O Bode Expiatório e Deus – René Girard

“Deus é uma invenção?” é uma pergunta a que respondo de imediato: “Não”.

Entre as diversas concepções de Deus nas sociedades arcaicas, por mais numerosas que elas sejam, existem demasiadas semelhanças para que a hipótese de uma “invenção” possa ter a menor hipótese de ser verdadeira.

Deus é, primeiro, a personalização do que se chama o sagrado. E o sagrado é uma experiência da violência de tal modo repentina, temível e constrangedora no interior das comunidades que os homens acreditam e reconhecem nela um poder que os ultrapassa, um poder literalmente transcendente, perante têm demasiado medo para que possa desobedecer-lhe, a fortiori para negar a sua existência.

Deus é esta experiência personalizada, repito-o. Os deuses arcaicos não são o verdadeiro Deus, evidentemente; esses deuses também não são invenções gratuitas, mas interpretações inexatas, ainda que necessárias, de violências sociais, interpretações sem as quais, na minha opinião, nunca teria havido humanidade. São elas, com efeito, que durante muito tempo mantiveram em respeito a violência que nos ameaça, a violência que nós próprios produzimos. Destas interpretações de Deus, creio eu, podemos dizer legitimamente que são inseparáveis do verdadeiro Deus, do Deus que não é de qualquer modo inventado, mas tremendamente real e que, perante os meus olhos, é o Deus judaico e cristão. Vou tentar explicar o meu pensamento.

Para detrás das constantes da presença de Deus que a antropologia observa, têm de existir obrigações de ordem social. O maior sociólogo francês, Émile Durkheim, disse “O social e o religioso é a mesma coisa”. Esta frase é frequentemente muito mal interpretada: os crentes, no âmbito francês, tendem a ver em Durkheim um ateu que reduziu a religião ao social, enquanto os anglo-saxônicos, curiosamente, o consideram uma espécie de místico que reduziu a sociedade ao religioso. Na realidade, penso que nem uma nem outra destas visões é verdadeira. Para compreender o religioso, se se é moderno e se se acredita na ciência – e, em certa medida, é preciso crer nela; de resto, tento tornar o meu trabalho cientifico – é preciso admitir que o religioso começa com a própria Humanidade. Penso até que, em certa maneira, a Humanidade é a filha do religioso: não existiria sem ele.

O Homem evolui num meio social que lhe impõe constrangimentos particulares que não estão presentes ao nível animal, mesmo se para os animais, na atualidade, falamos de “sociedades”. Analiso estes constrangimentos a partir da noção de “mimetismo” que os gregos denominam mimesis e que dava razão a Aristóteles ao dizer que o Homem é o animal mais mimético de todos. Isto quer dizer que se os animais são miméticos, os homens são-no ainda mais. A imitação deve conceber-se não apenas ao nível das maneiras de falar e de se comportar, mas também ao nível do desejo. Os homens imitam os desejos uns dos outros e, por esta razão, estão inclinados para o que eu apelido de rivalidade mimética, processo que existe entre parceiros sociais e que tende a agravar-se constantemente pelo facto de a imitação ricocheteia entre os dois parceiros. Quanto mais eu desejo este objeto que tu já desejas, mais ele se te apresentará desejável e, em contrapartida, mais ele me parecerá desejável para mim. Assim sabemos que todas as rivalidades têm tendência a exacerbar-se. Nos animais, as rivalidades manifestam-se nos combates, em particular nos combates pelas fêmeas. Contudo, tais combates não são mortais. O mimetismo não é tão poderoso que não pare antes da morte de um dos combatentes. O combatente mais fraco submete-se ao seu vencedor, o qual se abstém de matá-lo. Há muito poucas mortes intra-específicas entre as espécies animais, mesmo as mais miméticas. No homem é diferente, pois sabemos que o combate mimético pode tornar-se infinito e chegar a esta primeira invenção humana: a vingança.

Vingar-se é devolver ao adversário a violência que ele já nos prodigalizou. É, portanto, o assassinato. A vingança transcende os indivíduos uma vez que os parentes, os familiares a retomam. De certo modo, a vingança transcende o tempo e o espaço o que já lhe dá, de alguma maneira, qualquer coisa de religioso.

Se, nas sociedades, a vingança fosse tolerada, é bem evidente que a espécie humana se destruiria rapidamente. Na nossa época, os instrumentos da vingança tornaram-se extremamente poderosos e a destruição da vida no planeta tornou-se possível. Quer queiramos quer não, estamos hoje numa situação propriamente apocalíptica, no sentido da revelação violenta da violência humana. A violência do homem é revelada pelo que se passa hoje, e, uma vez que transcende as possibilidades humanas, coloca ao mesmo tempo a espécie em perigo. Sabemos agora que a nossa espécie é mais antiga do que pensamos no passado, mesmo se ainda é muito recente em comparação com a duração cosmológica.

Se a humanidade se perpetua é porque um procedimento qualquer é capaz de interromper a vingança, impedindo os homens de se matarem uns aos outros. Então, coloca-se a questão: “O que impediu os homens de se massacrarem completamente, uma vez que a vingança é infinita?”. Esta vingança sem fim é uma contradição viva, pois é proibida em toda a parte devido a poder destruir a sociedade, e a vingança é um esforço para pôr fim à vingança. É de resto por esta razão que, muitas vezes, as medidas sociais contra vingança não funcionam.

Quando as sociedades estão em crise, isto é, quando toda as pessoas desejam a mesma coisa e procuram obtê-la pela força, estamos perante o que chamo uma crise mimética, extremamente violenta, porque cada um entra nessa violência. Sabemos que uma sociedade pode-se desorganizar ao ponto de entrar numa crise que ameace a sua sobrevivência futura.

Se observamos os mitos, constatamos que a maior parte deles começa por uma tal crise. Por exemplo, a peste do mito edipiano é uma imagem desta violência propagada por toda a parte. Algumas vezes é uma crise social, outras, uma crise natural, ou que aparenta ser natural mas que, na realidade, dissimula o que referi: a crise do desejo mimético. Quando dois indivíduos desejam a mesma coisa, juntasse-lhes um terceiro; e quando existirem três, logo haverá um quarto, e a partir deste momento, adivinhamo-lo, as sociedades primitivas têm tendência para se mobilizar todas em lutas insensatas. São então ameaçadas pela destruição total.

Em todas as épocas arcaicas, inumeráveis sociedades acabaram destruídas por não terem encontrado a solução para este problema. Mas existe uma solução natural para este problema? Penso que sim.

Chega um momento em que a rivalidade se torna tão forte que todos os objetos do debate são destruídos. Quando os homens disputam a posse de um objeto, jamais se podem entender; Vão continuar a lutar até que o combate se decida. Mas, no decorrer da batalha, tal objeto será frequentemente destruído e, a partir desse momento, o antagonismo tornar-se-á “puro”: será sempre mais forte, mas o mimetismo incidirá doravante já não sobre o objeto, mas sobre os próprios antagonistas.

Uma reconciliação paradoxal torna-se possível: se todos os homens que desejam a mesma coisa nunca se entendem, já os que odeiam em conjunto o mesmo adversário entendem-se muito facilmente. De certo modo, este entendimento é aquilo a que chamamos: a política! É por isso que eu chamo ao mecanismo da vítima unitária, o mecanismo do bode expiatório.

Quando os indivíduos são contaminados pelo contágio do adversário, isto é, quando esquecem o seu próprio adversário para adotar o adversário do seu vizinho, que parece mais interessante como adversário, chegará um momento em que toda a comunidade estará do mesmo lado contra um único indivíduo, do qual, no fim de contas, não se sabe por que foi escolhido. Se estudarmos os mitos, o de Édipo, por exemplo, vemos que esta passagem se produz no exato momento em que se crê descobrir o culpado da crise: Édipo. Mas este, entre outras coisas, é um “defeituoso”, um homem diferente dos outros. Não se sabe de onde vêm os seus pais, a sua família, etc..

Finalmente, o herói mítico é uma vítima unânime: ele será morto por todos. Todos estão contra ele, todos transferiram a violência – e utilizo a palavra transfert com conhecimento de causa – ao ponto de que toda a sociedade, em conjunto, mata este indivíduo. Tal fenómeno existe e tem um nome, é o chamado linchamento unânime. Nos grandes textos sagrados, incluindo, aliás, os textos bíblicos, vemos que o linchamento joga um papel extraordinário: nos mitos, na Bíblia, e finalmente nos próprios Evangelhos, de uma forma dificilmente atenuada. Por outras palavras: o assassínio colectivo desempenha em todos os textos religiosos um papel de tal importância que suscita uma explicação, e tal explicação é o mimetismo e não a culpabilidade real da vítima.

O linchamento, pela sua unanimidade, reconcilia a comunidade, e a personagem que foi linchada passa por ser muito má pois causou a violência na comunidade. Pode ter causado um parricídio e um incesto, segundo a tese edipiana, muito frequente nos mitos, contrariamente ao que imaginou Freud, mas parece muito bom a partir do momento em que a sua morte reconcilia a comunidade.

Torna-se então o deus arcaico, ao mesmo tempo muito bom e muito mau.

Como já foi dito, por detrás do deus existe alguma coisa de real, um mecanismo que chamo o do bode expiatório. Pensamos muitas vezes que as pessoas que têm um bode expiatório deveriam sabê-lo. Mas ter um bode expiatório, precisamente, é não saber que se o tem, é tomar tal vítima por um verdadeiro culpado.

Portanto, nas sociedades arcaicas, o deus é sempre culpado e extremamente maldoso, muito perigoso, mas que de tempos em tempos, se transforma num salvador, decide salvar-nos, não sabemos bem porquê. Vamos então prestar-lhe culto para tentar torná-lo favorável.

O sacrifício, que do meu ponto de vista é a primeira instituição humana, consiste, para uma comunidade que tem experienciado este fenômeno e se tem reconciliado, procurar a repetição da morte de uma vítima, como da primeira vez em que essa vítima que juntos matamos, em nome da comunidade, nos salvou. Se recomeçarmos, talvez sejamos salvos novamente. Eis porque penso que o sacrifício é eficaz: ele é o sucedâneo do fenômeno do bode expiatório. Todavia, pouco a pouco perde a sua eficácia, mas as sociedades arcaicas operam com ele.

Encontramos exatamente o mesmo processo no cristianismo. Uma comunidade inteira, os sacerdotes do Sinédrio, Pilatos e mesmo Herodes, em São Lucas, quer que a vítima morra, nem que fosse apenas para desfrutar do espetáculo da sua morte. Assim, nos Evangelhos, vemos a reformulação do linchamento, e é a vítima desse linchamento que é divinizada. Eis, por outro lado, a razão por que os antropólogos da “grande époque”, que eram todos anti-cristãos, puderam dizer que os mitos e o cristianismo eram semelhantes e que o erro dos cristãos é o de tomarem mais um mito pela verdade. Este religiocentrismo é uma forma de etnocentrismo.

É muito perturbador. De tal modo perturbador que o cristianismo nunca o aceitou; não compreendeu que teria podido aceitar tal verdade, e que esteve quase a compreender a infinita superioridade do bíblico e do cristão a partir do momento em que se via, nos dois casos, os mecanismos enganadores do bode expiatório em ação.

O que as pessoas não vêem, e que, todavia, é de uma simplicidade desconcertante, é a importante diferença que existe entre os mitos e os evangelhos: nos mitos, a vítima é de facto culpável, enquanto na Bíblia, e sobretudo no cristianismo, a mesma vítima é inocente. Deste modo, os textos evangélicos dizem-nos a verdade e [revelam-nos] o funcionamento do mecanismo, em vez de nos darem uma mentira.

É a coisa mais simples que existe e, contudo, a mais difícil de compreender na minha tese. Se a compreendermos verdadeiramente, entenderemos que a bíblia e o cristianismo possuem uma dimensão de verdade que nenhuma outra religião pode ter, porque ambos retomam o mesmo fenómeno, e, em vez de irem até ao fim da mentira, contradizem-na e revelam-lhe a verdade.

Graças à Paixão, Cristo quer que os homens reconheçam o seu papel de fazedores de vítimas, de perseguidores. É porque proclama as regras do reino e renuncia totalmente à violência sacrificial, que o próprio Cristo é sacrificado.

O que importa compreender então, é esta absoluta inversão do sacrifício que faz de Cristo uma pessoa absolutamente única. E, por outro lado, a Paixão é envolta em fórmulas que nos dizem exatamente isto: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. O que é que isto quer dizer? Cristo pergunta-o aos seus ouvintes e não há um único que responda. Poderíamos crer que os teólogos medievais e os modernos retomaram a questão colocada por Cristo para lhe tentar responder. Mas alguma vez viram um teólogo interessar-se por esta questão posta pelo próprio Cristo? Nunca! O teólogo interessa-se pela filosofia grega e por todas as espécies de coisas estranhas aos Evangelhos, mas nunca pela questão posta por Cristo.

“É melhor que um só homem morra e que o povo seja salvo”. Será que isto quer dizer que Cristo é o bode expiatório? Com certeza: ele próprio aceita tornar-se [bode expiatório] e mostrar-nos o que todos nós fazemos. Olhai, por exemplo, como nós nos tratamos entre nações. Isto me impressiona muito porque, quando volto dos Estados Unidos, encontro exatamente a mesma coisa: os culpados são os americanos em vez dos franceses. É sempre igual dos dois lados, e raros são aqueles que compreendem esta igualdade na responsabilidade e na culpabilidade.

Tentei até agora explicar-vos, de modo muito sumário e desajeitadamente, porque é que penso que os deuses arcaicos, mesmo que não sejam reais, não são de modo nenhum inventados. Eles são a interpretação deficiente, mas inevitável, da nossa própria violência, durante muito tempo indispensável à humanidade, pois permitiu que os indivíduos e as comunidades coexistissem com essa violência que não cessamos de produzir e de reprimir. O fenômeno do bode expiatório unânime põe fim às crises violentas das sociedades arcaicas e estabelece a ordem “sacrificial” destas sociedades, a ordem que consiste em repetir o fenômeno catártico dos sacrifícios rituais.reneGirard

O cristianismo, e a Bíblia antes dele, são ao mesmo tempo muito semelhantes e muito diferentes. A Paixão é um fenômeno de bode expiatório quase unânime, mas os Evangelhos, em vez de se deixarem intrujar por esta mentira, tal como o fazem os mitos e as religiões arcaicas, denunciam na crucificação o que é, na realidade, ela é: uma odiosa injustiça que a partir de agora os homens devem evitar, pois jamais será payante [quitada].

A crise do mundo moderno vem da nossa recusa desta mensagem; recusamos compreendê-la e, sobretudo, segui-la. Somos, pois, cada vez mais ameaçados pela nossa própria violência e não fazemos nada de razoável ou de eficaz para escutar a mensagem bíblica e evangélica e, sobretudo, para nos adequarmos com ela. Esta mensagem excede-nos tão infinitamente que deveríamos reconhecer nela a palavra do verdadeiro Deus, que nos ensina a renúncia a toda a violência.

Tradução de Márcio Meruje. disponível em http://www.lusosofia.net/textos/girard_rene_o_bode_expiatorio_e_deus.pdf inclui ótima entrevista com René Girard. Material de interesse também pode ser encontrado no site da Unisinos http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520133-o-bode-expiatorio-entre-edipo-e-cristo-artigo-de-rene-girard

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