Para aonde vai a Europa? Crescem os ventos contestatórios.

[Carlos Serrano Ferreira]

Mais do que a espuma da política pode refletir, seja nas ondas eleitorais ou de manifestações, onde também entram factores como o papel das direções e experiências pregressas, há uma corrosão acelerada na chamada “maioria silenciosa” da adesão ao sistema. A crise econômica acelera as experiências populares com o sistema econômico e com os governos, e prenunciam como possibilidade a conversão das atuais brisas de insatisfação em furacões de contestação. E, furacões não são controláveis: podem ir à direita ou à esquerda, mas destroem o existente.

Na espuma da insatisfação, na superfície da inquietação, ontem ocorreram novas manifestações em Portugal, desta feita organizadas pelo Movimento dos Sem Emprego (MSE). Antes, no entanto, ocorreram as greves de uma semana dos trabalhadores da recolha de lixo urbano de Lisboa, as paralisações organizadas pelos trabalhadores da CP, a luta dos 800 trabalhadores temporários da EDP em Lisboa e Odivelas e os do Call Center  da ZON em Coimbra. Há ainda a greve programada para 11 e 12 de Julho pelos médicos do Serviço Nacional de Saúde, e ocorrem sem parar manifestações populares, como as realizadas contra o novo mapa judiciário e as vaias que acompanham membros do governo, principalmente o presidente da República, Cavaco Silva, e o primeiro-ministro, Passos Coelho. Mas, as manifestações não se restringem à Portugal: mineiros nas Astúrias, populares na Grécia, em Kiev durante o Euro… É o crescimento dos ventos contestatórios na Europa que passará a se analisar agora.

De forma distorcida as eleições espelham esse momento. Na nova eleição na Grécia, em junho, o grande vitorioso no voto popular foi o partido de esquerda anti-troika Syriza: se em 2007 teve 4,5% em 2009, e 16,7% em Maio passado, agora teve 26,9%. Em Atenas, maior círculo eleitoral do país, com mais de um milhão e quatrocentos mil eleitores e onde se concentra a maioria do eleitorado operário, ficou em primeiro lugar com 31,4%. Levados em conta apenas os votos populares, o setor claramente pró-troika, que avalizou o acordo, composto pelos conservadores Nova Democracia (29,66%) e a social-democracia do PASOK (12,28%, apenas um 1/3 dos seus eleitores habituais), tiveram 41,8% (contra 79,9% em 2007 e 77,4% em 2009), enquanto os anti-troika obtiveram 45,82% (Syriza com 26,9%, Gregos Independentes 7,51%, o neo-nazi Aurora Dourada 6,92% e o Partido Comunista (KKE) com 4,5%). E, o “em cima do muro” Esquerda Democrática obteve 6,2%. Só com o deslocamento deste para a posição pró-troika, posteriormente às eleições – o que reflete a percepção deles de que essa posição se tomada antes geraria desgaste eleitoral, como o ocorrido com a ND e o PASOK – e um artifício legal que dá 50 cadeiras no Parlamento ao primeiro colocado criou-se uma maioria. Se o ND não ganha-se as 50 cadeiras, mesmo com a inclusão da Esquerda Democrática, alcançaria apenas 129 cadeiras, bem longe das 151 que garantem um governo de maioria. Diga-se de passagem, a atual maioria é uma frágil maioria construída sobre distorções e que garante apenas a existência de um débil governo.

Para além da espuma é que está a verdadeira corrosão do sistema e governos, como mostram várias pesquisas de opinião pública feita por vários institutos nos últimos anos. Um dos sintomas é a pesquisa feita ainda em novembro de 2009 pelo centro de pesquisas GlobeScan e PIPA da Universidade de Maryland (EUA) sob encomenda da BBC World Service, feita em 27 países do mundo e intitulada “Wide Dissatisfaction with Capitalism — Twenty Years after Fall of Berlin Wall”, e que trazia resultados surpreendentes, em particular para alguns países europeus. Foram pesquisados desse continente: Alemanha, Espanha, França, Itália, Polônia, Reino Unido, República Checa, Rússia e Ucrânia. Nestes, todos tiveram uma taxa maior que 80% de descrença no funcionamento desregulado do capitalismo, sendo que todos tiveram mais de 40% acreditam que são necessárias reformas e novas regulações: Alemanha (75%), Itália (59%), Reino Unido (57%), Espanha (56%), República Checa e Ucrânia (55%), França (47%), Polônia e Rússia (44%). Porém, ainda mais importante é o número de pessoas que acreditam que o capitalismo é fatalmente defeituoso e um sistema econômico diferente é necessário. Se a média dos 27 países já alcançava 23%, na Europa era superado por quatro países: França (43%), Ucrânia (31%), Espanha e Itália (29%), tendo a Rússia alcançado a média, com 23%, e Polônia e República Checa estando apenas um porcento abaixo. Realmente com índices menores estavam apenas o Reino Unido (19%) e a nação hegemônica europeia, a Alemanha, com apenas 8%.

Contudo, a experiência da crise deve ter aumentado os índices de rejeição como um todo. Um indício disto é a Espanha, que passou de 2009 dos 29% de crença na impossibilidade de reforma no capitalismo e a necessidade de um novo sistema, para 42% em 2012, havendo uma queda tanto nos que querem regulação do capitalismo (56% em 2009 para 48% em 2012) como nos que acham que o capitalismo funciona bem da maneira que está (5% para 3%). Uma explicação para isto é que 92% dos espanhóis responderam em 2012 a pergunta “Quão equitativamente tem sido partilhado os benefícios econômicos e os encargos no seu país nos últimos anos?” com um sonoro “não equitativamente”, contra 66% em 2009. Outros países mantém níveis altos dessa resposta (apesar de classificada sua evolução nas pesquisas como estáveis pelos organizadores, pois as variações estão dentro da margem de erro): na França, em 2008, 78% responderam assim, em 2009 foram 82% e em 2012 foram 85% (!); na Rússia eram em 2008 e 2009, 77% e são agora 78%; no Reino Unido passaram de 56% em 2008 e 2009 para 61% em 2012. Dos países do continente pesquisados só a Alemanha apresentou uma redução de 2009 para 2012, caindo de 75% para os ainda altos 67%. Em 2008 eram 71%.

Nessa pesquisa de 2012, feita pelos mesmos organizadores, há uma possível ampliação do reformismo na França, onde 53% acham que é necessário reformas no capitalismo, mas o número dos que acham que é necessário um novo sistema caiu apenas dois pontos, ficando em 41%! Contudo, tudo isto está dentro da margem de erro, o que denota uma estabilidade na opinião, sempre contrária em geral nesse país ao livre mercado, ao capitalismo. A média nos 22 países (menos cinco que na pesquisa anterior) de que o capitalismo precisa ser substituído aumentou um ponto, para 24%. Há uma estabilidade na maioria dos países (com variações dentro da margem de erro) Alemanha (9%, 1% a mais que em 2009), Reino Unido (com 23%, 4% a mais), e um recuo de um ponto na Rússia, que passou a 22%. Não foram testados desta feita Itália, Ucrânia, Polônia e República Checa.

A percepção da situação pessoal também piorou em 2012: outra pesquisa da GlobeScan indica que 59% dos franceses e 61% do britânicos acham que sua situação financeira e pessoal piorou em relação ao ano anterior e apenas 10% dos primeiros e 16% dos segundos acham que melhorou.

Em outra pesquisa recente, de 2011, realizada pelo mesmo instituto de pesquisa, o desgaste dos governos, por suas políticas de resgastes dos bancos e grandes corporações mostra que dos três países consultados, apenas na Rússia houve um crescimento de 2002 para 2011 dos que responderam afirmativamente que em seu país é a vontade popular que governa: de parcos 12% para outros ainda exíguos 19%. Na Alemanha, a queda foi de 32% para 21%, mesmo patamar alcançado em 2012 pelo Reino Unido (que caiu de 27% em 2002). Outro indício é a pesquisa feita em 2011 em quatro países (Índia, China, Estados Unidos e Reino Unido) sobre o respeito aos bancos e companhias financeiras que demonstra que este caiu para o baixíssimo nível de 14% no Reino Unido, tendo estado em 2005 acima dos 30%. Se há algo em baixa é a City londrina (e Wall Street, com 18% de respeito em 2011, contra os quase 40% em 2006): os que “não respeitam” chegaram em 2011 à 63% no Reino Unido e 55% nos EUA.

A crise econômica e as saídas dadas tem corroído como um rato as bases ideológicas de sustentação do sistema capitalista e dos seus governos representantes na Europa. Contudo, como a Primavera Árabe denuncia, isto não ocorre só nesse continente. Segundo o último “World of Work Report, de 2012”, da Organização Internacional do Trabalho, diz-se que cresceu em 2011 em relação a 2010 o  risco de agitação social na Europa, no Oriente Médio, no Norte da África e na África Subsaariana, tendo diminuído na média na América Latina.

      Tempos perigosos – e interessantes – estão por vir. Que venham!

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