Elster e Varoufakis: A DEMOCRACIA E OS DILEMAS DA AUSTERIDADE

[Jon Elster e Yanis Varoufakis, introdução e tradução do inglês para o português por Alessandra Maia]

O mundo tem acompanhado atento, e por vezes estupefato, as tramas democráticas que emergem da experiência grega recente, e seu percurso de enfrentamento da grave crise econômica que marcou a sua precária tentativa de entrada para a zona do euro.

O Brasil, é possível afirmar, já acumulou algum know-how em gradar a austeridade, tendo em vista que já enfrentou o contexto severo de hiperinflação e os seus dilemas. Esses são alguns espectros que vira e mexe retornam de nosso passado, e ainda mobilizam mentes e ajustes fiscais recentes.

Não obstante, as críticas à proposta austera alemã formam um coro eclético, incluso na lista o economista Thomas Piketty, que redigiu recentemente uma carta conjunta assinada por ele, Heiner Flassbeck, Jeffrey D. Sachs, Dani Rodrik e Simon Wren-Lewis, aonde, entre outras coisas, os intelectuais exortam que Angela Merkel deveria reconhecer, o quanto antes, que o plano de austeridade traçado para a Grécia deu errado. A afirmativa seguinte consiste no forte incentivo a sua correção. (Ver http://www.thenation.com/article/austerity-has-failed-an-open-letter-from-thomas-piketty-to-angela-merkel/)

No mote da crítica à austeridade fiscal como única solução em contexto de depreciação crescente de renda e perda de força de trabalho acelerada, apresentamos aqui a tradução do debate ocorrido no último mês de julho entre Jon Elster e Yanis Varoufakis, transcrito a seguir.

Varoufakis e Elster,  façam suas apostas…

[Entrevista  concedida a jornalista Miri Davidson, publicada em 23 de julho de 2015 pela Verso Books no seguinte endereço http://www.versobooks.com/blogs/2143-varoufakis-and-elster-place-your-bets%5D

“Vistas através das lentes da teoria dos jogos, Atenas e a Europa pendem entre duas alternativas: cooperação ou deserção. O ministro das finanças grego Yanis Varoufakis discutiu suas ideias (seus insights) e erros, que emergem de uma análise a partir da teoria dos jogos sobre a crise grega, com o filósofo Jon Elster.

Jon Elster é professor emérito na New York Columbia University e no Collège de France. Ele é conhecido por sua crítica rigorosa e revisão dos axiomas básicos da teoria econômica – o ator racional e seus interesses. Ele é autor do “Tratado crítico do homem econômico”- (“Traité critique de l’homme économique”).

Yanis Varoufakis é Professor de Economia na Universidade de Atenas, professor visitante da Universidade do Texas e um ex-consultor da empresa de software e jogos eletrônicos Valve Corporation. Ele foi nomeado Ministro das Finanças no governo de Alexis Tsipras em janeiro de 2015, após as eleições. Um especialista em teoria dos jogos, ao contrário da tendência dominante ele considera que a cooperação é mais vantajosa no longo prazo do que cada um por sua própria conta e risco. Sua obra “O Minotauro Global”, um fascinante ensaio sobre a crise do capitalismo global, acaba de ser traduzido para o francês por “Éditions du Cercle”.( ainda inédito em português)

Ao cair da noite sobre Acropolis, eu caminho ao longo das ruas estreitas do bairro de Plaka na direção da Praça Syntagma, aonde se encontra o prédio neoclássico do Parlamento bem em frente à moderna torre do Ministério das Finanças. Eu tenho um compromisso com o ministro Yanis Varoufakis. Um brilhante economista e especialista em “teoria dos jogos”, ele concordou em ter uma conversa por telefone com o filósofo Jon Elster em Nova York. Os estigmas da crise são visíveis em Atenas: em alguns parques os jovens vivem em tendas e estão cultivando hortas; nos terraços de cafés pessoas com idade tentam vender pacotes de lenços de papel em busca de alguns euros; uma instalação na entrada para o ministério ainda traz os cartazes de uma mobilização de quinhentas mulheres que trabalhavam na limpeza do lugar até que foram demitidas sob pressão da Troika, para então serem recontratadas novamente. Uma delas, de origem búlgara, já foi em outros tempos eleita membro do Parlamento Europeu. Todos concordam que a sensação é de que se está à beira do abismo – falência coletiva, saída do euro, desemprego em massa e precariedade generalizada – a Grécia está inventando uma nova forma de fazer política, rompendo com as normas de uma casta que negociou votos por privilégios. Por outro lado, todos os gregos encontram-se divididos entre a demanda para reduzir sua dívida e demanda de continuar na Europa, entre a necessidade de pôr fim à austeridade que sufoca a população e a promessa de restabelecer a sua dignidade. Faria parte dos interesses dos gregos cooperar com os europeus? Teriam eles os meios de fazê-lo? Ou deveriam eles simplesmente desertar? E no caso dos europeus: será que eles têm razão ao encurralar os gregos?  Depois de duas horas de fascinante discussão, abordando história, moralidade e estratégia, bem como economia, Yanis Varoufakis segurou meu braço, dizendo: “Dada a situação, as pessoas irão me criticar por desperdiçar meu tempo conversando com filósofos. Mas eu realmente gostaria de fazê-lo. Eles vêem as coisas mais claramente”. Deixando o Ministério das Finanças, eu alcanço o lado do Parthenon, aonde há dois mil e quinhentos anos atrás, certo Solon fundou a primeira das instituições democráticas… e cancelou as dívidas das classes populares. Será que a historia vai repetir-se?

Yanis Varoufakis: Eu não sou um político profissional. Tenho sido um teórico em economia ao longo de toda a minha vida, um especialista em teoria dos jogos. Eu entrei na política há dois meses e meio. Defino-me como um “marxista errático”  na medida em que considero que ao posicionar sua teoria enquanto uma ciência da sociedade e da história, Marx tem alguma responsabilidade pelo autoritarismo de parte da esquerda. Ainda assim estou convencido de que ele forneceu uma das mais penetrantes visões do capitalismo. Cada vez que eu olho pela janela eu me confronto com as contradições que ele identificou.

Jon Elster: Gostaria de me apresentar mais como um marxista “esmaecido”. O meu marxismo “esmaeceu antes mesmo que pudesse florescer”. Eu cresci na Noruega. O meu pai era um porta-voz do Partido Trabalhista. Quando cheguei a Paris, escrevi uma tese sobre Marx com Raymond Aron. Tornei-me um especialista em Marx (‘Marxologist’). Depois disso me dediquei a refletir sobre a escolha racional, o que pressupõe que a razão e o interesse determinam nossas escolhas. Eu desenvolvi uma crítica sobre esta visão do homem “racional”, “interessado”, que não corresponde ao modo como as pessoas se comportam em suas vidas, ou às suas motivações. É por essa razão que estou curioso para saber o que motivou um acadêmico como você a se envolver na política.

YV: Não seria um marxista necessariamente envolvido na política? A minha família é um resultado da Guerra Civil que dividiu a Grécia. O meu pai cresceu no Cairo, onde recebeu uma educação francesa, que incluiu Voltaire, Rousseau e seu ídolo, Robespierre. Ele migrou para a Grécia em 1946, pouco antes da guerra civil eclodir novamente. Em virtude de um conflito com a gestão universitária sobre o seu direito a matricular-se, os serviços secretos o capturaram e exigiram que ele assinasse um documento denunciando o comunismo. Ele cumpriu três anos e meio em um campo por se recusar a fazê-lo. Quando fechado, em 1951, ele voltou à universidade, onde se encontrou com a minha mãe, que tinha aderido a uma organização fascista. Qual era o seu trabalho? Ver o meu pai! E aqui estou eu! (Risos). Com o tempo, eles aprenderam a ter relações mais moderadas, mas quando as brigas aconteciam minha mãe bradava para o meu pai  “maldito comunista” !”, ao que ele respondia “fascista suja!”. Lembro disso tudo apenas para dizer que me tornei politicamente consciente muito cedo.

JE: Nesse caso, o quê o levou a estar com Syriza, quando, assim como eu, ser um acadêmico o posicionava a certa distância da vida política?

YV: Em 2008, após o crash de Wall Street, a economia grega foi a primeira a entrar em colapso. Nesse momento passei a acreditar que os planos para salvá-la conduziriam a um impasse. Diante da ameaça de quebra dos bancos, a Europa fez o maior empréstimo da história – condicionado à austeridade. Isso não poderia funcionar. Se você colocar o maior empréstimo na história em seus ombros, em um contexto de rendimentos em queda, você se condena a repetir a experiência da década de 1930. Muito rapidamente, as nações tendem ao conflito e acentuam-se extremismos. Desde que considerei que as respostas que estavam sendo oferecidas não eram as certas, eu entrei para a política.

JE: Eu acompanho com muito interesse a crise europeia, mas eu não sou um economista. A economia das finanças parece-me um inextricável emaranhado de economia, psicologia e política – o que a torna de impossível compreensão.

YV: Você está dizendo que você não é um economista? Permita-me discordar! Eu tenho lido o que escreve por um longo tempo. Eu ainda trago na memória suas críticas sem respostas sobre a inconsistência do princípio da máxima utilidade, formuladas em “Ulysses and the Sirens”. Quem escreveu um texto como esse não tem o direito de fingir não ser um economista, ou reivindicar que não entende nada sobre finanças!

JE: Estou interessado no papel que as emoções desempenham no comportamento dos indivíduos. Estou impressionado com a influência das emoções ligadas à memória histórica na crise grega. Os alemães nunca esquecerão a hiperinflação da década de 1920, e os gregos nunca esquecerão as atrocidades que os alemães cometeram durante a ocupação. Estas memórias dolorosas produziram emoções, ou mesmo obsessões, que são muito difíceis de superar tendo em vista interesses de chegar a um bom acordo. Emoções induzem indivíduos e povos a pensar e se comportar de forma irracional. Elas afetam tanto a nossa capacidade de avaliar os riscos como o nosso grau de aversão ao risco.

YV: O Nazismo não triunfou em 1930 por causa da hiperinflação, mas por causa do desemprego em massa. Em 1931-1932 a hiperinflação havia sido controlada, o marco tinha sido substituído, os preços se estabilizaram, e o Partido Nazista obteve não mais do que 10 por cento de apoio nas eleições. Em seguida, Hjalmar Schacht implementou sua política de austeridade, o que levou a uma explosão do desemprego, e foi então que os nazistas obtiveram vitórias eleitorais. Quanto à Grécia, eu acho que não estamos mais obcecados pela ocupação. O que estamos defendendo diante dos alemães é a nossa dignidade.

JE: Não foi ao longo das negociações, contudo, que você trouxe a questão do empréstimo que os alemães impuseram aos gregos durante a ocupação de volta à agenda?

YV: Isso foi único em toda a Segunda Guerra Mundial … existe  um documento fascinante do Banco Central grego, elaborado e assinado pelo exército alemão. Eles levaram uma quantidade enorme de dinheiro para financiar os custos da ocupação. Antes de sair, eles deixaram um contrato assinado comprometendo-se a devolver o dinheiro, e especificando a qual taxa iriam fazê-lo – só alemães fariam algo assim! Nós ainda temos este contrato. Eu não exigiria que os alemães o pagassem na íntegra. Agora, caso a senhora Merkel quisesse vir ao Banco Central em Atenas e nos dar um simbólico 1 € em troca dessa dívida, até mesmo esse simples gesto seria ótimo.

JE: Aqui temos duas fábulas morais, uma dizendo que os alemães têm de estar de acordo com sua promessa da ocupação, e a outra dizendo que os gregos têm de pagar sua dívida de volta na íntegra.

YV: Vamos trocar euro por euro. Ou um para vinte. O que conta é que deve haver uma solução. Quando o governo alemão insiste em que as reparações de guerra foram resolvidas, eu pergunto: quando? Por quem? A dívida, eles respondem, foi sanada durante a reunificação alemã. Isso não é verdade, legalmente falando. Na década de 1950 e 1960, os alemães disseram “Nós não vamos pagar até que as duas Alemanhas estejam reunificadas. Não há nenhuma razão pela qual o Oeste (Ocidente) deva ter que pagar em nome do Leste (Oriente)”. Em 1991, no momento da reunificação, a Grécia foi excluída das negociações. E nada foi pago.

JE: É importante evitar a moralização do que está em questão, aqui.

YV: Eu sou contra a moralização, particularmente quando se trata de dívida. Não é ético, e não é boa economia também. Mas quando você me diz que as minhas dívidas são sagradas, enquanto as de outras pessoas foram eliminadas, porque eles unilateralmente decidiram que isso deveria ser assim … isso não será suficiente.

JE: Nós também precisamos parar de permitir que o passado contamine o presente

YV: Mas eu não acho que nós precisamos nos livrar da memória histórica.

JE: Nenhum dos dois lados deveria exigir respeito absoluto para os contratos do passado.

YV: Quanto a este ponto, estou com Hannah Arendt. Desde que, pelo menos um alemão morreu em Auschwitz, o povo alemão não pode ser considerado coletivamente responsável pelo nazismo. Da mesma forma, desde que há um grego honesto, o povo grego não pode ser estigmatizado como um bando de vagabundos e fraudadores. Estou preparado para distinguir quem é responsável pelo quê, para dissociar o passado do presente. Meus interlocutores, porém, nunca param de me dizer: a dívida é uma dívida. Se for esse o caso, então a dívida é uma dívida para todos.

JE: Na década de 1920 Keynes escreveu que transformar contribuintes em escravos de acionistas seria o início da revolução. Sua declaração é mais relevante agora do que nunca.

YV: Isto é o que eu chamo “os mandamentos da economia”. Quando meus interlocutores nos apontam o dedo, eu preciso lembrá-los que, para cada mutuário irresponsável há um credor irresponsável.

JE: A questão da responsabilidade é um fator essencial. Quem é o culpado? Em primeiro lugar, aqueles que concordaram que a Grécia entrasse na zona do euro antes de empreender reformas estruturais. Os funcionários em Bruxelas sabiam que a economia grega era um poço sem fundo. A Grécia foi integrada, mesmo assim, em nome da Europa e da democracia. O governo socialista de Papandreou também sabia que o país estava cheio de problemas, mas havia clientes para atender e, por isso mesmo, de forma imprudente seguiu-se em frente de qualquer maneira. Durante uma visita a Atenas meu filho teve sua perna mordida por um cão vadio. Nós fomos para a sala de emergência, e eu vi que a suspeita de que a Grécia é um país de gastos livres não era um mito!

YV: Quem é o culpado? Vamos voltar às origens da crise. O que aconteceu na Europa na década de 2000? Depois de reunir conjuntamente suas moedas no euro, as economias europeias operaram um frenesi de empréstimos impróprios. Os bancos franceses e alemães vieram para países deficitários no norte e sul da Europa, a procura de empresas e governos locais a quem eles pudessem oferecer um banho de liquidez. Estes empréstimos foram então recortados em pequenas fatias, embrulhados como ativos financeiros bacanas e revendidos. A idéia subjacente era que, caso eles fossem distribuídos um pouco por toda parte, isso iria anular o risco. Em 2008, essa prática resultou na crise do subprime. Quando estes empréstimos deram errado, aqueles que tinham lucrado com eles foram à falência. É disso o que “salvar a Grécia” tem se tratado principalmente: ​​dos € 240 bilhões tomados como empréstimo pelo estado grego a partir de então, 91 por cento foi para salvar os bancos. Os responsáveis ​​por aquele frenesi de empréstimos foram “salvos” por este novo empréstimo, enquanto os novos impostos recaem sobre os cidadãos que não haviam tomado nada por empréstimo. Aqueles que nunca tocaram a Caixa de Pandora tiveram que pagar.

JE: Por que será que foi a Grécia a ser sacrificada?

YV: Vamos imaginar que a Grécia não tivesse aderido à zona do euro em 2000: a mesma coisa teria acontecido com a Irlanda ou Portugal. O problema resulta de um fato, uma união monetária mal configurada entre países deficitários e outros, os auto-suficientes. Como é que uma união desse tipo pode funcionar? A Alemanha vende carros para a Grécia, a Grécia compra carros da Alemanha, portanto, um saldo negativo na balança comercial. Os lucros que a BMW realiza na Alemanha são investidos na Grécia. Uma vez que este último não tem qualquer indústria automobilística, o dinheiro é investido em propriedades, alimentando uma bolha imobiliária. Então veio a crise de 2008. Os países deficitários descobriram que tinham dívidas que não podiam pagar. Os bancos alemães forçaram os contribuintes alemães a emprestar aos gregos para que eles pudessem reembolsar os bancos alemães. Daí surgiu a palavra “dívida” [Schuld], que em alemão significa ‘culpa’, ‘pecado’ … e ‘dívida’.

 JE: O problema é ainda mais impossível de resolver porque a desvalorização é excluída por antecipação…

YV: … Claro. Até mesmo os libertários americanos concordam comigo sobre esse ponto. Confrontado com uma crise deste tipo, a solução liberal é: desvalorizar. Mas a Grécia não tem sua própria moeda, senão, sim, você poderia desvalorizar. De certo modo foi isso o que fizemos: a renda caiu em 46 por cento e houve perda de cerca de 25 por cento da nossa força de trabalho para o desemprego e a emigração em massa. O problema é que se a sua moeda pertence a um banco estrangeiro e se, ao mesmo tempo, as suas dívidas estão nessa mesma moeda, o processo de desvalorização interna não ajuda! Seus rendimentos encolhem, mas não suas dívidas!

JE: A razão pela qual as consequências desta série de erros atingiu a Grécia não teria a ver também com os gregos se comportarem de forma irresponsável? Não teriam as elites mantido uma ilusão de crescimento artificial?

YV: Eles realmente acreditavam que “vícios privados produzem virtude pública”, para citar a fábula das abelhas de  Mandeville [de 1714]. Ao invés de taxar o capital e administrar o conflito entre trabalho e capital, eles pensaram que era suficiente apenas deixar as finanças sem controle.

JE: Gostaria de perguntar-lhe sobre a teoria dos jogos, na qual você é um especialista. Ela é uma caixa de ferramentas formidável para compreender a estrutura da interação social, mas a posteriori, uma vez já ocorrida a ação. Por outro lado, parece-me perigoso usá-la para prever como os atores irão se comportar.

YV: O seu trabalho de crítica tem sido realmente relevante pra mim. Afinal de contas, a teoria dos jogos revela os limites da racionalidade que os economistas atribuem aos agentes econômicos. Somos seres sociais: as chamadas crenças de segundo grau – que levam em conta a opinião de outra pessoa a meu respeito – são de importância decisiva. A partir do momento que você começa a se preocupar em pensar sobre o que o seu interlocutor está pensando, as coisas podem se perder:  você passa a tentar adivinhar as crenças que a outra pessoa está formando a  respeito da forma como você vai agir – a Grécia tenta adivinhar o quê a Alemanha pensa que a Grécia vai fazer – e ainda mais, as crenças morais dos outros sobre o que você tem a fazer – a Grécia tenta adivinhar as expectativas morais dos europeus em relação à dívida. Uma vez que você está considerando essas crenças de segundo grau, você pode vir a depender deste jogo de antecipações mútuas.

JE: Eu não acho que devamos forçar o cálculo acerca das antecipações e de nossas reflexões sobre crenças longe demais, visto que isso pode paralisar a ação. Se tivéssemos que nos referir a um dos cenários que a teoria dos jogos tem formulado, qual seria o mais aplicável à Grécia? Alguns mencionaram o caso de “dilema do prisioneiro” a, e outras pessoas o “jogo do frango” [ver quadro abaixo*].

YV: Estes são cenários não cooperativos, enquanto a Europa pretende-se que funcione à base da cooperação. Em um jogo cooperativo, temos a possibilidade de chegar a acordos vinculativos, a possibilidade de falar livremente. Em um jogo não-cooperativo como no dilema do prisioneiro, não falamos uns com os outros: só podemos escolher entre cooperação e deserção. Na Europa, eu tento convencer os meus interlocutores que estamos em um jogo cooperativo e não em um jogo fechado. Nós já não temos qualquer direito de blefar. Quando eu digo que vamos acabar deixando o euro se tivermos que aceitar novas medidas de austeridade, não é um blefe.

JE: O que você acha da comparação entre as negociações sobre a dívida e o chamado jogo do “frango”, que trata essencialmente sobre estar blefando?

YV: Neste cenário, dois motoristas – digamos que a Troika e o meu governo – estão se dirigindo um contra o outro. O primeiro a desviar traz benefício – ele evita o acidente – mas ele ganha menos do que aquele que teve a coragem de assumir o risco de um acidente. Para nós, desviar significaria aceitar novas medidas de austeridade, humilhando-nos por jogar fora o nosso programa anti-austeridade. Para a Troika, desviar significaria deixar-nos ir longe demais sem impor mais austeridade. Eu realmente gostaria de citar Jean Monnet. Segundo ele, mesmo que sentados frente a frente em uma mesa, olhando no branco dos olhos uns dos outros e recitando argumentos já preparados, a chance de chegar a um acordo seria tênue. Não obstante, se considerado que se possa sentar no mesmo lado da mesa e colocar o problema do outro lado, as chances de chegar a um acordo são maiores. No jogo, os jogadores têm uma única e mesma motivação: por outro lado, será apenas pensando no conjunto de interesses da democracia e da união entre as democracias que as motivações podem se tornar maleáveis. A razão e o debate contraditório devem ser capazes de moldar as motivações das pessoas, a fim de que elas possam alinhar interesses, ao invés de ser tratadas como se fossem inamovíveis. É por isso que eu prefiro deixar a teoria dos jogos no mesmo lado.

JE: Há dois obstáculos típicos para a aplicação da teoria dos jogos. Indeterminação e irracionalidade. Ora, parece-me que os atores são menos racionais do que gostariam de admitir.

YV: Gostaria de acrescentar que poderia até mesmo ser um interesse fingir irracionalidade. Se um ator finge ser irracional por tempo suficiente, de forma convincente, há uma boa chance de que a outra pessoa passe a vê-lo como irracional. Assim, poderíamos dizer que não seria irracional fingir ser irracional …

JE: Em relação à Europa, tenho a impressão de que todo mundo continua a blefar um pouco. Ou, digamos, que cada lado está agindo de má fé … os europeus continuam dizendo aos gregos que eles tem que atravessar a austeridade, mesmo sabendo que ela não funciona. E os gregos agem como se dificilmente tivessem uma chance para isso. Então, eles estão mentindo para si mesmos.

YV: Os europeus não pensam todos da mesma maneira. A maioria passou a compreender que a austeridade é um remédio pior do que a doença em si, e que o que aconteceu com a Grécia pode acontecer com eles também. E eles não têm mais confiança nos seus governos. Os gregos não estão mentindo para si mesmos, eles estão dizendo: “vamos tentar pagar de volta, tanto quanto possível, mas, em troca exigimos uma reestruturação da dívida”.

JE: Se passarmos para o terreno das soluções, creio que a melhor saída para a Grécia seria não pagar a dívida por cinco anos, tempo que seria necessário para preparar algumas reformas estruturais, como a desregulamentação de parte do mercado de trabalho.

YV: Eu prefiro falar de reestruturação da dívida ao invés de suspensão. Isso é algo que os bancos fazem o dia todo. Historicamente, o capitalismo não teria experimentado um crescimento tão rápido, se não houvesse as sociedades de responsabilidade limitada. Se a sua empresa vai à falência, você paga o que puder à parte de seus próprios recursos, mas os seus filhos ainda têm um teto sobre suas cabeças.

JE: Eu tenho um amigo chinês, que agora é um renomado professor em seu país, e escreveu uma dissertação para a Universidade de Chicago. Nela ele explica que o capitalismo à semelhança do socialismo é fundado sobre restrições orçamentais suaves, a primeira dentre elas seria o princípio da falência …

YV: Tome as duas versões de Fausto, a de Marlowe e a de Goethe. Qual seria a diferença entre os dois? Em Goethe, a dívida de Fausto [a Mefistófeles] pôde ser cancelada. O que mudou entre eles? Estava presente o protestantismo, que fez o capitalismo e tornou o cancelamento das dívidas possíveis. Mesmo que os alemães não gostem de ser lembrados disso, seu milagre econômico nunca teria ocorrido se em 1953 um ‘ditador’ benevolente chamado Estados Unidos não tivesse extinguido a metade de sua dívida! Os norte-americanos estavam apenas sendo gentis? Não, eles entenderam que para que o seu projeto para o pós-guerra funcionasse deveria haver um pilar da indústria no centro da Europa.

JE: E seria suficiente apenas renegociar a dívida?

YV: Não, nós precisamos de duas coisas: o perdão das dívidas que não podemos pagar e encontrar uma maneira de atrair investimentos, como Roosevelt fez com o New Deal. Eu pessoalmente fiz um apelo oficial para a execução de um plano deste tipo a nível europeu, que poderia ser chamado de “plano Merkel”.

JE: Alguns pensam que seria necessário ir mais longe e avaliar a Grécia deixando a zona do euro. O efeito de uma saída Grega (“Grexit”), porém, é totalmente incerto. Então a questão é: como você decide em uma situação de incerteza? Eu acho que eu sou incapaz de responder. De todo modo, essa é uma questão que tem de ser enfrentada.

YV: Meus interlocutores me dizem: a Europa fez sua introspecção, o problema grego foi circunscrito e por isso vamos evitar o contágio; podemos até imaginá-la deixando o euro, sem que isso afete o próprio sistema. Minha resposta vai em duas direções: em primeiro lugar, que isso significa que o propósito do pacote de salvação era – de fato – salvar os bancos franceses e alemães, e não a Grécia. Agora que eles receberam socorro, já podem nos expulsar do sistema. Nesse caso a saída grega é uma possibilidade que ainda está longe de ser determinada. Como disse Hegel, as leis da indeterminação são elas próprias indeterminadas. Qualquer um que afirme saber o que aconteceria se um dia nós formos empurrados da beira do penhasco está falando bobagem, e trabalhando contra a Europa.

JE: O que é difícil, politicamente, é que a solução não parece ter sido uma escolha inevitável, mas algo que foi escolhido. A Europa tende a considerar que tem o direito de exercer uma ditadura benevolente sobre a Grécia.

YV: Isso seria bom se fosse verdadeiramente benevolente. O problema é que o remédio austeridade não é terapêutico, mas tóxico. Além da lição econômica, há uma lição política a tirar desta falha. A partir do instante em que a ditadura emerge – seja ela a ditadura da Troika ou a ditadura do proletariado – vocês se encontram em uma situação na qual o (ditatorial) significa afetar o (eventualmente benéfico) fim que vocês estão perseguindo.

JE: Vamos voltar a estas terapias benéficas. Alguns objetam sobre a chamada solução corte de cabelo (‘haircut’) – que propõe enxugar 50 por cento da dívida grega – que embora seja um movimento eficaz, por outro lado se opõem a ela por conta do “risco moral” que implicaria. Ao assumir a responsabilidade pelo dano que alguém ou alguma instituição causou, você acaba por incentivar as pessoas em geral a se comportar da mesma maneira arriscada, dada a percepção que estariam cobertas em seus erros. Seria o caso de um motorista sendo encorajado a assumir riscos, visto que o seu seguro cobriria qualquer dano que ele pudesse causar. Neste caso, se a Grécia fosse beneficiada de uma anulação da dívida, isso seria incitar outros estados a não equilibrar suas contas de maneira virtuosa. Dito isso, eu acho que é necessário correr este risco.

YV: A questão não se trata de dar ao estado grego um acordo que seria recusado a qualquer país, mas de propor uma solução estrutural que seria benéfica para todos. Em 1993, o presidente da Comissão Européia na época, Jacques Delors, estava consciente da dificuldade de uma união monetária sem uma união política. Ele elaborou um documento propondo a criação de “Títulos da Dívida da União Europeia”. Um dos meus amigos estava presente quando Delors apresentou esta proposta ao Mitterrand. Após ouvi-lo Mitterrand lhe disse: “Jacques, estou de acordo com a sua análise e a necessidade de seu remédio, mas Helmut [Kohl] e eu não temos autoridade política suficiente para ir além da união monetária. Mas quando, em dez ou vinte anos, existir uma crise muito profunda, o sucesso da nossa empresa vai depender do seu remédio – ou então o conjunto da empresa europeia entrará em colapso”. E aqui estamos nós.

JE: Há um outro ator que ainda não mencionei: o povo grego. Nesse momento, o governo grego enfrenta um dilema. A questão é se há alguma gradação possível de concessões que seja suficientemente elevada para satisfazer a União Europeia e baixa o suficiente para satisfazer o eleitorado grego. Se isso não for possível, o resultado lógico seria novas eleições e, talvez, a vitória da extrema direita. A única esperança é que não pode haver uma abertura para reformas que seja capaz de satisfazer a essas duas restrições.

YV: Nós não estamos interessados em fazer acordos com os nossos parceiros europeus apenas por uma questão de aumentar nossas chances de reeleição. Nosso limite é claro: queremos o acordo, caso houver, para satisfazer três critérios. Em primeiro lugar, parar o ciclo de deflação -, dito de outra maneira, parar de colocar mais pessoas nas ruas. Em seguida, restaurar nossa dignidade – isto é, cumprir nossos projetos de reforma, sem que sejamos invadidos por um exército de tecnocratas. E, finalmente, pôr fim a “cleptocracia” que domina a Grécia. Nós podemos fazer grandes concessões, mas não a ponto de renunciar a estas três necessidades.

JE: Assim como a “cleptocracia” existe uma estrutura corporativista em numerosas profissões gregas, desde farmacêuticos até advogados e motoristas de táxi. Você não deveria estar lutando contra esse corporativismo?

YV: Ao invés de direcionar ações que atingiriam as pessoas comuns, eu preferiria direcioná-las para os cartéis do petróleo ou os canais de TV que não pagam um centavo para o estado grego pela utilização das frequências nacionais. Se você morasse aqui, Jon, você não apontaria o dedo para os farmacêuticos ou os motoristas de táxi.

JE: E sobre o clichê de que a Grécia é incapaz de recolher seus impostos? Você acha necessário que haja reformas fiscais ou políticas?

YV: Absolutamente. Temos um vasto programa de reformas e realmente gostaríamos de ter a oportunidade de implementá-lo. E pode acreditar nisso, por dois meses eu estive trabalhando nele dia e noite.

JE: Para concluir, eu gostaria de dizer-lhe que foi um prazer falar com você, ministro das Finanças: Eu temia que pudesse me sentir  pisando em ovos, mas foi um verdadeiro prazer. Ao longo de toda a minha carreira, eu tive a impressão de que era um semi-profissional no que eu alcancei. E esta noite eu estou falando com o ministro das Finanças grego, um profissional … mesmo que mais uma vez, seja enquanto um semi-profissional. Sem dúvida esse é o meu destino…

YV: Exceto pelo fato de que você esta falando com alguém que lhe tem em ainda maior estima do que você faz dele. No prefácio de um de seus livros você descreveu que está de pé bem “no cruzamento de uma série de falhas geológicas”. É uma fórmula que eu usei muitas vezes nos meus discursos.

JE: Deixo-a com satisfação para seu uso: é perfeitamente adequada à sua situação.

A teoria dos jogos segundo Jon Elster*

A teoria dos jogos é uma maneira de modelar a interação social, concebida para entender como, em uma dada situação, a ação ótima de um agente depende de suas expectativas em relação ao comportamento de outra pessoa. Há quatro cenários principais:

  1. Batalha dos sexos

Um homem e uma mulher desejam sair juntos, mas eles esqueceram qual atividade eles fariam, e eles não podem se comunicar. O homem prefere futebol, e a mulher prefere a ópera. O que eles devem fazer? Ou cada um escolhe sua própria atividade preferida e eles não vão estar juntos (0/0) ou um escolhe a atividade do outro, de modo que eles estarão juntos (1/2 ou 2/1), mas sem maximizar seu / suas próprias preferências.

  1. O dilema do prisioneiro

Dois prisioneiros que não podem se comunicar tem que escolher entre três opções: A denuncia B (nesse caso A é liberado enquanto B recebe uma pena de dez anos); tanto A quanto B denunciam um ao outro (e cada um recebe cinco anos de pena); A e B se recusam a denunciar um ao outro (e cada um recebe cinco meses de pena). Então, enquanto eles têm interesse em cooperar, cada um tenderá a trair o outro por medo de ser traído. Este é o único jogo onde há apenas um tipo de equilíbrio, o da deserção dupla (1/1).

  1. O jogo do frango

Dois carros estão dirigindo um em direção ao outro em uma estrada de pista única. A pessoa que se desvia evita o acidente, mas ganha menos do que aquele que assumiu o risco e é salvo pelo outro (3/1 e 1/3).

  1. O jogo do seguro

Dois estados estão pensando em vacinar seus cidadãos. Se um país resolve não fazê-lo, então é melhor que o outro também resolva da mesma maneira, dados os custos da vacinação. Desse modo seriam os dois estados encorajados a vacinar suas populações?

Representações de modelo normal

Elas representam os ganhos que cada um faz em função de seus / suas escolhas e as escolhas feitas por outros. Quanto maior for o seu número, mais preferível se torna a situação deste agente. Um par equilibrado (os números em azul) é constituído por pares de escolhas ótimas. Um grande ensinamento da teoria dos jogos é que o resultado ideal para duas pessoas (e, portanto, para a coletividade) muitas vezes não coincide com o que é racional para um único indivíduo. Outra é que, em um jogo com muitos saldos diferentes, a escolha racional dos agentes pode ser indeterminada.

C: cooperação / D: deserção

Em cada caso, o primeiro número é o ganho para o agente que escolheu verticalmente, e o segundo o ganho para quem escolheu horizontalmente. Assim, no dilema do prisioneiro é do interesse de cada agente escolher D, independente do quer que o outro fizer. No jogo do seguro, é do interesse de cada um deles que a escolha seja C. No jogo do frango está segundo o interesse de cada um escolher C, se e somente se o outro não o fizer. Na batalha dos sexos pode haver várias estratégias de cooperação.

http://www.versobooks.com/blogs/2143-varoufakis-and-elster-place-your-bets

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