‘Personagens Conceituais’ de Fernando Pacheco [resenha]

[João Gabriel Alves Domingos]

Pode-­se tomar a filosofia como uma forma de ficção? Se pensarmos nos diálogos, talvez não seja um caminho tão absurdo. No entanto, preocupado em argumentar a favor da especificidade da filosofia, Gilles Deleuze (1925-­1995) rejeitaria a tese de alguns de seus contemporâneos segundo a qual a filosofia é um gênero literário. Por outro lado, a sua aversão aos dualismos também o impediria de tomá-­la como um discurso produtor do falso. Não porque assumindo a produção do falso nos afastamos  da  verdade, mas justamente porque o termo “ficção” parece deixar a verdade em sua sombra.  Sob  tantas  distâncias  frente  à  ficção,  como  Fernando  Torres  Pacheco  pôde  encontrar personagens onde apenas se enxergaria conceitos?

Em Personagens Conceituais: Filosofia e Arte em Deleuze (Relicário, 2013), Pacheco afirma que garantir a especificidade da filosofia não significa eliminar a possibilidade de zonas de vizinhança com a arte (e a ciência). Deleuze não foi o primeiro a utilizar estratégias artísticas para fazer filosofia: Nietzsche e muitos outros o precederam. Em Lógica do Sentido, Deleuze propõe fazer filosofia usando métodos inspirados na pop art. Junto com Félix Guattari (1930­1992), reclama para O Anti­-Édipo e Mil Platôs o emblema de uma escrita experimental. Além disso, a sua definição de filosofia como criação de conceitos faz referência à atividade mais fundamental do artista. Nesse sentido, graças à criação, há  uma  proximidade  profunda  entre arte  e filosofia. Bem entendido, o construtivismo filosófico de Deleuze se opõe à filosofia enquanto descrição, comunicação ou reflexão.

Pacheco nos ensina que pensar é criar um território sob o caos da experiência. O território filosófico é o conjunto de elementos a partir do qual os conceitos podem ser criados: o plano de imanência.  Trata-­se  de  uma  condição  de  possibilidade  não ­conceitual  necessária  à  criação de conceitos, por isso referida como a “imagem do pensamento” ou os pressupostos pré­filosóficos. A tese enfatizada por Pacheco é que, além dos conceitos e do plano de imanência, filósofos criam personagens cuja função é serem agentes de enunciação dos conceitos (performá-los, mais do que representá-­los).

Descartes é um dos casos privilegiados para apresentar o poder analítico do recorte da filosofia deleuziana. Nas Meditações, o plano de imanência é a própria subjetividade, o cogito um dos seus conceitos (cujos componentes são “duvidar, pensar, ser”) e o personagem conceitual cartesiano é o “idiota”,  ou  seja:  o  pensador  privado  o  qual  assume  a tarefa de pensar a partir de um completo esvaziamento cognitivo. “É ele quem intercede através da pena de Descartes e diz ‘eu penso’”.

Personagens conceituais não são mediadores do autor, ao contrário, são heterônimos filosóficos. A palavra “ficção”, nesse caso, faz sentido se compreendida como um procedimento de destituição subjetiva do autor, construção capaz de dar voz a individuações não ­pessoais. O livro de Pacheco mostra como há uma autonomia relativa dos personagens conceituais frente a um sujeito suposto como o seu criador voluntário. O pensador é forçado a pensar e a criação não pode ser entendida como um procedimento subjetivo e espontâneo de doação de sentido. Desse modo, Pacheco coloca-­se à frente em relação ao problema da filosofia contemporânea, a saber: como criar conceitos a partir de uma imagem do pensamento sem imagem, um pensamento sem sujeito?

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