Mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos – Voltaire

O abade de Châteauneuf contou-me certo dia que a esposa do marechal de Grancey era muito imperiosa e que tinha muitas qualidades. Sua grande altivez consistia em respeitar a si mesma, em nada fazer que pudesse envergonhar-se em segredo; ela jamais se rebaixava a ponto de dizer uma mentira: preferia proferir uma verdade perigosa do que utilizar uma dissimulação útil e sempre afirmava que a dissimulação é a marca da temeridade. Mil ações generosas marcavam a sua vida; mas quando recebia um elogio, considerava-se mal compreendida e dizia: “Pensais que tais ações custaram-me esforços?”. Seus amantes a adoravam, seus amigos a queriam bem, e seu marido a respeitava.

Ela passou quarenta anos nesta dissipação e neste círculo de divertimentos que ocupam seriamente as mulheres. Ela não lia nada a não ser as cartas que lhe eram escritas, em nada pensava a não ser nas novidades do dia, nas idiotices dos que a cercavam e nos interesses de seu coração. Enfim, quando se viu naquela idade em que se diz que as belas mulheres com espírito passam de um trono a outro, ela desejou ler. Começou pelas tragédias de Racine e espantou-­se ao sentir, lendo-as, mais prazer do que jamais sentira ao ver suas representações, seu bom gosto a fazia reconhecer que este homem não dizia senão coisas verdadeiras e interessantes, que todas estavam em seu devido lugar, que era simples e nobre, sem declamação, sem nada forçar, sem ser lento e enfadonho e que suas tramas assim como seus pensamentos estavam fundados sobre a natureza: ela encontrava nesta leitura a história de seus sentimentos e o quadro de sua vida.

Fizeram-na ler Montaigne: encantou-se com um homem com quem estabelecia uma conversa e que duvidava de tudo. Deram-lhe em seguida os Grandes Homens de Plutarco: ela questionava por que ele não havia feito a história das grandes mulheres.

O abade de Châteauneuf encontrou-a certo dia vermelha de cólera. “O que há com a senhora?”, disse-lhe.

-Abri por acaso um livro que se encontrava em meu gabinete, respondeu ela. Era, creio eu, alguma coleção de cartas; e li tais palavras: Mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos; então joguei o livro fora.

– Como, Senhora! Não sabeis que se tratam das Epístolas de São Paulo?

– Não me importa de quem elas são, o autor é muito indelicado. O senhor marechal jamais escreveu-me neste tom; acredito que o vosso São Paulo era um homem de difícil convivência. Ele era casado?

-Sim, senhora.

– Ela deve ter sido uma boa criatura; se eu tivesse sido a mulher de um homem como este, eu o teria mandado passear. Sujeitai-vos a vossos maridos! Ainda se ele tivesse se contentado em dizer: Sejam doces, complacentes, atenciosas, econômicas, eu diria: eis um homem que sabe viver; e por que submissas, por favor? Quando casei-me com M. de Grancey, nós nos prometemos ser fiéis, eu propriamente não cumpri com minha palavra, nem ele com a sua, mas nem ele nem eu prometemos obedecer. Então, somos nós escravas? Já não é o bastante que um homem, após ter se casado, tenha o direito de causar-me uma doença de nove meses, doença algumas vezes mortal? Já não é bastante dar à luz, em meio a grandes dores, um filho que poderá processar-me quando velho? Não é suficiente estar sujeita todos os meses a incômodos muito desagradáveis para uma mulher de qualidade e que, para tornar as coisas piores, a supressão de uma destas doze doenças anuais seja capaz de matar-me, e ainda me dizem: Obedeça?

Certamente a natureza não disse para obedecermos; ela nos fez com órgãos diferentes daqueles dos homens, mas nos tornou necessários uns aos outros, ela não pretendia que da união se formasse uma escravidão. Eu me recordo bem do que Molière disse:

“Do lado da barba está o poder.”

Mas eis uma razão engraçada para que eu tenha um senhor! O quê! Porque um homem tem o queixo coberto de um pêlo grosso e desagradável, que obriga-o a barbear-se o máximo possível, e meu queixo é liso desde que nasci, é necessário que eu lhe obedeça humildemente? Eu sei bem que geralmente os homens têm músculos mais fortes que os nossos e que eles podem melhor desferir um golpe; temo que seja esta a origem de sua superioridade.

Eles também pensam ter a cabeça melhor organizada e, consequentemente, gabam-se de serem mais capazes de governar; mas eu poderia mostrar-lhe rainhas que valem tanto quanto reis. Disseram-me há alguns dias algo sobre uma princesa alemã que levanta-se às cinco da manhã e começa a trabalhar para tornar seus súditos felizes, ela dirige todos os negócios, responde a todas as cartas, encoraja todas as artes e propaga seus bons atos à proporção de suas luzes. Sua coragem iguala seus conhecimentos; ela não foi criada em um convento por imbecis que nos ensinam o que se deve ignorar, e que nos mantêm ignorantes sobre aquilo que se deve aprender. Eu, caso detivesse um Estado para governar, sentir-me-ia capaz de ousar seguir este modelo.

O abade de Châteneauf, que era muito educado, evitou cuidadosamente contradizer a senhora marechal.

A propósito, disse ela, é verdade que Maomé tinha tanto desprezo por nós que supunha não sermos dignas de adentrar o paraíso, e que não seríamos admitidas senão na entrada?

– Neste caso, disse o abade, todos os homens se deteriam para sempre na entrada; mas console-se, pois aqui não se diz uma palavra verdadeira a respeito da religião maometana. Como disse meu irmão que foi por doze anos embaixador em Constantinopla; nossos monges ignorantes e malignos nos enganaram.

– O quê! Não é verdade, senhor, que Maomé inventou a poligamia para que os homens melhor se afeiçoassem a ele? Não é verdade que somos escravas na Turquia, e que nos é proibido rezar a Deus em uma mesquita?

-Nada disto é verdadeiro, senhora. Maomé longe de ter imaginado a poligamia, reprimiu-a e restringiu-a. O sábio Salomão possuía setecentas esposas. Maomé reduziu seu número a apenas quatro. As mulheres irão ao paraíso assim como os homens, e sem dúvida lá farão amor, mas de maneira distinta da que se faz aqui: pois vós bem percebeis que não conhecemos o amor neste mundo senão muito imperfeitamente.

-Ah! Tens razão, diz a senhora marechal: o homem é pouca coisa. Mas, diga-me, o vosso Maomé ordenou que as mulheres fossem submissas a seus maridos?

– Não, senhora, não se encontra nada disto no Alcorão.

– Então, por que as mulheres são escravas na Turquia?

– Elas não são escravas; elas têm seus bens; podem testemunhar, podem, em circunstâncias adequadas, pedir divórcio; elas freqüentam as mesquitas em certas horas e têm seus encontros em outras. Elas são vistas nas ruas com seus véus sobre os narizes, como vós tínheis vossas máscaras há alguns anos. É verdade que não aparecvoltaireem nem na Opera nem no teatro; mas é porque estas coisas não existem. Duvidas que se um dia houvesse em Constantinopla, que é a pátria de Orpheu, uma Ópera, as damas turcas não ocupariam os melhores camarotes?

– Mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos! Continuava a dizer entre os dentes a senhora marechal. Este Paulo era muito bruto.

– Ele foi um pouco duro, disse o abade. Tratava um bom homem como São Pedro com ares de superioridade. Além do mais, não se deve tomar ao pé da letra tudo o que se diz. Ele é censurado por ter tido mais do que apenas uma propensão ao jansenismo.

– Eu suspeito que ele era um herético, disse a senhora marechal, e recolheu-se para seu toucador.

Texto possivelmente de 1764. Essa versão foi baixada do perfil do tradutor Rodrigo Brandão no Academia.edu goo.gl/s0F8HH . Uma alternativa é a publicada na “Antologia de Textos Filosoficos” publicada pela Secretaria de Educação do Paraná http://goo.gl/7cFM4n .

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