Tradição e tradicionalismo – Otto Maria Carpeaux

Os aspectos do nosso tempo trazem a todos os lábios as expressões: “Isso nunca se viu”, “Isso desafia toda a experiência”. É um sintoma muito grave. O primeiro dever de Adão foi “o de chamar as coisas pelos nomes”, para as reconhecer. Cabe-nos, a nós, antes de tudo, reconhecer as coisas, de acordo com as experiências que, desde Adão, a humanidade vem acumulando. Talvez Matthew Arnold denominasse a isto “a faculdade crítica de distinguir; o que está na base da verdadeira civilização”. É essa a mesma “faculdade crítica de distinguir” de que o místico tem necessidade a fim de verificar se as suas visões provêm de Deus ou do Demônio. E a “verdadeira civilização” é a visão da humanidade. Temos, pois, desde Adão, que se achava em estado de graça natural, a necessidade das experiências, cuja soma está acumulada nas tradições da humanidade, para reconhecer as coisas e pôr em ordem o caos. Mas como consegui-lo, se as próprias coisas “desafiam toda a experiência?”

A perda das tradições é o sinal do nosso tempo. O reverso é a florescência dos tradicionalismos de toda ordem. Sabemos ainda hoje o que é uma tradição? É o que me pergunto. Mas, para responder, o pior dos caminhos seria recorrer aos De Maistre, aos de Bonald, aos Adam Müller, aos Donoso Cortés, aos grandes tradicionalistas, cuja atividade espiritual foi excitada pela perda das tradições da sua própria época. Nossas perdas são bem nossas. É preciso suportá-las e meditá-las, por nossa própria conta.

O que é uma tradição? Há várias respostas. A tradição de um povo, de uma região, de um grupo é, primeiramente, um conjunto de tradições: as crenças, os costumes, as canções, a cozinha, a casa, a família, todo esse conjunto de coisas, das quais só nos damos conta quando se vão. Elas são o objeto de lamentações nostálgicas de todos os velhos e de todos os retardatários. Desde o velho poeta espanhol Jorge Manrique, que se lamentava

“Cualquiera tiempo pasado

Fue mejor”

 

– até ao velho que me assegurava, ainda outro dia, que “o verdadeiro amor apenas existiu pelos anos de 1890”. Em certos homens – e há muitos deles – esse tradicionalismo de ressentimentos se condensa numa hostilidade violenta contra o seu próprio tempo: eles estão prontos a aderir a todas as revoluções contra seu tempo, sem ver que assim perecem os últimos restos das queridas tradições.

O contrário desses partidários pequeno-burgueses, ressentimentais das revoluções erostráticas encontra-se nos amadores entusiásticos das tradições moribundas, nos folcloristas das velhas canções e costumes, cujos museus mofados só raramente se transformam – sob a mão de um grande artista, de um Gilberto Freyre – num quadro vivo do passado: unicamente quando esse passado se foi para sempre.

O que une as duas espécies de tradicionalistas é que eles não são exigentes. Lamentam e colecionam tudo. Por aí ganhamos um primeiro elemento de definição de uma verdadeira tradição: tradição é escolha. Primitivamente, a tradição era “o que não está escrito”, o que se transmite oralmente; os “grandes tradicionalistas” do romantismo não procuram a tradição dos livros, mas a tradição não escrita do povo, a tradição subconsciente das lembranças populares. Por isso as tradições encerram um elemento perigoso de incerteza, de autenticidade duvidosa. Elas precisam ser garantidas por uma autoridade. O complemento indispensável do princípio de tradição na Igreja Romana é a autoridade do papa, a autoridade de distinguir o que é a verdadeira tradição e o que não é. Tradição é escolha.

Não há uma só tradição em nenhum lugar. Em toda parte há muitas tradições, entre as quais é preciso escolher. A escolha de uma tradição é a reprovação das outras, é uma decisão suprema. Nisso consiste a grande política. Porque a escolha das tradições do passado determina o futuro. Os Estados Unidos rejeitaram as tradições aristocráticas do Sul e adotaram as tradições puritanas do Norte. Isto determinou a sua história. Quase sempre essa escolha de tradições é muito consciente, até mesmo arbitrária: cada recanto da maravilhosa Roma medieval dos papas que desaparece para dar lugar às escavações de alguma ruína desinteressante da Roma imperial prova a política arqueológica, a escolha da tradição, da Itália fascista. Muitas vezes a escolha da tradição é impossível; a França moderna despedaçou-se entre duas tradições: a galicana e a jacobina. Às vezes não há tradições que escolher, porque se perderam todas as tradições, como na Alemanha depois de Nietzsche. Ali foi criada a tradição artificial dos velhos germanos, que não está ligada por nenhuma continuidade aos alemães modernos.

Mas a continuidade é essencial à tradição: o segundo elemento da definição. Ainda uma vez a Igreja Romana nos instrui: ela reúne a autenticidade das suas tradições a uma continuidade, a sucessão apostólica dos seus bispos. Não se “cria” uma tradição por si só. Isso significaria colocar-se a si mesmo na origem das coisas, em vez de Deus. Contra essa blasfêmia revolucionária o grande romântico e conservador alemão Achim von Arnin lançou, no seu romance A condessa Dolores, a magnífica apóstrofe: “Maldito seja aquele que começa por si mesmo! Somente a infâmia começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.”

Com isso a tradição parece essencialmente contra-revolucionária. Houve, porém, muitas vezes, revoluções de tradicionalistas, e o país mais tradicionalista, a Inglaterra, conhece apenas revoluções tradicionalistas, para defender-se de inovações, chamadas contra-revolucionárias. O verdadeiro inimigo da tradição é a anarquia espiritual, que esmaga todas as continuidades; e a tradição e a contra-revolução não são a mesma coisa. No volume XVII das Obras de Lenin, lembro-me de ter lido: “A cultura proletária não deve ser outra coisa senão a evolução sistemática dos tesouros que a humanidade conquistou sob o jugo dos capitalistas.” Lenin critica, zombeteiramente, os “radicalismos ridículos” dos artistas revolucionários, e acrescenta: “O marxismo é o resultado de três produções da burguesia: a filosofia alemã, a economia política dos ingleses, e o materialismo francês do século XVIII.” Vê-se que Lenin escolheu cuidadosamente sua tradição, e o fez para guardar uma continuidade. “A civilização” – diz ele -“não poderia sobreviver ao capitalismo, que a criou, sem uma revolução que destruísse e preservasse ao mesmo tempo: a revolução social é necessária para realizar, no futuro, a continuidade da civilização.” Continuidade é a primeira e a última palavra dos Bonald e dos Adam Müller. Assim, como eles, Lenin é tradicionalista.

Não o digo por prazer do paradoxo. Digo-o para poder melhor definir a “continuidade” e salvá-la do monopólio de um programa político. A liberdade civil inglesa é também uma tradição em continuidade. O tradicionalismo dos Burke, dos Savigny não é estático; ele sublinha sempre o “tornar-se” orgânico, continuado, muitas vezes inconsciente. Visivelmente, é coisa diversa da “evolução” dos liberais: estes revelam o movimento em todas as coisas duráveis; aqueles revelam a durabilidade em todas as coisas movimentadas. Ao ver dos tradicionalistas, o mundo destruir-se-ia por si mesmo, em movimentos precipitados, se a “durabilidade” e a continuidade histórica não reagissem. Estamos sempre na iminência de cair no abismo. O verdadeiro tradicionalista -Lenin o é só pela metade -é seriamente preocupado com angústias religiosas. O contrário do bem-pensante burguês, que quisera ver a continuidade dos seus progressos materiais garantida pelas tradições que ele secretamente desdenha. Tradicionalismo não é um programa político. Ele treme pela existência do mundo.

Essa nova definição fornece um elemento positivo e um elemento negativo. O elemento negativo ensina-nos que o tradicionalismo não é um programa político. As grandes contradições políticas e ideológicas desaparecem, aí, mais ou menos. Não se trata de revolução ou de contra-revolução. Trata-se de um problema grave: como conservar a continuidade do mundo? Questão de tática.

A tática representa, nas relações materiais dos homens, o que representa a pedagogia nas regiões do espírito. A tradição guarda as experiências do passado e transmite-as, pela continuidade, às gerações do futuro. Essa função de transmissão revela o caráter pedagógico da tradição.

Naturalmente não falo da pedagogia escolar. Falo da pedagogia, maior, dos povos, assunto de extraordinária importância e por aí muito pouco estudado. Há somente um mestre: a Ordem dos Jesuítas. Sem dúvida, a verdadeira grandeza dos jesuítas reside nos princípios da sua pedagogia, que assim poderia ser resumida: apresentar aos alunos noções fixadas, subtraídas a qualquer discussão, e incuti-las por uma disciplina que é um cerimonial. Essa disciplina, porque é um cerimonial, por assim dizer, mecanizado, preocupou seriamente o espírito atormentado de Pascal. Mas ele não tem razão. Vivemos, todos nós, dentro de cerimônias. Cada um de nós tem necessidade de certas cerimônias muito pessoais para poder adormecer, de noite. A tela, a opereta, o rádio, a literatura fácil, que adormecem nosso espírito, aplicam o cerimonial de seus estereótipos, tradição eterna do mau gosto. O cerimonial do adormecimento, porém, representa mais do que caprichos individuais: é a ligação entre o dia, com os seus movimentos instáveis, e a noite, com a sua duração obscura. Todo o cerimonial, o cerimonial religioso sobretudo, encerra a vida cotidiana e banal pela vida, mais alta e mais solene, da durabilidade. O cerimonial dá-nos a disciplina para suportar o olhar das “noções fixadas”, dos dogmas, das “idéias”. O cerimonial é a disciplina pedagógica da “continuidade” tradicionalista. Todo tradicionalismo crê em idéias invariáveis. Essa comunidade de vistas idealista é independente de todos os programas políticos ou espirituais: a civilização antiga dos humanistas, a civilização medieval dos românticos cristãos, a civilização proletária à maneira de Lenin constituem conjuntos semelhantes de idéias de valor indiscutível. Eis o elemento positivo da definição que a noção de “continuidade” nos forneceu: todo tradicionalismo, ao contrário do progressismo, é idealista, platônico.

Eis por que os jesuítas são humanistas convictos. Os jesuítas e os humanistas aliaram-se pela fé comum nas idéias duráveis, invariáveis, subtraídas a toda crítica.

Essa atitude anticrítica em relação ao passado é característica dos tradicionalismos. Parece contrária ao que procuramos? Não devemos esquecer que procuramos “a faculdade crítica de distinguir; o que está na base da verdadeira civilização”. Mas aquela atitude é verdadeiramente anticrítica? Ela me parece, antes, acrítica, o que não é uma distinção muito sutil. Há dias, lia nas Conversações com Goethe, do velho Eckermann: “Em Roma hospedei-me numa casa perto da Piazza del Popolo; hoje vê-se em Roma uma outra casa onde pretendem que eu teria habitado. Não importa, é preciso deixar seguir as tradições” (8 de abril de 1829). Esse ponto de vista não é, de modo algum, pragmatista, não tem relações com o dinamismo artificial de Nietzsche. Permitam-me pequena digressão. Ninguém admira Nietzsche mais do que eu, ninguém lamenta mais os mal-entendidos brutais que o transformam, na consciência dos semiletrados, em profeta do pangermanismo ou apologista de um ateísmo especificamente alemão. Nietzsche é um poeta-profeta. Dizia a verdade que os grandes mestres do positivismo alemão não viam: a civilização acha-se à beira do abismo niilista. A profunda ignorância filosófica do seu tempo impediu-o de reconhecer a origem dessa catástrofe na falsa interpretação da evolução hegeliana em sentido darwinista e materialista; seu mestre Schopenhauer barrou-lhe o caminho de volta a Hegel. Mas a “evolução” de Hegel não é outra coisa senão a “durabilidade” de Goethe. O caminho de volta, de Nietzsche, através de Hegel, a Goethe, é um verdadeiro caminho de salvação. Ele nos leva à veneração respeitosa do que é, do que se formou no seio da durabilidade. Assim, a pequena digressão conduziu-nos a um acriticismo consciente, que não põe mais em discussão as “idéias”, porque estão indestrutivelmente consagradas pelo tempo, pela durabilidade, pela continuidade. O tradicionalismo é platônico.

Todo platonismo é de ordem estética. Meu amigo Adolf Loos, o grande arquiteto vienense, gostava de dizer: “Tudo o que é moderno é feio, tudo o que é velho é belo.” Alain explicaria isso pela função exterminadora do tempo, que só deixa subsistir as coisas bem realizadas, destruindo as falhadas. “Que casas feias!”, dizia alguém a Machado de Assis, que respondeu: -“Feias! Mas são velhas!” Essas casas não podem ser feias, porque o tempo as poupou. O tempo, paradoxalmente anti-histórico por definição, esquece o feio e só conserva o belo. E isso vale também quanto ao verdadeiro. “As velhas verdades” – dizia Loos -“dizem-nos mais que as novas mentiras.” Porque o tempo esquece o feio, mas a mentira é esquecida por si mesma. Tudo quanto é moderno não vale nada. Os antigos têm sempre razão.

Eis uma profissão de fé bem tradicionalista. A tradição não tem necessidade de justificar-se perante nós. Muito ao contrário, nós é que temos necessidade de justificar-nos perante a tradição. É quase ridículo criticar uma tradição; porque ela existe, e “tudo quanto existe tem a sua razão de ser”. A frase citada de Goethe é bem hegeliana, certamente sem ele o saber. É uma insolência crítica exigir que os antigos, os velhos, as tradições se confirmem perantenós. É muito mais razoável exigir que nós nos confirmemos perante elas. Nesta exigência reside a razão de ser de todo humanismo. As verdades da Antiguidade greco-romana não eram verdades eternas, e as suas belezas não eram insuperáveis. Longe de nós o academicismo insuportável. Mas foram as primeiras verdades e as primeiras belezas bem-sucedidas que uma tradição contínua nos transmitiu, e isto as erige em instâncias duráveis, que dirigem a todas as épocas e a todo homem consciente esta pergunta, que é a essência do humanismo: -Sois dignos de nós, os vossos antepassados? Sois dignos? -Assim fala o tradicionalista. Ele nos examina, e esse exame do moderno em face do eterno revela a função pedagógica da tradição.

A tradição é, portanto, uma tática pedagógica, que nos ensina a guardar a continuidade em relação às experiências do passado, e a escolher as experiências que nos servem para reconhecer o durável dentro do instável em nosso curto momento de vida. Essa “escolha” é de suprema importância. Sem essa “escolha”, nós nos abandonaríamos ao falso tradicionalismo dos “homens de ontem”, retardatários, rancorosos, amadores do “que já foi antigamente e para onde é preciso voltar”, como se a morte fosse um convite para a vida. A esse “tradicionalismo arqueológico” nos contrapomos com a frase de Barrès: “Encontrei uma disciplina nos cemitérios.” Não cito isso para lembrar o elemento disciplinar, pedagógico, da tradição, mas para sublinhar o elemento ativo, dirigido para a vida, e que prevalece na função escolhedora. A verdadeira tradição é sempre ativa. Ouso dizer: reconhecem-se as falsas tradições pela sua essência determinista, fatalista, passivista.

Longe de mim fechar os olhos ante as verdades que existem em todo erro: há uma grande verdade histórica no marxismo, há uma grande verdade humana na psicanálise, e há mesmo uma verdade antropológica incontestável no racismo. Mas o que existe de essencial nessas grandes heresias do nosso tempo é o passivismo fatalista que lhes é comum: a convicção da inevitabilidade do destino econômico, do destino subconsciente, do destino racial. Não é por um acaso que essas “escolas” tendem a estabelecer Inquisições mais “ortodoxas” e mais intolerantes do que qualquer Inquisição que historia-literatura-ocidentaltenha tentado suplantar a consciência humana. E essa tentativa é característica das falsas tradições.

A tradição só existe na consciência humana. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher, o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo; uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo, romântico ou leninista, degenera em opressão inquisitorial. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha, feita uma vez por todas, para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. É a morte do espírito. E, com o espírito, morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e “chamamos as coisas pelos nomes” a fim de as reconhecer. A consciência humana, artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição, sucumbe, encerrada num “modernismo” individualista ou coletivista. Os critérios se perdem. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso, do bem ou do mal. Então, os homens começam por si mesmos. Os seus feitos “desafiam toda a experiência”. “Maldita seja” – diz Arnim -“a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.”

Extraído da coletânea “As Cinzas do Purgatório”, 1942.  Disponível em http://migre.me/rQiCy

https://pt.wikipedia.org/wiki/Otto_Maria_Carpeaux

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s