Não Verás País Nenhum (Trecho)

[Loyola Brandão*]

REGOZIJEM-SE COM O OURO DE NOSSOS GARIMPOS, COM A MADEIRA QUE PODEMOS EXPORTAR, ORGULHEM-SE COM AS SAFRAS IMENSAS DAS TERRAS FÉRTEIS, ONDE, PLANTANDO, TUDO COLHEREMOS. CULTIVEMOS O OTIMISMO, A CONFIANÇA, ABAIXO OS NEGATIVISTAS.

Duas coisas eram pior que o câncer para a Alta Hierarquia do Novo Exército: os espíritos negativistas e os comunistas. Eram caçados e isolados. Na altura do Grande Ciclo de Combate à Abertura da Igreja, também apelidada de Coliseu, os comunistas tinham se tornado bichos raros, quase extintos.

Um pouco pela repressão, e muito pelo desencanto, extinguiam-se, do mesmo modo que aves e animais da fauna brasileira. Com a diferença que os bichos podiam se dar ao luxo de reservas particulares, onde se tentava a sua reprodução em cativeiro. Já em cativeiro, os comunistas definhavam.

A última notícia sobre o que estava acontecendo ao norte, foi dada por um Ministro, o dos Negócios Imobiliários, cargo criado pela necessidade de se controlar a especulação, não somente nas grandes cidades, como em toda área do litoral, onde os loteamentos se sucederam, velozes e devastadores.

Na verdade, o Ministro cuidou voraz e imediatamente de proteger o seu grupo. Controlou a entrada de arrivistas, eliminou concorrentes. Uma tarde, célebre, ele declarou na televisão: “Devemos estar orgulhosos pela conquista que acabamos de fazer. Um grande feito deste governo que pensa no futuro.

Porque, disse ele, a história vai nos registrar como o Esquema que deu ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não é apenas a África que pode se orgulhar do seu Saara, o deserto que foi mostrado em filmes, se tornou ponto turístico, atração, palco de aventuras, celebrado, glorificado.

A partir de hoje — e ele sorriu, embevecido — contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona maravilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, dunas, o curioso leito seco dos rios.”

Os filmes da Agência Oficial mostraram, gradualmente, a desertificação, com as imagens mais sofisticadas que o povo tinha visto. Empresas de publicidade promoveram campanhas, induzindo revistas requintadas a realizar caravanas. Os ricos se divertiram, fantasiados de árabes.

A Primeira Dama recebeu, em tendas de seda fincadas na areia, iluminadas por fogueiras e archotes. Ventiladores agitavam palmeiras artificiais. Os decoradores assistiram a centenas de filmes hollywoodianos de mil e uma noites, para se inspirarem e produzirem os incomparáveis cenários.

Helicópteros desceram nas areias mornas, trazendo elite misturada a dançarinas do ventre. Um colunista, antes de morrer, afiançou que nem a grande festa que o Xá do Irã deu em Persépolis foi semelhante. Outro ria ao se lembrar da pomposa inauguração do conjunto Las Hadas, no México.

Ele gritava, antes de ser reconduzido ao sarcófago, que a noite dos Patino tinha sido uma ingênua festa de criança. O baile da Primeira-Dama foi o canto de cisne dos colunistas sociais. A presença destes espécimes assombrou as novas gerações que não podiam acreditar em sua existência.

Os colunistas se ergueram das cadeiras de roda nas clínicas geriátricas, onde andavam sepultados. Receberam alta nos sanatórios de doenças mentais. Abandonaram confinamentos, seguidos pelos enfermeiros. Foram recolhidos um a um em suas mansões estentóreas, onde jaziam exangues.

Trêmulos, babavam e balbuciavam. Alegravam-se, cientes de novos velhos tempos. Se diziam mudos de prazer. No entanto, os maldosos garantiam que balbuciar sempre foi uma característica da classe, incapaz de alinhar quatro palavras seguidas, formando uma única frase coerente, inteligível.

Os colunistas morreram todos, ao raiar do sol, antes do café da manhã estar servido. Caíram ao amanhecer, como generais chineses. Deslumbrados, sufocavam-se de bajulação, afogavam-se em gratidão, agradecendo com beijos babosos a dádiva dos todo-poderosos a quem tinham sempre servido.

Foi quando se deu a punição ao cientista. Quero dizer, a primeira após os Abertos Oitenta. Penso que esta pena marcou o início de um novo tempo. Nestes últimos anos, saltamos rapidamente de um ciclo para outro. Mal nos acostumamos a um, precisamos mudar. Incessantemente.

Fomos ingênuos. Como eu, muitos. Tínhamos nas mãos posições através das quais era possível, lentamente, instilar um gesto de lucidez, um pouco de consciência. Semente de inquietação. Alarme. Mesmo com toda a vigilância. Afinal, um professor em quem alunos confiam, é muito mais que um pai.

Sim, aquele cientista protestou. Teve coragem. Quem lembra seu nome, hoje? Havia na universidade um livro negro. Intenso relato da perseguição que professores, pesquisadores, médicos, cientistas,  sofreram. Até o momento em que os registros não adiantaram. A exceção virou normalidade.

Convivemos com ela, nos habituamos. O cientista punido não me sai da cabeça. Eu estava no hall da universidade, quando ele passou. Soube antes, pelos noticiários da tarde. Ficou esperando, o reitor desceu com um comunicado para a sala dele. Saiu, sem abrir uma gaveta, sem levar um só papel.

Ao passar por nós, no hall, parecia o mesmo homem de todos os dias. Nem a cabeça abaixada, derrotado. Nem erguida, sinal de orgulho e indiferença. Homem normal. Tinha acabado de perder os seus direitos. O de professor, o de circular, comprar, conversar com os outros. O de viver, enfim.

Eu estava chocado. Não fazia ainda idéia exata do que se abatera sobre aquele homem. Um biólogo com teses nos Estados Unidos e Europa. Dava aulas há dezenove anos. Filhos e netos. Pouco mais e levaria vida tranqüila. No entanto, ele se ergueu. Sua voz indignada clamou. Contra o deserto.

Não calculávamos os resultados. A reação foi violenta. Deixou-nos confusos. Que raios de pesquisadores éramos, se não tínhamos sequer possibilidades de analisar lucidamente a situação? Pessoas com as nossas informações de realidade política e social deviam estar preparadas.

Prontas a calcular, misturar os dados, observar. Concluir os caminhos aos quais estávamos sendo levados. Nem era questão de previsão. Bastava contemplar os fatos e tirar ilações naturais. Como beber água quando se tem sede. A punição daquele homem foi a chave que nos forneceram, o aviso.

Não a utilizamos. Levei alguns meses perplexo, até a vergonha tomar conta de mim. Senti que devia ter atravessado o hall e me colocado ao lado do professor. Tivéssemos todos feito isso, algo poderia ter mudado. Os gestos decisivos faltaram em bons momentos de nossa história.

Dar as mãos simbolicamente. Penso muito nisso. Já se passaram tantos anos e ainda me imagino. Nós, juntos, diante da universidade. Ou aniquilavam todos, ou voltavam atrás. Permitimos. Não me conformo. Culpa que carrego. Ela me corrói. Nada pior que a memória do gesto não realizado.

Dos anos setenta em diante, fomos conduzidos dentro de indefinições. Rodeados por coordenadas paradoxais. Sistemas duros, ares democráticos. Repressões justificadas e justificativas aceitas. Democracias em clima de ditadura. Regimes amorfos a respeito dos quais não sabíamos pensar.

Nunca nos ocorreu que era uma nova forma de sistema. Sem contornos definidos. O nosso erro foi procurar na própria história os moldes. Esquecidos que os tempos e os homens tinham se modificado, substancialmente. Como poderíamos chamar a esta nova fórmula? Sistemas dissimuladores?

Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?

Não encontro um jornal. Foi uma tentativa. Inútil, eu sabia. Porque todas as manhãs eles passam, procurando por todos os cantos. São rapazes surdos que correm vasculhando os santos do distrito. Arrebanham folhas, inteiras ou rasgadas, colecionam e vão negociar. Vivem disso, sustentam famílias.

Estes rapazes possuem fichas especiais, entram em qualquer Distrito. Ajudam na limpeza das ruas e assim sobrevivem. Possuem uma freguesia certa, é difícil entrar no círculo. Às vezes, com uma boa oferta, concedem eliminar alguém da lista, trocar por outro que ofereça vantagens.

Deve fazer três anos que não vejo um jornal. Vivo de recordações, tenho que me contentar com a televisão e a Rádio Geral. Encosto-me aos grupos, nas lanchonetes, tentando ouvir trechos de conversa. Já que o Esquema se organizou tanto, devia haver um rodízio para recebimento da imprensa.

Não importa. Hoje é dia de fazer minha loteria, preciso descer às cinco e meia, esta é a minha hora. Ou não vou trabalhar. A neblina azulada cobre o alto dos prédios, sensação de lona de circo. De onde vem? Antes, eram as queimadas. E agora, quando não há mais o que queimar?

Empurram, acotovelam, chutam, se encostam. A cada dia, penso que tem mais gente neste centro. Tudo me irrita. Vou para a repartição, a falta significa multa e diminui minha proporção de fichas para água, ou lanches. Já ando em falta, dia desses recebo nada. E ficha ninguém empresta.

*[N.E.] Trecho de “Não Verás País Nenhum” de Ignácio de  Loyola Brandão. Link para .pdf online da obra na integra: http://ubuntuone.com/7Uqxcc1bsJfN57CkyBBTk1

Análise do livro: Ramiro Giroldo, MEMÓRIA E AÇÃO: ASPECTOS DE NÃO VERÁS PAÍS NENHUM, DE IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO  http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/dossie03/art_15.php

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