Alain Badiou e a Tarefa do Pensamento

[Gabriel Tupinambá]

“Quem não tem nada só tem a sua disciplina” – Badiou
 

Talvez a mais rara disposição do pensamento seja a capacidade de reconhecer um impasse conceitual na filosofia herdada de um mestre e encontrar no trabalho de re-elaboração dessa idéia ainda mais razões para permanecer fiel àquele de quem se é herdeiro.

Sartre aprendeu com Husserl e Heiddeger, mas se dizia existencialista, e não husserliano ou heiddegeriano. Foucault pode até dever uma certa dimensão do conceito de arqueologia àquele de genealogia, em Nietzsche, mas certamente não se declarava por isso um nietzscheano convicto. Aristóteles, então: não é a toa que é aqui que encontramos o mote preferido daqueles que substituem seus mestres por si próprios. Quando questionado por um aluno a respeito de suas divergências com seu mestre Platão, o Estagirita declarou: “Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade”. E assim, ainda que professasse o contrário, Aristóteles assumia implicitamente que uma consequência fundamental do novo e do verdadeiro é separar os homens uns dos outros.

Não é só no campo da filosofia que a verdade é tida como uma categoria do discernimento ou da distinção: estamos acostumados a pensar que aquilo que é verdadeiro também é único, discernível de todo o resto. Se digo a alguém que o amo de verdade, não estou precisamente querendo dizer que amo aquela pessoa específica, que não tenho ilusões quanto a quem ela é, e que quem a ama realmente sou eu? Ou se alguém jura dizer a verdade, não está jurando contar as coisas como são, ou seja, distintas de tudo o que não é o caso? Dessa maneira, ao permitimos que a verdade nos una – isso é, que o discernimento objetivo de como o mundo supostamente é se imponha a todos –  tornamos impossível nos unirmos por uma verdade.

Um exemplo: em Nova Iorque, durante uma das manifestações do Occupy Wall Street, em 2011, um homem subiu no palanque improvisado no meio de uma praça para convocar as pessoas a marcharem em protesto até um ponto turístico do outro lado da cidade. Após seu discurso fervoroso, que mobilizou centenas de manifestantes ali reunidos, um outro rapaz tomou a palavra e, sob o olhar de aprovação de seu colega, acrescentou: “gostaríamos de lembrar a todos que a participação na passeata é voluntária, e depende inteiramente da opinião de cada um”. O que significa esse adendo pleonástico? Significa: ao marcharmos juntos, só é reconhecido que marchamos pela verdade caso não percamos de vista em momento algum que cada um participa da política “livremente”. Esse adendo vazio tem a função de garantir à todos que, quando fazemos política, primeiro vem a nossa liberdade individual, depois, a verdade.

Encontramos hoje na política dois usos contrários do par mesmo/diferente. De um lado, é cada vez mais evidente que o capitalismo não é avesso às suas crises e que, pelo contrário, possui uma afinidade monstruosa com a mudança constante: “quanto mais as coisas mudam, mais ficam as mesmas”, costuma-se dizer, evocando essa relação paradoxal entre crise e estabilidade, que faz do Capital a mais espinozista das ideologias. Do outro lado, a Esquerda está em pleno processo de transformação: buscamos incessantemente novas maneiras de mudar o mundo, de abrir espaço para outros valores e questionar a atual ordem do mundo. Em suma, queremos que o novo substitua o antigo. Porém, se o capitalismo convive muito bem com as mudanças – se o diferente é hoje somente um outro nome para o mesmo – como podemos separar as transformações que mantêm o mundo como ele é daquelas que abrem caminho para um outro futuro? Como separar a novidade do que é propriamente Novo?

Corrigindo o gesto fundador da democracia neo-liberal, que nos coloca hoje frente a esse impasse, Alain Badiou corajosamente retoma o debate contra Aristóteles e, confraternizando com Platão, declara categoricamente: a fidelidade é uma operação constitutiva da verdade.

Percebamos a sutileza de tal asserção. Primeiramente, como Badiou se posiciona frente ao problema que descrevemos acima? Ele diz: se a lei do mundo é a permanente transformação daquilo que é único em mais-valia, da diferença em veículo da mesmice, então o primeiro gesto que não será uma novidade, mas algo realmente Novo, será o gesto de dar continuidade a uma descontinuidade. Isso é: num mundo onde toda ruptura propaga o presente – onde toda descontinuidade dá prosseguimento ao contínuo – o critério fundamental para distinguir o que é verdade e o que é opinião, o que é Novo e o que é a última moda, é a capacidade de se manter fiel à uma Ideia, de fazer a ruptura, enquanto tal, ganhar permanência. A declaração paradigmática do verdadeiro não é o “o que há é isso” – proposição efetiva do verídico – mas “algo aconteceu e isso não será como antes”.

Notemos também que, ao sustentar essa afirmação, Badiou se torna ele mesmo um exemplo daquilo que declara: contra o ceticismo vulgar, contra as acusações de que tudo o que se pretende maior que o indivíduo leva ao totalitarismo, contra as tentações de confundir um “estilo de vida” com uma Ideia, Badiou declara sua fidelidade ao conceito de fidelidade. Àqueles que aqui retrucariam “mas isso não é nada de novo, é o retorno ao antigo!”, chamamos logo a atenção para a primeira consequência que decorre da posição badiouiana: para que fosse possível se manter fiel a essa Ideia supostamente “ultrapassada” sem deixar de pertencer ao nosso tempo foi preciso que Badiou desenvolvesse um sistema filosófico radicalmente novo.

Dessa maneira, o que Badiou propõe é uma concepção de verdade cujo correlato não é o mundo como ele é, mas o engajamento com uma afirmação que, por si só, permaneceria indecidível. É como a decisão que se segue a um encontro amoroso fortuito: nada decide por nós se algo realmente aconteceu, se aquele encontro levará ou não à felicidade, mas essa experiência de uma indeterminação passageira é o próprio gume da força do encontro, que nada mais é do que a criação do lugar de uma decisão absoluta e do lugar de onde podemos extrair força para criar algo que ninguém poderia até então antecipar.

Desse ponto de vista, dizer que se é mais amigo da verdade do que de Platão não faz sentido algum: a verdade é uma operação, é o nome do trabalho de um sujeito que, fiel à irrupção de uma Ideia no mundo, extrai suas consequências e assim as introduz no mundo. Reparemos que, na frase “sou mais amigo da verdade do que de Platão”, o termo ‘verdade’ é indiscernível do termo ‘fato’. O que é dito é que se abandona a elaboração de uma Ideia em nome das coisas como elas se apresentam de fato. Ora, a concepção de Badiou adicionaria aqui um óbvio arremate: as coisas se apresentam como “de fato são” justamente porque se abandonou a elaboração da Ideia e, portanto, a transformação do mundo. Os fatos não existem para nos remeter, do fundo de nossa instabilidade individual, de volta à nossas identidades, nos assegurando de que pertencemos ao mundo – essa instabilidade, essa vacilação das determinações, não pertence só ao sujeito, mas é inerente ao mundo como tal, e é precisamente o material concreto com o qual podemos investigar os limites do que existe e forçar a existência daquilo que ainda não tem nome.

Retornemos ao exemplo do amor para refinar a diferença entre a verdade como um discernimento verídico e a verdade como operação de fidelidade a uma Ideia. No primeiro caso, se digo a alguém que o amo verdadeiramente, assumo antes de tudo que o amor é uma relação interpessoal – cá estou eu, único, lá está você, também única, e o amor verdadeiro é uma relação “verídica” entre nós dois. No segundo caso, se digo a alguém que a amo de verdade, digo algo completamente diferente: afirmo que aquilo nos une não é o reconhecimento de quem somos, mas o convite para que, em nome de um encontro, uma ruptura no curso normal da vida, inventemos juntos um jeito de ser um casal. No caso “aristotélico”, um casal é a soma de um mais um – permanecemos fiéis, mais do que ao amor, ao critério do manejo de individualidades. No caso de Badiou, no entanto, o casal é maior que a soma das partes. Perguntamos, então, o que é essa mínima diferença, esse excesso, que faz a soma das partes maior do que a soma dos elementos do conjunto? É o Novo, a inscrição no mundo de um traço que não poderia ser deduzido ou calculado a partir de nada que pré-existia ao encontro amoroso. Não é à toa que Platão dizia que o amor é o caminho para a filosofia!

O conceito de fidelidade na filosofia de Badiou dá ensejo também a uma nova teoria da disciplina. Se a fidelidade é sempre fidelidade à uma Ideia, ou seja, se só há verdade onde o sujeito trabalha por algo maior do que si mesmo, algo que brilha no limite do que reconhecemos como existente, então é preciso também compreender de que modo se distingue esse trabalho daquilo que Jacques Lacan chamava de “o narcisismo das causas perdidas” – esse ímpeto tão conhecido de querer que o Novo esteja submetido ao conforto pessoal, e, portanto, às coordenadas do presente. Definamos, pois, com Badiou, que a disciplina é o que separa a Ideia do ideal.

O ideal, nós o reconhecemos, por exemplo, em um certo uso que é feito das famosas linhas de Eduardo Galeano em que esse autor afirma que a utopia é uma razão para caminhar – “eu me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos”. Se, por um lado, trata-se evidentemente de uma formulação que busca reviver o pensamento do novo, nos incitando a fazer nossas escolhas na vida tendo como guia um lugar que não existe no mundo, por outro lado, é também uma expressão que dá sentido instantâneo a qualquer posicionamento subjetivo. Ou seja, é indistinguível se servimos à utopia ou se nos servimos dela, pois podemos evocá-la igualmente no caso de irmos em sua direção ou não – afinal, a distância entre nós e o ideal permanece sempre a mesma.

A Idéia, por outro lado, não diz respeito a um mundo futuro ou perfeito. Se o ideal é baseado num futuro que nunca chega, a Ideia está sempre um passo atrás de nós: seu determinante não é a imaginação (de uma razão para caminhar), mas a atualidade do pensamento – pois quando uma Ideia se torna pensável, algo dela já adentrou o mundo. Seu nome é seu primeiro traço material. Badiou nomeia a irrupção de uma Ideia um Evento, e formula então a seguinte máxima: toda verdade é pós-evental. O amor se segue ao encontro, a ciência à descoberta, a política à declaração emancipatória, e a arte à descida do sentido ao sensível: a verdade é produzida em cada um desses campos na medida em que existem sujeitos que pacientemente desenvolvem as consequências amorosas, teóricas, coletivas ou sensíveis da emergência – violenta ou sutil – do Evento. A disciplina, nesse sentido, é antes de tudo uma disciplina do pensamento, uma capacidade de reconhecer, para além de toda diferença inócua, o traço preciso daquilo que não existe em lugar algum.

 [N.E] Texto revisto pelo autor para a Revista Pittacos. Versão original disponível em http://laurocampos.org.br/2011/11/alain-badiou-e-a-tarefa-do-pensamento/

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2 comentários sobre “Alain Badiou e a Tarefa do Pensamento

  1. texto muito longo. discordo da importância que é dada a cofirmar o ponto de vista do mestre. é isso que via e vejo em profusão nas universidades: o esforço sobrehumano de salvar a tese dos amigos. triste!

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  2. É, Antonio, mas tem uma diferença fundamental entre “repetir” os mestres e dar continuidade a eles. Só quem reconhece o fracasso de um projeto pode dar continuidade a ele, né? A pergunta é por que reconhecer o fracasso de um projeto é normalmente equacionado com abandonar a ideia original, ao inves de retrabalhá-la em nome da intuição original. Concordo que o texto é longo e divaga demais, mas acho que se você discorda dessa ideia, devia discordar não em termos da relação entre mestre e discípulo, que é usada de maneira claramente ilustrativa, mas focar no problema da fidelidade e da disciplina na política, que é o ponto central né? E até acho que, mesmo no caso desse exemplo, você também não tá certo: conheço muitas pessoas tentando “salvar” a tese dos mestres e amigos, mas poucos que reconhecem o fracasso de um trabalho e POR ISSO dão continuidade à ideia original que não foi levada a cabo ali, focando nos defeitos desses trabalhos, mas ao mesmo tempo não abandonando a associação ao pensador original. Tem uma diferença grande entre “não deu, e APESAR DISSO vou continuar” e “não deu e POR CAUSA DISSO vou continuar” – não tem?

    Nota que se a gente trocar um pouquinho os termos aqui, poderíamos entrar diretamente na discussão de se o comunismo, que fracassou como realidade, merece ou não ser salvado como ideia (que é o ponto, pelo o que eu entendo, que o Badiou argumenta lá naquele “Hipótese Comunista”.)

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