Amor em Tempos de Cinismo (e se levássemos o amor a sério?)

[Paulo Gajanigo]

Disposto na lista do jornal, Amor de Michael Haneke, tal como Um Alguém Apaixonado de Abbas Kiarostami, indevidamente se conecta a um repertório interminável de filmes classificados no imaginário coletivo como românticos. Normalmente escolhemos um exemplar desse tipo quando estamos a dois, graças à  estrutura que os filmes românticos atuais obedecem. Em geral, acompanhamos um casal apaixonado que começa a sofrer das contradições de uma relação (em especial motivadas pela dificuldade de fidelidade dos homens ou, cada vez mais frequente, pelas impossibilidades de conciliação entre as exigências da carreira profissional – flexibilidade e tempo – e a irredutível solidez do relacionamento amoroso), e vemos, por fim, uma arrumação aparentemente sustentável das demandas egoístas (o casal aprende a lição de que um precisa do outro e que o jardim do vizinho, apesar de ser mais verde, não é seu). O efeito provocado aos casais espectadores é ritual, catártico. Expiam-se os sentimentos que enfraquecem o laço amoroso. Devemos alertar, no entanto, que Amor não é isso.

Ainda olhando para a sinopse, descobrimos que o filme narra a história de um casal, contém fortes demonstrações de amor, morte, incompreensão familiar: um enredo trágico que pode nos lembrar o de Romeu e Julieta. A peça de Shakespeare retratou o surgimento do amor moderno que lutava contra as determinações extra-individuais da escolha do casamento. Até hoje vivemos a peça como uma ode à potência do amor, antissocial, para o qual a sociedade é posterior. Pois antes estaria a platônica alma gêmea – viria antes e sobreviveria à sociedade. Porém, a modernidade que produz tal amor é a mesma que o ameaça. Esse eterno moinho corrói todas as sólidas relações de forma que nos obrigou a uma constante busca por conciliação sem superação. Desenvolvemos assim uma visão cínica sobre o amor: “que seja eterno enquanto dure”. Ou seja, vivo intensamente, tal como meu parceiro fosse minha alma gêmea, mas sei que não é, afinal, todos se separam. Daí a importância dos filmes românticos, tão necessários quanto insuficientes, obrigam os casais a recorrer constantemente ao ritual.

E se levarmos o amor a sério? E se não aceitarmos a forma cínica de viver o amor? De pronto, teríamos que abrir mão, seriamente, da ideia de alma gêmea e, por consequência, a de encontro traumático das almas que nos faz retornar obsessivamente ao primeiro instante, servindo de apoio, de recarga energética para enfrentar os obstáculos da modernidade. O amor, ao invés de vir antes, seria produto de uma vida, de convivência, parceria, passado e destino comum. Talvez por isso, no Romeu e Julieta de Haneke, estamos diante de um casal no fim de sua vida, já debilitados pelo desgaste do tempo.

Anne, que depois de um derrame sofre com o aumento acelerado dessas limitações físicas,  busca manter sua dignidade. Rejeita cuidados excessivos do marido, quer fazer por si mesmo o máximo possível, quer que Georges tenha algum tempo pra si. Georges se exaure por estar engajado intensamente na suavização das dores de Anne. Quer garanti-la por si mesmo, pois o faz com amor. Apesar da vontade de Anne, o marido já não tem mais tempo para nada a não ser auxiliá-la. Seu amor lhe custa, o irrita. No entanto, o que vemos em ambos é o esforço em amar dignamente. Quando se desequilibra, Georges percebe seus próprios abusos, por mais envergonhado que esteja, assume o erro, se abre ao invés de se fechar, como normalmente fazemos.

Os espectadores devem estranhar o fato de o casal relutar em ir para o hospital ou deixar tudo por conta de enfermeiras. Considerando o modo de vida da classe média, nos perguntamos por que não fazem uso dos serviços que amenizam o sofrimento dos parentes próximos. Quem traz esse estranhamento no filme é a filha do casal, Eva, aparentemente bem-sucedida e casada com um mais bem-sucedido ainda – apesar de o marido ter frequentes aventuras extraconjugais, ela parece orgulhosa de seu amor. Quase nunca presente, quando visita os pais age com a arrogância daqueles que acreditam que o progresso científico resolverá todos os inconvenientes do amor, como cuidar do outro. É incapaz de dar resposta quando o pai lhe pergunta qual alternativa ela pode oferecer, se ela se dispõe a cuidar da mãe.

A luta por manter a vida com dignidade e amar seriamente os levam a um progressivo enclausuramento. Refugiam-se na vida privada. Haneke nos deixa atentos ao abrir e fechar de portas e janelas do apartamento. Na única cena que testa nossa percepção, acompanhamos um pesadelo de Georges: alguém toca a campainha, mas quando abre já não há ninguém, Georges sai à procura do responsável, de repente é surpreendido por uma mão que agarra sua cabeça. A cena serve para nos aproximar do estado psicológico de Georges, acuado, temeroso de que algo de fora destrua o ambiente cordial que se esforça em manter dentro do apartamento. Nesse sentido, podemos ver o filme como uma demonstração da impossibilidade atual de mantermos a dignidade publicamente, no coletivo. A vida pública, tomada por serviços, reduzida a procedimentos desencarnados, não permite viver seriamente o amor. Mas não estamos diante do mesmo conflito realçado por Shakespeare. Há no amor de Romeu e Julieta uma força antissocial, um apegar-se ao indivíduo. Já no enredo de Haneke é a vida pública que se torna antissocial – espaço de encontro das individualidades abstraídas em procedimentos – o amor seria o abrigo do social, acuado em um apartamento.

Há, nos parece, uma notícia boa e outra má. Como já dissemos, a vivência séria do amor não encontra muita ressonância coletiva (ainda que seja interessante pensar sobre o que significa a admiração que o zelador sente pela postura de Georges). Por outro lado, é estimulante ver em nossa sociedade hipermoderna a afirmação de um amor digno. Uma afirmação realizada tanto pelo casal como pela forma com que Haneke filma.

O diretor é comumente acusado de bruto; são recorrentes cenas de violência extrema expostas sem piedade ao espectador. Essa crueza, no entanto, luta contra a usual plastificação da violência no cinema, em especial, de Hollywood. Ressensibilisar o espectador é também criar brechas para a identificação. Em Amor, assim como na maioria de seus filmes, Haneke estende o tempo das cenas, nos obriga à atenção; explora a plenitude de significados que uma imagem permite; não nos poupa com uma trilha sonora para emular nossas emoções; deixa que os sons entrem cruamente em nós (como o barulho da torneira aberta). Saímos do filme calados (ou histericamente falantes), pois não é possível disfarçar o fato de que tivemos uma experiência. Em tempos de cinismo e entretenimento, os filmes de Haneke, por nos obrigar a ter uma experiência, a estabelecer vínculos com a situação filmada, constituem uma força humanizadora. E, nesse sentido, apesar da má notícia, quem sabe Amor possa ser um indício de outro amor, não o do refúgio individual e egoísta, mas de um que a modernidade de certa forma também ajudou a desenvolver: o amor como forma de reconhecimento da humanidade.

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