Que se Lixe a Troika: Um novo 25 de Abril português

[Beto Vianna]

Dizem as más línguas (dentre elas, o português) que o fado é a expressão da alma lusitana. O “Fado da Mentira” traz os seguintes versos: Fiz uma cova na areia/ P´ra enterrar minha mágoa/ Entrou por ela o mar todo/ Não encheu a cova d´água. Eis aí um lirismo transbordante de choro e de sofrimento. Cantar o amor perdido, o amor infame, traiçoeiro, foi a tônica de todo fado que se permitia entoar na ditadura que perdurou ruins quarenta anos em Portugal. Pressentindo a alvorada do 25 de abril de 1974 – dia da Revolução dos Cravos – os portugueses mudaram de tom.

O chororô fatalista deu lugar a canções de mobilização e de protesto. Graves, ainda, no denunciar a falta da liberdade e justiça social da velha ordem, mas cheias de futuro e esperança. Custou muito ao fado sacudir tanta areia amontoada por quatro décadas e entrar nas ondas novas do Portugal democrático. Mas entrou. Nos anos 90, como se o destino quisesse vingar as velhas tradições, era o 25 de Abril que se via em maus lençóis, ignorado por uma juventude crescida no embalo do fast food, do recém-caído muro alemão, das maravilhas do neoliberalismo. Mercado único, livre circulação de gentes e capitais, moeda forte, o Euro. Como um sonho sebastianista, havia quem visse aí a oportunidade de recuperar, nas asas da quimera europeia, a grandeza imperial perdida. Infelizmente, nem tanto ao céu. Como dizem os versos finais do “Fado da Mentira”, Ninguém conhece no rosto/ O que nossa alma inspira/ A vida é tudo desgosto/ Mentira, tudo mentira.

Três países que ingressaram quase juntos, nos anos 80, na União Europeia – Grécia, Espanha e Portugal – vivem agora as agruras de se submeterem a outra trinca, ou “troika”, como é chamada: o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Em dois anos de austeridade imposta pela troika – com o conluio dos respectivos governos – as perspectivas de gregos, espanhóis e portugueses são cada vez piores. Desemprego, aumento das desigualdades sociais, cortes em serviços públicos essenciais, tudo com a desculpa de se “arrumar a casa”, ou seja, pagar as dívidas e reabrir o especulativo crédito para movimentar mais uns trocados. Já vimos esse filme no Brasil. Mas nossos irmãos europeus botaram a boca no trombone, e a música incomodou ouvintes de além-mar. Em seu editorial de 15/04, o New York Times diz que, além das medidas não terem os efeitos pretendidos (“o remédio amargo está matando o paciente”), a crise agrava o descontentamento popular, sempre perigoso, na visão do jornal. Pois claro.

No dia 2 de março, a praça Marquês de Pombal foi engolida por um tsunami de 800 mil portugueses, que manifestavam seu descontentamento. Choro doído, como num velho fado lamurioso, mas tocado por punhos erguidos em protesto, como num 25 de Abril. O dia 2 de março fica na história como uma data que se fez outra, em que o povo – não a troika – é quem mais ordena.

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