de massa à internet. A noção tipológica de língua (reforçada inclusive por nós, linguistas, e pelo nosso crônico fetiche pelo “código”) não nos permite colocar o dedo em todas as feridas da diversidade.

A norma e a adversidade

A diferença de forma e funções entre as variedades populares e uma língua padronizada, ou norma (remendada a partir de um dialeto conversado pelas classes endinheiradas), é um fenômeno antigo, que remonta às preocupações de gregos e romanos, passa pela formação dos Estados nacionais europeus, chega ao clímax no conceito de cidadania no século 18, e tem sido debatido enquanto tal. No caso da América Latina, e do Brasil, em especial, há uma história particularmente perversa, economicamente motivada, de marginalização ativa dos conversadores “desviantes”, ou, para nos mantermos fiéis ao vocabulário ativista, de institucionalização do desvio como forma de exclusão, de exploração e de espoliação de um enorme contingente de pessoas.

Essa situação antecede o estabelecimento do português como nossa única e máxima língua. Até o século 18, as línguas majoritárias (e, portanto, não minorizadas) do Brasil eram as línguas gerais, uma no antigo Estado do Maranhão e Grão-Pará, ao norte, e outra no Estado do Brasil, no centro e ao sul, as duas de base tupi (o tupinambá parece ter sido a fonte principal), normatizadas e promovidas pelos padres jesuítas, com a benção da Coroa portuguesa. O mesmo aconteceu no Paraguai, com uma variedade do guarani que hoje é língua materna de uma imensa população não índia, e nos países andinos, com o quechua. Munidas de dicionário e gramática, as línguas gerais tinham inclusive uma variedade escrita, presente nos catecismos e autos religiosos: Oré rub ybákype tekoár, principiavam todos os brasileiros o “Pai nosso”. Nessas línguas conversavam índios das mais diversas etnias, portugueses, e outros europeus. O português não era, certamente, uma língua minorizada, mas tampouco alcançava a importância e a abrangência das línguas gerais em território brasileiro. O que importa, aqui, é a que serviu e quais as consequencias da instituição, padronização e disseminação das línguas gerais.

Se o intuito primeiro da política linguística dos jesuítas era catequizar, o seu grande resultado foi a deforestación da diversidade linguística nas regiões de abrangência da língua geral. Pois ao lado da padronização do catecismo, havia a política de “descimento”, que confinava índios de várias etnias, inclusive de falares não tupis – os “tapuias” –, em aldeias comuns. Os aldeamentos eram, nas sempre precisas palavras de Darcy, criatórios de gente, destinados a suprir de mão de obra amansada os próprios padres, os colonos e a Coroa. Nem preciso relembrar como é incompatível um contexto com esse grau de sociopatia e o estabelecimento de um espaço relacional de compreensão mútua, uma linguagem. E a adversidade não termina aqui. Ao lado da hecatombe na diversidade de línguas nominais, ocorre outro fenômeno, que deixo a cargo do jesuíta João Daniel relatar:

Tem vários predicados os índios nheengaíba, que os distinguem das mais nações. O primeiro é seu dialeto totalmente diverso dos mais; e dele é, que tomaram a sua característica diferença nheengaíba, que quer dizer, má lingoagem.

 

Os nheengaíba são portanto, como nos explica Padre Daniel, assim chamados em língua geral, por sua “má linguagem”. E é uma língua de fato má, não só por não ser tupi, mas que, curiosamente, permanece má quando seu povo se apropria da língua geral. Em seu Tesouro descoberto da Amazônia (escrito na prisão, quando os jesuítas e sua língua geral não eram mais bem vindos no Brasil), Daniel nos explica o paradoxo. Havia, nas missões jesuíticas, duas variedades de lingoagem: a “língua geral verdadeira”, herança dos antigos tupinambás e devidamente normatizada e divulgada no catecismo, e a “língua geral corrupta”, falada pelos nheengaíba ou, a rigor, por qualquer conversador menos destro na pristina língua tupinambá, inclusive os portugueses. Ou seja, a imensa maioria da população.

Eis como nós, brasileiros, antes mesmo de falarmos a língua portuguesa, já errávamos a língua. Ou, para ser mais preciso, errávamos a norma. No meu entendimento, com consequências sociais muito parecidas com o que acontece em nossos dias, na continuada exclusão, espoliação e exploração da parcela mais numerosa dos brasileiros. Filhos das filhas dos filhos daqueles que aprenderam o português na floresta, no seringal, pastoreando o gado alheio, colhendo cana nas grandes fazendas ou lavando roupa na cidade grande. Todos nheengaíba na própria língua. Ainda hoje.

* Revisão: Daniele Martins

Link para outros textos de Beto Vianna na Revista Pittacos: http://revistapittacos.org/?s=beto+vianna

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