Sobre Dilmas, Don Joões e o nosso Miguê.

[Rodrigo Mudesto]

Uma das coisas que chama a atenção atualmente é a proeminência que a politica dos cariocas (que não equivale a politica carioca) ganhou no ultimo ano.  Desde muito cedo, o Rio se consagrou como O palco da politica nacional, sem ser ordinariamente seu maior protagonista. Mineiros, gaúchos, paulistas, pernambucanos, baianos… Cada qual a seu (des)prazer serviu-se da cidade para os escambos nacionais. Apesar de nos últimos 50 anos rivalizada em suas atribuições por Brasília, ela ainda é a nossa capital do kula, a cidade do dispêndio.  O Rio confunde-se com o mais frágil, porem bem sucedido, dos nossos mitos nacionais, a fantasia de que temos um centro. Mas como me pareceu ter ficado claro pelo menos aos participantes do produtivo seminário de cientistas sociais em Barbacena, realizado na semana passada, não vivemos em países, ou estados, vivemos em cidades. É o interesse dessas que se confunde com os nossos próprios. Mas isso é assunto pra outro dia.

Petrobras, Eduardo Cunha & Picciani, Lava-a-jato e alii, são sobremaneira temas cariocas. E não causa estranheza que assim sendo, estejam sob rédeas principalmente da republica de Curitiba, da opinião publica paulista, e de um procurador geral atleticano. Novidade seria se interessasse aos cariocas, por lá  o PMDB não só legisla, como executiva (ou seria executa?) pela vontade geral. O único tema reservado a politica carioca parece ser o acesso ao mar.

Nessa madrugada, quente demais para dormir, lia a biografia que Pedreira & Costa escreveram para D. João VI (“Um príncipe entre dois continentes”, Cia das Letras, 2008) e me perguntava o quanto o moderado D. Joao VI, em seu regresso a Lisboa, numa espécie de segundo mandato, fazendo imensas e humilhantes concessões aos liberais vintistas, entrincheirados nas cortes legislativas, não lembra nossa presidenta. Ressalvo o esforço de Dilma em emagrecer, enquanto o rei português parece, em suas horrorosas retratações, se orgulhar de sua barriga em forma de ovo. Mas seria Cunha a reencarnação de Manuel Fernandes Tomás, vaidoso deputado português famoso por ter mandado o Brasil as favas, e em consequência arruinando o liberalismo português, e condenado seu país a irrelevância internacional?

Minha resposta vacilante é: não. Tenho analogia melhor.

Nosso “Interregno Cunha”, fase esquecível que começa a se encerrar com o óbito em vida do presidente da câmara, que doravante angustiara a todos nós com seus espasmos post mortem, me faz pensar mais no que rolava por aqui mesmo nessa tal época. Pergunto-me o quanto a gestão perdulária e grandiloquente da Petrobras não parece remeter ao cotidiano da corte portuguesa no Brasil no inicio do dezenove, e na forma com que a querida “bancada do cunha”  revive o desespero de nossos nobres e servidores públicos ao se empenharem para conservar o estado de coisas, por meio da independência, declarada, não só, mas também, para preservar os benesses que a vinda da família real estabelecera no Rio de Janeiro.

Para Freud a reencenação é a pulsão de morte operando na busca de um prazer não realizado. Já Winnicott, ao tratar da compulsão a repetição, cita que “um exemplo simples seria o do menino cuja primeira infância havia sido normal, e ao qual foi aplicado um enema por ocasião de sua tonsilectomia, inicialmente por sua mãe e depois por um grupo de enfermeiras que tinham que segurá-lo à força. Tinha então dois anos de idade. Posteriormente teve problemas intestinais, e aos nove aparece com um caso grave de constipação.”

Como vejo, o Brasil devido à ocasião de sua independência adquiriu grave constipação. Ele não saiu impune de debutar entre as nações em um momento muito especifico das preferencias ocidentais por sistemas políticos.

Acho que todos nós conhecemos alguém idoso, que se veste apuradamente com a moda de sua juventude (opção por sinal mais sensata do que vestir-se conforme a moda da juventude dos netos, mas o mico é livre). Países costumam se trajar de forma a remeter a sua fundação, isso mesmo que sua “vida” tenha sido atribulada e cheia de reviravoltas. É um ato reflexo e defensivo a momentos de insegurança e fragilidade. Infelizmente quando o Brasil foi “declarado” o mau gosto gozava de imensa popularidade na filosofia moral, Napoleão tinha levado a revolução as ultimas consequências, e tudo que o  povo nas ruas daquela época não queria era saber de povo nas ruas.  E agora que a instabilidade domina a politica nacional, vestimos os velhos fraques.

Em tempo. Com a independência de Portugal e devido à ação de Miguel (o irmão do Pedro) e de Carlota (a Marieta Severo) os deputados das cortes forma desmoralizados, sua constituição rasgada, enquanto a sociedade portuguesa pedia por um ‘Rei Absoluto’ (eles queriam algo mais parecido com a vodca do que com o Luís XIV, mas deixa isso pra lá, que é complicado). D. João recupera o poder, mas acaba morrendo na sequencia. Existe a lenda de que se tratou de assassinato, e que para evitar a coroação do culpado Miguel, a morte foi escondida por 5 ou mais dias…. É melhor não perdermos Dilma de vista. Em suas pinturas Miguel tem um Q de Aécio.

Figura 1- D. Aécio I, “O Miguê”30-_Rei_D._Miguel_-_O_Absoluto

Figura 2 D. Eggs VI: “Tudo pela governabilidade”dom-joao-vi-391x450

Figura 3 -Cortes Geraes da Nação Portuguesa: “Representação para inglês ver”palacio-de-sao-bento-44

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