Redimir ou reformar a política brasileira?

[Faustino Rodrigues]

A surpresa é o elemento que se mostra mais forte nas eleições presidenciais de 2014. Até o dia 13 de agosto estava tudo em relativa normalidade diante da conhecida polarização do debate político recente com o PT de um lado e, do outro, o PSDB. Não havia novidade, sinalizando-se para um marasmo eleitoral. O terceiro candidato com mais chances de chegar ao Palácio da Alvorada, Eduardo Campos, do PSB, não representava, inicialmente, uma ameaça tão grande. Contudo, o acaso, o imprevisível, o inimaginável, aconteceu: a morte acidental de Campos reconfigura todo o debate e modifica o panorama eleitoral. Mas, por mais que o acaso realmente tenha se mostrado presente, impondo a surpresa e deixando pasma grande parte dos analistas, um conjunto de fatores converge para apontar para compreensão melhor do “fenômeno Marina Silva”.

Igor Suzano, em texto anterior, aqui mesmo na Revista Pittacos (Lula, Dilma, Marina e a vingança de Weber), apropria-se das reflexões de Weber para fazer uma brilhante análise das circunstâncias, enfatizando, fundamentalmente, a questão do carisma de Marina Silva diante de um quadro de previsibilidade a sinalizar para o burocratismo da política brasileira. A ex-ministra do governo Lula seria o elemento carismático capaz de conduzir a política no Brasil, expondo-se não como a grande novidade, mas como aquilo que a própria política moderna, no entendimento do estudioso alemão, tem de mais característico diante da pujante racionalidade a pautar a modernidade. Realmente, Marina é o carisma em um desencantado mundo, o mundo da política brasileira.

Para compreender o “fenômeno Marina” nestas eleições, tem-se de voltar a 2013, especificamente às Jornadas de Junho. Tão imprevisíveis como o acidente de Eduardo Campos, a movimentação nas ruas brasileiras significaram, em linhas gerais, a rejeição à política no Brasil tal como era apresentada, materializada, fundamentalmente, pela pauta da corrupção conforme divulgada pela grande, e tacanha, mídia. A imagem da política brasileira como algo negativo se materializava na incapacidade de conhecidos e renomados líderes políticos conseguirem assimilar as inúmeras e difusas demandas sociais, canalizando-as para a esfera propriamente política. Assim sendo, era como se a população se manifestasse sem o intelectual orgânico gramsciano. O simples fato de tudo isso ter se realizado nas ruas, local simbolicamente ocupado pela esquerda, já demonstra como não havia lugar para tais lideranças diretamente identificadas com a política.

Enfim, o ponto comum das manifestações de junho era a rejeição concreta da política tal como era conhecida pelo povo, pela sociedade brasileira. Isto ainda se torna mais claro quando se pensa no fato de que a partidarização era fortemente rechaçada diante de argumentos de que o povo é quem deveria se mostrar presente. Esse rechaço não estava endereçado apenas para um partido específico, mas, visivelmente, para legendas de modo geral, pois todas eram vistas como representantes de um sistema político tido como falido. O PT, o partido de massas de Maurice Duverger, expoente da esquerda vitoriosa, até então, no poder há 11 anos, teria se acomodado ao jogo político, não conseguindo realizar profundas transformações no sistema político – ainda que, em minha opinião, as transformações políticas tenham sido substanciais, mas isso é assunto para outra conversa.

A população que estava nas ruas acompanhava pela TV e jornais o julgamento do Mensalão que, de modo geral, representava a acomodação do PT ao jogo político, em busca da maioria parlamentar – fazendo isso da forma mais contestável. Ou seja, as esperanças de transformação política depositadas no PT foram por água abaixo diante do “maior escândalo de corrupção do Brasil” – para a grande mídia, o Impeachment de Collor, os anões do orçamento, o escândalo dos precatórios etc,  faziam parte de um passado longínquo. Condenar os envolvidos no Mensalão era condenar uma forma antiga de política em que o PT teria se acomodado. Lula, o líder carismático, no sentido mais weberiano, retomado por Igor Suzanno, conforme já mencionado, não estava mais diretamente presente no cenário político para desfazer a ideia de velha e má política. Pelo contrário, deposita-se toda a esperança em uma figura inicialmente nada política, como Joaquim Barbosa. Marina, de certa forma, acaba dando continuidade a tudo isso ao representar o mesmo no atual quadro eleitoral.

Marina Silva, portanto, materializa toda a ideia de se desfazer da política corrompida evidente até recentemente, e evocada de forma mais contundente pelo julgamento do Mensalão. Como os principais líderes políticos, essencialmente os líderes partidários, não conseguiram conquistar “corações e mentes”, liderando e canalizando as demandas das massas durante as Manifestações de Junho, reforça-se a ideia da existência de uma “política velha” que, por sua vez, deve ser superada – eis a tônica do discurso eleitoral de Marina. A ideia, portanto, é suplantar essa fase, ultrapassar essa política. Marina, aquela pessoa que rompeu com todos os partidos políticos e tentou, sem sucesso – porque a máquina política seria cruel – criar algo novo, como a Rede, é justamente aquela que poderia incorporar todas as desejadas modificações e, consequentemente, a reconquista da política para o povo.

Meu objetivo aqui é tentar perceber como Marina Silva encaixa-se de forma exata no cenário político atual. Ela, de certa maneira, representa os anseios pela transformação política vislumbrados nas Manifestações de Junho sem, contudo, canalizar as demandas sociais e conseguir representar uma liderança efetivamente política, passando muito longe de conseguir “transformar em política” a expressão popular das Jornadas de Junho. Assim, da maneira como se apresenta até o momento, acredito em sua incapacidade de ampliação do debate propriamente político, prescrevendo-o em espectro distinto, amplo, do sentimento, por exemplo, logrando verdadeiro sucesso em seus discursos.

Ver toda a coisa por este ângulo ajuda a compreender a sua recusa em se posicionar à direita ou esquerda, fomentando os memes das redes sociais no ambiente virtual. Por conseguinte, Marina desloca o discurso político nestas eleições, posicionando-o em um lugar nada político, mais propriamente, salvador. À parte suas crenças, admite a tônica de salvar a sociedade brasileira da política da direita, ou da esquerda. Por sua vez, algo de fora, superior, seria capaz de agir sobre os dois extremos, extraindo tudo de bom que se pode ter e, então, purificando-os de maneira a criar uma “nova política” – não por acaso trata o termo com tamanha amplitude e, na maioria das vezes, com teor vago.

Contudo, política é algo absurdamente pragmático. Partindo do princípio de uma vitória sua, terá de dialogar com a “velha política”, aquela mesma política contestada por ela – afinal, os índices de reeleição no Legislativo sempre têm se mostrado significativos. Não bastam boas intenções: deve-se deparar com a máquina. A (necessária) transformação da política brasileira deve ser feita por dentro. O próprio enriquecimento dos mecanismos de representação – que poderiam ter sido efetivos nas Jornadas de Junho – principia com uma reforma política conduzida pelas lideranças políticas ali presentes. Não acredito ser possível a condução da política simplesmente a partir da montagem de um gabinete com pessoas bem intencionadas, pois os embates produzidos no interior do Congresso, principalmente no que diz respeito às iniciativas do Executivo para lá encaminhadas, obrigatoriamente ocorrerão. E, pergunto: quem ganha? A intenção? Ou o pragmatismo?

Marina Silva, da maneira como arquiteta sua campanha, tenta se mostrar como quem está para redimir a política brasileira quando, na verdade, necessita-se de uma reforma. Como podem ver, não estou entusiasmado com a possível vitória de Marina Silva – não é nada pessoal. Da mesma forma, não sei até que ponto o sistema político-democrático brasileiro é suficientemente maduro para absorver de forma proveitosa a possibilidade desta vitória. O que percebo, todavia, é a existência de um conjunto de fatores a influenciarem diretamente na construção de sua campanha – fatores estes a corresponderem ao cenário atual do Brasil, como o cansaço quanto à forma como a própria política brasileira tem sido conduzida e a classificação de insuficiente às transformações ocorridas – esta, visualizada, principalmente, através das Jornadas de Junho. A questão é justamente como se deve retomar o fio da democracia brasileira de maneira que as experiências recentes sejam proveitosas para a construção de seu sistema político – algo que, de modo geral, as lideranças políticas não fizeram no ano anterior. Esta seria mais uma boa oportunidade de aprendizado.

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