Cigarro dos Prazeres, das Paixões e da Cruz

Doidas e pretas fumaças a cada maço de branco careta

 [Beto Vianna]

 Prólogo

Este escrito nasceu por encomenda de meu terapeuta, como tarefa na guerra contra o (meu) tabagismo. Virou outra coisa, e pouco restou da finalidade original. Assim, o autor adverte: o artigo tem baixo teor de sanidade; compõe-se de cinco princípios ativos (subtitulados conforme o tipo); e não é recomendado para menores legais.

 Prazer I – O ócio

Lá pelo século XV, depois de enxotarem árabes, judeus e ciganos de suas terras (ou transformá-los em cordeiros), os senhores católicos da Espanha se deram conta do tédio que seria sem a graça dos infiéis. Investiram então as terras, gentes e dinheiros roubados num empreendimento que iria revolucionar a indústria do lazer de alta classe: a finca, traduzível por quinta em Portugal, ou casa de veraneio no português em geral (daí a expressão contra o êxodo rural, “fincar o homem no campo”). As fincas de Toledo, estanciadas às margens sul do rio Tejo, ganharam o nome cigarrais, homenagem à cigarra, que cantava despreocupadamente no verão dos ricos (no fabuloso reino animal, a cigarra é a embaixatriz do ócio humano). Nos cigarrais toledanos se comia, se bebia, se fornicava (só não se trabalhava) e se punha fogo em uma novidade recém-chegada do Novo Mundo: folhas picadas de tabaco, enroladas em palha de milho.

O tempo ainda não apagou o privilégio de uns poucos. Quem é pego com o cigarro na boca, tanto pode passar por sujeito classudo, se é um bon vivant, como por malandro, por inútil, se não é. E se para os ricos fazer fumaça é estilo de vida, para os demais de nós o cigarro é o merecido descanso entre um sufoco e outro, isso quando o sufoco não repousa no próprio ócio. Dois exemplos: no filme “Che”, de Soderbergh, os guerrilheiros (incluindo o asmático Ernesto) pitam a cada intervalo dos esforços revolucionários em Sierra Maestra; e em outros filmes ou fora deles, o cigarro é a estrela principal entre os detentos, preenchendo o vazio cotidiano, lumiando as iguais memórias do cárcere. Num e noutro caso – no ócio chique das fincas ou no entre-deux do proletariado – as baforadas cigarrais tanto repõem quanto tiram energia. Enchem o pulmão de gás revigorante enquanto, como vampiras, sugam a vida de quem imaginava descansar, substituindo (e perpetuando) o cansaço obrigatório pela fadiga prazerosa.

 Paixão I – O sexo

 Outros momentos extenuantes da vida carnal combinam com a pausa para o pito. É o caso de Fred Astair e Ginger Rogers no filme “A alegre divorciada” (o título inglês é massa: “The gay divorcee”). Sem saber que se trata de uma mulher casada, Guy (Fred) apaixona-se por Mimi (Ginger), e o pós-clímax final da famosa sequencia de dança é o cigarro ingenuamente oferecido pelo macho e ingenuamente aceito e aceso pela fêmea, celebração icônica do merecido ócio ex coitus. Lembro-me de uma imagem antifumo, dessas estampadas nos maços: o casal na cama, a mulher faz cara de insatisfeita, e o homem, placidamente, fuma. Se a advertência era a da impotência masculina, lograram justamente o oposto: que mal há, para um decaído garanhão em busca de prazer, encontrá-lo no fiel cigarro e, não, na volúvel parceira?

O caso é que não há que acender o cigarro após o ato para pornografar o cigarro. A brasa já estava acesa durante. Cigarro é um canudinho na boca, uma chupeta (uma etimologia sugerida para cigarro, “cigarra”, é dada pelo formato tubular desse inseto; em catalão, “cigala”, o bicho, é um dos nomes do pênis). É por aí que as divas e dândis de antanho usavam piteira, um tipo de preservativo bucal, ou boquilha. E por isso Freud, temendo que seus boquetes caíssem na boca no povo, saiu-se com a famosa explicação: “Há momentos em que um charuto é apenas um charuto”. Ah, doutor! Sabemos que você sabe que não há momentos assim.

 Prazer II – A mente

O tabaco é uma droga. Não, sem ofensa. No sentido amplo e químico do termo, droga é toda substância – natural ou engenhada – com propriedade de atuar na mudança (ou conservação) dos processos fisiológicos de quem a usa, pela via que for. Tal propriedade é o princípio ativo da droga. E em sentido restrito e costumeiro, tal princípio é psicoativo: atua no sistema nervoso de pessoas e outros animais. Como as demais drogas, as psicoativas podem ter mil fins: terapêutico, mágico, lúdico e até letal. O tabaco cabe como luva nessa lista enorme em que perfilam a coca, o cacau e o café, a Cannabis, a cana e a camomila, o aiuasca e o aguardente, a mimosa e o maracujá.

Em pó para inalar ou picado para fumar, o tabaco tem tradição milenar de psicoatividade, testada e aprovada por centenas de povos índios das Américas. Mas, cá entre nós, droga, no comum e contemporâneo do termo, é aquela que, para o bem ou para o mal, faz a cabeça. E o tabaco faz. Tal como o mascador de coca dos altiplanos, o usuário do tabaco, além do doce deleite, recebe podres poderes, tornando-se mais sábio e mais destro, ainda que por breve período. Invertendo o tema do pito ocioso, cigarro é droga utilíssima na realização de tarefas que se beneficiam de uma mente mais desperta. Tarefas manuais, mas, sobretudo, sociais e emocionais: rir, sonhar, politicar, conviver, amar. Uma temática recorrente da droga, a dependência, deve um pouco de sua razão a esse prazer do usuário que, enquanto sob efeito do tabaco, se vê como uma pessoa melhor. Depois, é só acender mais um.

 Paixão II – A alma

A mãe natural do cigarro, o tabaco, também tem propósitos elevados enquanto droga. Serve para conversar com os deuses (ou com Deus, se o fumante, não bastasse um vício, ainda é monoteísta). A relação das pessoas (e talvez outros animais) de quase todas as culturas com o divino não é direta: precisa de um suporte, um veículo, e esse veículo é a droga. Aqui amplio a noção de droga, pois o crucial não é a substância, mas o efeito no organismo, na percepção. Um canto gregoriano, uma multidão gritando em uníssono no Mineirinho ou um cigarro partilhado numa roda de índios Sioux conduzem a divindade para perto ou transportam o ouvinte, gritante ou fumante para longe, o que dá no mesmo, pois o resultado é o estado alterado, não exatamente da mente, mas (desculpem-me o termo controverso) da alma.

Se religião, dizem, tem o étimo latino religare, arrisco dizer que o papel espiritual do cigarro é reacendere. A cada encandecer do fumo, criam-se as condições emocionais e sensoriais da iluminação. A cada tragada, o torpor da droga dispõe o corpo para o transe, e a cada baforada, sobe a fumaça que baça a vista, propiciando aquilo que, no contexto espiritual, é paradoxalmente chamado visão. Mesmo se as condições plenas só se dão em culturas que fumam tabaco cerimonialmente, não devemos negligenciar o fato de que lumes e fumos são usados de forma muito mais católica através dos costumes, como os incensos, que inebriam, ou as velas, que iludem. Ou o consumo, nem tão simbólico assim, de veículos como o pão ou o vinho. Como nos ensinou a lagarta de Alice, o filtro cultural esconde as portas para o sobrenatural, potencialmente abertas por obra e graça de cada cigarro fumado.

 A Cruz I – Os corpos

Nem tudo no cigarro são flores, nem folhas. A nicotina, tão publicamente difamada é, de fato, culpada da psicoatividade do tabaco, e dá o nome genérico da planta, Nicotiana tabacum. As nicotianas são da família Solanacea, nomeada segundo o latim solari (consolar, aliviar), justo pela tradição narcótica das plantas da família, como a beladona e a mandrágora (além de drogas como o tomate). Mas o cigarro nosso de cada dia, que produz bilhões de bitucas nos bueiros e bilhões de boatos nos botecos, está a anos luz das cândidas folhas de nicotiana enroladas em palha de milho para servirem de ócio, gozo ou fé da indiada ou dos cigarraleiros toledanos de 300 anos atrás.

No progressista século XIX, apogeu do mundo livre, empreendedores da França, Inglaterra e EUA descobrem as delícias de fabricar e vender cigarros para todos. Essa indústria, como tudo que é belo e generoso no mundo do capital, vem evoluindo desde então, aperfeiçoando-se em manter sua clientela fiel. À narcótica nicotina juntaram-se centenas de substâncias letais, como os gases tóxicos e os metais venenosos. E a grande sacada comercial do cigarro não é o coquetel mórbido, mas a sua engenharia inteligente, uma máquina finamente desenhada para decuplicar a psicoatividade da nicotina e assegurar a dependência do usuário. Por exemplo, no fumo está a amônia, que apressa a vaporização da nicotina e a sua chegada ao cérebro, aumentando e antecipando o prazer. No papel estão os anéis de óxido de titânio, que liberam mais nicotina ao acelerar a queima (essa desacelera no intervalo entre os anéis, dando sobrevida ao cigarro). Uma pena (mas o mundo tem que girar) que a amônia agrave o enfisema e a bronquite do fumante, e o óxido de titânio cause tosse e vermelhidão e inchaço na pele e nos olhos.

Subtitulei a cruz – a única cruz – do cigarro como “Os corpos”, assim no plural, pois não acho que o único pesadelo do cigarro, embora suficientemente trágico, seja a deterioração do organismo. Penso, igualmente, na putrefação das relações humanas. O dependente químico contemporâneo é um ser moralmente abjeto, que fede um fedor mais forte que o da fumaça que exala, pois não tem força de vontade, hombridade ou a decência de se ver livre de um vício que queima a sua reputação. Como sou um desses zumbis sociais, peço ao leitor que não conclua, daí, que meu maior desejo é inspirarpiedade. Não, não. O que mais quero (ao menos por enquanto) é acender outro cigarro.

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