Paulo Francis resenha Laranja Mecânica

[Paulo Francis]

Em minutos de A Clockwork Orange, filme dirigido por Stanley Kubrick dum romance de Anthony Burgess, assistimos a) um bando de deliqüentes espancando um bêbado mendigo e velho; b) a dois estupros, um consumado, mas no outro há um bocado de patolação; no completo, o lider da gang, Malcolm McDowell, corta a roupa da moça com tesoura, surrando-a e ao marido, enquanto canta Singin’ in the Rain (ela morre; marido fica entrevado); c) uma briga de quadrilhas de delinqüentes. Como os críticos americanos não can­sam de me informar, Kubrick estiliza ao máximo essas cenas e, além disso, usa partituras “clássicas” para estabelecer distância entre a violência em si e a intenção artística do diretor. Essa história de “dis­tância”, pelo menos hoje em dia, é tirada de Bertolt Brecht. Nunca funcionou com Bertolt Brecht, que é um artista um pouco superior a Kubrick (A Haamm…). Quem não tem piedade de Mãe Coragem, por exemplo, é mulher do padre. Atores que trabalharam sob Brecht depuseram dizendo que nunca ouviram uma palavra dele sobre “épico”, “distância”. Era o velho método de dirigir; “Levanta o dedo sua vaca”; “vai até o fundo do palco, animal”. Mas, perguntem-me, há “distância” no filme de Kubrick? Pra mim, não. Aquilo é um pau firme, uma descarga de fantasias eróticas e sádicas. Melhor feito do que nos pornógrafos do Times Square e tem um propósito, que, porém, não anula o que eu disse sobre a empatia da violência.

Kubrick mostra a delinqüência, certo? Aí delinqüente é tratado por método behaviorista. Fica imune à tentação da violência, que o faz vomitar. Volta ao mundo “direito”. Aprende que este é tão sór­dido quanto o dos delinqüentes, só que agora não pode reagir. Tenta o suicídio, depois de sofrer o diabo. O governo que patrocinou o behaviorismo se vê acusado de “lavagem cerebral” pela imprensa. Faz um arreglo com o delinqüente. Dá-lhe um cala-a-boca. Na cena final, Malcolm McDowell entrou pro Establishment — delinqüente. Entenderam? Se não, podem tentar o suicídio também. A sátira é transparente e muito bem jogada comercialmente. O sujeito vai ao cinema atrás do pega-para-capar, mas sai de consciência limpa, por­que assistiu a mais um capítulo da decadência do mundo ocidental e cristão. Meninos, isso é puro velho Hollywood, levando verniz diferente. Nos filmes de gangsters, por exemplo, o espectador se identificava com os bandidos matando, sempre no ficús, roubando etc. No desfecho, a Lei vencia. É o mesmo processo adotado por Kubrick, só que ele usa a linguagem do cinema de 1960, décor surreal-futurista (os críticos, no delírio habitual, afirmam que o décor prova a dissolução da cultura na arte pop. Nada disso; prova que Kubrick manjou a cuca meia-confecção dos críticos).

Em todos os filmes importantes de Kubrick há sempre uma falta de convicções que termina se sobrepondo à inventividade técnica do diretor — nada mais do que razoável, mas muito enérgica, muito americana, go, man, go, man, go! Em Strangelove, por exemplo, o desfecho caía em farsa fácil, depois de 2/3 de comédia satírica im­pecável (hoje, estou convencido de que predominou nas melhores passagens o dedo de Terry Southern). A parte central de 2007 era pura Aeroporto e sem os frissons baratos, bem mais tediosa. E, agora, A Clockwork Orange prova que Kubrick tem muito a dizer, mas nada a declarar. No duro, no duro, acho que Kubrick se auto-retratou no oficial feito por Kirk Douglas em Paths of Glory: ele acha uma injustiça a atitude do Alto Comando, mas continua na guerra.

Made For Each Other, feitos um para o outro, literalmente (tradução provável no Brasil: Nem só do Pífaro Leiteiro Vive a Mulher) mostra o que acontece quando uma judia de Nova York namora um italiano de Nova York, ou pelo menos a judia e o italiano estereotipados em teatro, cinema etc. Confesso que sou criatura de Valery, que a mim me chatearia tanto como a ele escrever um romance, só porque se tem de pôr no papel “A Duquesa acordou às 4 horas”. O cotidiano, o comum, o normal, a santíssima trindade da chatice. O intelectualismo corrompe, meninos. Me sinto muito mais à vontade no A Clockwork Orange, de Kubrick, que é morfético, do que em Nem só do Pífaro Leiteiro porque Kubrick faja a minha língua, ainda que gaguejante. Depois desse show de modéstia, acrescento que o negócio é agüentar firme o Pífaro. Os autores do script e intérpretes principais, Renée Taylor e Joseph Bologna, acreditam que a patuléia seja interessante. Acabaram me convencendo.

Eles se encontram numa análise de grupo. Minha companheira de cinema ficou danada porque não é nada assim, disse. Pode ser que não, mas se fosse, ao menos seria moderadamente divertido. O psicanalista, Dr. Furro (pelos nomes das personagens se conhece um talento cômico: ver Dickens, Evelyn Waugh) obriga todo mundo a dizer que é feliz, antes de contar os problemas, porque essa afir­mação, explica, é essencial à cura. Então, as pessoas dizem: “A vida é maravilhosa, sou muito feliz. Agora, o fato é que sou impotente”. E por aí vai. Taylor é como Judy Garland. Uma mãe judia chifrada dia e noite fez dela atriz, cantora, “artista”, em suma, a mãe goza com o talento da filha. Nada dá certo.

Também não consegue contratos como intérprete. Já Bologna trata as mulheres como um coronel de engenho aos empregados. Nunca teve relação satisfatória. Provoca suicídios etc.

Terminam os dois no carro do rapaz, fazendo galanteios (o Newspeak PASQUIM). Quando termina o primeiro galanteio (o carro balançou muito durante), a cara de Taylor sugere uma igreja po­lonesa depois de visitada por um Stukka.

Vivem juntos até que num galanteio ela consegue fazer o que ele sempre faz (o Newspeak exige um bocado de ginástica, meninos). Delírio. Mas, ah, no início tudo são flores. Ele vai ver o show dela num cabaré que deveria ser importado completo para o Rio. Ela imita Marlene Dietrich e outras graças. Acho que aqui o filme foge ao controle do diretor Robert Bean (Pauline Kael, do New Yorker, discorda), porque o que deveria ser horrível-cômico fica só horrível (Kael diz que ela passa muito bem a vontade de agradar. Não senti). Na saída, a pedidos, uma opinião franca do rapaz. “Fedorenta” é a resposta dele. Ela explode de humilhação. Nossa vontade de rir é bloqueada por uma saudável inibição moral. O homem às vezes não pode viver sem piedade.

Visita à família italiana, imaginem, uma judia, de nome Gold, que conheceu o filho da mãe italiana no Village (equivalente, a levar uma jovem da Geração Realidade à casa de uma TFM). Histeria da mãe: “Se casarem, não irei ao casamento. Se educar os filhos fora da Igreja, uma maldição etc.” O filho da mãe espinafra a mãe. O marido da mãe, idem. Salami, pastrami, minestrone.

Volta à cidade. Ele não agüenta mais a pressão moral da moça, que subverte tudo que ele é, como filho da família que tem, como carcamano. Ela não dá folga. Ele a insulta, põe para fora do carro. Vai atrás, pede desculpas, ela não aceita, acaba aceitando. Os dois já sabem o que são, podem até tentar viver juntos. Romeu e Julieta desceram aos subúrbios. Há viagens piores.

 [N.E.] Titulo original: “Nosso correspondente vai ao Cinema”  extraído do Livro Paulo Francis Nu e Cru. 1976

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