A encarnação em Charlie Hebdo

[Faustino da Rocha Rodrigues]

 No momento em que Narciso vê o seu reflexo no espelho d’água, ignora se tratar de si mesmo. Desse modo, apaixona-se por desconhecer e, ao tentar uma aproximação, afoga-se. A imagem na cultura ocidental detém um pouco do mito de Narciso. No caso da imagem refletida por um espelho, trata-se de puro reflexo, sendo algo completamente distinto de sua realidade. O ser humano ocidental, moderno, dotado do então autoproclamado racionalismo ocidental, toma um distanciamento do reflexo e, portanto, da própria imagem, tomando-a como algo completamente distinto e, por conseguinte, desprovido de relação direta com a sua realidade. O problema é que cada tentativa de aproximação pode afoga-lo pela sua própria ignorância quanto ao conteúdo expresso naquilo que se lhe aparece.

Assim, ao longo de sua história, a partir da ideia de indivíduo ocidental moderno, dotado da capacidade de racionalização do mundo e, por sua vez, de realizar a objetivação de sua relação com o mesmo mundo e todas as suas coisas, utiliza a imagem como uma espécie de instrumento para transportá-lo a uma outra dimensão recriada em seu imaginário – talvez, uma herança platônica. A vivência com Deus, observada no catolicismo – reforçada após as determinações do Concílio de Trento – é exatamente isso. Portanto, o mundo em que vivemos, para a tradição cristã, é bastante distinto daquele outro mundo transportado pelas imagens religiosas. Logo, o que aqui se passa é tomado como secundário e não toca diretamente no espírito.

Quetzalcóaltl é também conhecido como a serpente emplumada, o deus do vento, do ar, da terra, o progenitor dos seres humanos, e foi personificado em incontáveis imagens ao longo da dilatada história das antigas culturas de Mesoamérica. Trata-se tanto de uma deidade como um líder humano associado com o centro cerimonial tolteca de Tula e com o centro maia de Chichén Itzá. E a sua passagem de deus para homem é provida de grande conotação dramática. Como Quetzalcóaltl representava a mais alta autoridade moral indígena, era intocável. Segundo a mitologia maia, ele seria desconhecedor de seu próprio corpo e supunha-se que o seu conhecimento o desautorizaria frente aos outros deuses. Não obstante, seus inimigos, usando um espelho, mostram seu corpo, fazendo com que encarne – detalhe: a encarnação da entidade se dá através da revelação da imagem no espelho. E, após a consciência de sua imagem, foge, com medo e vergonha de sua aparência humana, convencido de que seus vassalos, entre eles, outros deuses, o desrespeitariam.

O interessante da dramática história de Quetzalcóaltl é justamente o fato de o contato com o espelho promover a sua encarnação. Assim, ao encarnar, foge. Sua imagem, portanto, no entendimento da mitologia maia, não é puramente uma representação, tal como no mito de Narciso, mas sim a mais pura verdade, a realidade. Definitivamente, isso figura como um aspecto cultural fundamental na caracterização da civilização maia. Este povo que, nos termos ocidentais de hoje seria indiscutivelmente civilizado, mantinha uma relação com a imagem completamente distinta do aspecto puramente representativo, pois mantinham com a imagem a ideia da realidade, não objetivando-a de modo a gerar processos de distanciamento em relação a ela. O ser humano maia, portanto, é a sua própria imagem diante do espelho. Logo, uma imagem retratada, por sua vez, seria a mais pura verdade, seria aquela coisa retratada propriamente dita.

O meu desejo neste texto é chamar a atenção para o significado da imagem em nossa sociedade – ocidental, moderna, com o histórico de racionalização e objetivação da relação com o mundo. As imagens, para esta sociedade, de tradição europeia – cuja festa de inauguração foi a Revolução Francesa – funcionam com o objetivo praticamente exclusivo da representação – algo já muito complexo por si só. O seu significado, portanto, não está na capacidade de viver a experiência do mundo propriamente dito, justamente porque esta imagem, enquanto imagem, está desprovida de vida. É impossível, por si só, vivenciar a encarnação através dela tal como descrito no mito maia acima. E, dependendo do nível de ocidentalização em que estamos, é difícil até mesmo de pensar a partir de Quetzalcóaltl.

Não conheço praticamente nada da cultura muçulmana. Não me sinto autorizado a falar dela, ou em nome dela. Entretanto, suspeito que o valor de uma imagem, em uma cultura como a islâmica, é completamente diferente do valor desta mesma imagem em uma cultura como a ocidental moderna. Não se trata de admitir uma como sendo melhor do que a outra. São diferentes e, portanto, a sua relação com a imagem é igualmente distinta. Portanto, presumir a aceitação de uma imagem do profeta Maomé de maneira puramente objetiva, com distanciamento, pode ser algo exclusivo do universo cultural ocidental.

O distanciamento do indivíduo moderno em relação à imagem o permite trabalha-la livremente, de maneira a cria-la e recriá-la, através de processos artísticos dignos de admiração. Narram-se histórias a partir disso, faz-se piadas e mundos são inventados e criados. Normalmente, tudo se torna aceito enquanto possibilidade semântica, justamente porque existe um outro mundo, praticamente intocado, onde reside o espírito, que não está realmente representado através das imagens – grosseiramente falando, impossível de ser tocado pelo homem. E neste outro mundo reside, intocável, a perfeição, juntamente com a mais perfeita ordem. Ou seja, a religião também existe para este indivíduo ocidental e moderno, mas ela adquire outros contornos culturais a exigirem, igualmente, outros processos de leitura. E este outro mundo, na cultura ocidental moderna, pode adquirir contornos, por exemplo, de filosofia. Circunscreve-se, portanto, a ideia de sistemas, de ideologia e, conseguintemente, de racionalismo.

Repito, não sei como é a ontologia muçulmana, o seu universo cultural, o seu ser. Mas, presumo, minimamente, não ser o mesmo do indivíduo moderno. Não significa isso que seja como o de Quetzalcóaltl, da cultura dos indígenas pré-colombianos – pois, afinal, o fosso entre as diferentes culturas é tamanho a ponto de permitir-me ousar e falar em incomensurabilidade. Enfim, desejo aqui abrir possibilidades para o entendimento de que a relação dos muçulmanos com a imagem é algo completamente diversa e, igualmente, presume reações distintas.

Nada, absolutamente nada, justifica apontar uma arma a uma pessoa. Ninguém tem o direito de decidir sobre a vida e a morte de alguém. Portanto, os ataques ao jornal cômico Charlie Hebdo são injustificáveis. Entretanto, não sei se retratar de forma aparentemente jocosa a religião do outro não seria igualmente radicalismo – um radicalismo em versão racional. Entre a justiça e o justo existe uma linha tênue, mas pensemos que a relação dos muçulmanos em relação à sua imagem seja semelhante à de Quetzalcóaltl com o seu reflexo no espelho. Eles, portanto, tomariam o profeta Maomé retratado como a mais pura verdade, como o seu próprio ser, não sendo algo fora da realidade em que vivem. Logo, retratar, da maneira como fazem, seria ofender diretamente ao profeta, à sua religião e, portanto, à noção de mundo e de verdade. Desse modo, todo e qualquer muçulmano se sentiria ofendido. O problema é a existência de uma minoria radical que faz uma interpretação religiosa fundamentalista que, erroneamente, se sente no direito sobre a vida alheia.

Os responsáveis pelos atos terroristas desta semana devem ser punidos e ter o devido julgamento, tal como qualquer pessoa a cometer um crime. Assim como devemos respeitar as vítimas enquanto seres humanos, juntamente com suas famílias e o sofrimento vivido agora. Deixo aqui os meus sentimentos e o meu luto.

Novamente, reforço: nada justifica uma atitude terrorista tal como a vivenciada 7 de janeiro. Tampouco acredito que as vítimas sejam culpadas. Elas, de alguma forma, apenas propagaram uma ideia de liberdade de imprensa derivada, de certa forma, do fato de se conceber tudo como objeto e, portanto, distanciando-se de sua própria constituição enquanto indivíduo. Logo, tudo, em seu entendimento – que é algo muito cultivado em nossa sociedade ocidental – é possível de ser retratado. Talvez seja uma boa oportunidade de se pensar, ou pelo menos, introduzir novos elementos para se pensar em conceitos como liberdade, liberdade de imprensa, de expressão, racionalismo, tão cultivados em nosso mundo e que fazemos a questão de levar para outros, como uma verdade absoluta.

Para terminar, voltando na comparação entre Europa e América, valho-me de um livro de Alejo Carpentier, escritor cubano, teórico e crítico literário. Trata-se de “O século das luzes”, em tradução minha. No romance, o autor conta a história de Victor Hugues, um comerciante francês em uma ilha do Caribe que, durante uma revolução, vê todos os seus negócios destruídos. Repentinamente, tem de fugir para a Paris, em meio à Revolução Francesa. Engaja-se na causa e rapidamente, durante o Regime do Terror, é tomado como autoridade do governo revolucionário, conferindo-lhe a função de fazer a revolução liberal na América Central. Ou seja, em nossos termos, hoje, estaria encarregado de libertar a população americana e cultivar ideais como o de indivíduo e razão em solo caribenho. Assim o faz, partindo em direção ao Novo Continente com uma esquadra. E no porão de seu navio, carrega a guilhotina que trabalhará incansavelmente em solo americano, sempre em nome da razão.

Adendo

Para um melhor entendimento sobre a questão da imagem e o significado do mito de Narciso, é interessante o livro de Hans Belting, Likeness and presence: A history of the image before the Era of Art. Para uma percepção da imagem sob a perspectiva da estética, recomendo o livro de Buci-Glucksmann, La folie du voir: une esthétique du virtuel. Para a importância do mito de Quetzalcóaltl, recomendo La mirada exuberante: Barroco novomundista y literatura latino-americana, de Lois Parkinson Zamora.

Anúncios

2 comentários sobre “A encarnação em Charlie Hebdo

  1. Toda liberdade implica no mesmo grau em RESPONSABILIDADE. A falta de respeito pela crença alheia é uma atitude IRRESPONSÁVEL por parte de pessoas, que por ocuparem espaço na mídia, se consideram “intocáveis”, então, o radicalismo x radicalismo acaba sempre em tragédia.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s