Marina Silva e a Parte do Leão

[Rodrigo Mudesto]

É necessário que a reviravolta em nosso momento eleitoral, provocada pela triste fatalidade de seis vidas, supere a tragedia, criando um momento para critica e revisão de nossas opções políticas.  Em todas as culturas, deuses oferecem bônus pelas piras sacrificiais de grandes heróis. Devemos pedir que nossa compensação venha na forma de instituições políticas melhores. É o que condiz com a vida profissional de Eduardo Campos. Mas temo que sejamos ludibriados: existem muitos deuses brincalhões.

Corremos o risco de incorrer em conhecidos tropeços, se a substituta de Eduardo, Marina Silva, caso eleita, não for capaz de remediar a falta de consistência na coalizão que a comporta. Tem muita gente que parece inocentemente achar isso uma vantagem, incluindo a própria. Repetem uma balela sobre o fim do bipartidarismos (sic) em que viveríamos. Coisa de quem talvez não lembre ou desconheça os resultados dos governos de Collor, de Jânio ou de Jango, outros presidentes que também propalavam ir além do monótono yin-yang partidário. Para quem estuda nossa violenta história politica, é dever profissional contra-argumentar.

O modelo de coalizão com clareza de posicionamento entre oposição e situação é uma virtude e não um demérito. Foi salutar nos últimos anos que houvesse equilíbrio de poder entre posições divergentes, o que possibilitou que o governo fosse fiscalizado e confrontado, como “nunca antes em nossa História”. Não há o porquê dessa saudade do “governo” como entidade para si, apartado do debate com a sociedade civil, como agrada aos saudosos da guerra fria de ambas as mãos. Neca Setúbal sinalizou que Marina Silva pretende governar por plebiscito [‪#‎Deusnosproteja ‪#‎deseusfieis]. Mas não vou por aí, porque ainda é um tema meramente hipotético.

Meu ponto é outro. Ao analisar os últimos vinte e poucos anos do “governo federal” no Brasil, o mais longo interregno democrático de nossa história republicana, percebesse que nosso multipartidarismo se resolveu por uma divisão de atribuições e interesses entre as correntes politicas que compõem a coalizão no poder, e secundariamente entre as correntes de oposição. O que a imprensa simplifica chamando de toma-lá-dá-cá, ou de loteamento do poder. Mas quando não se pensa com o intestino que pode estar afetado pela turbulência no helicóptero (William Bonner adora fotos de passeio de helicóptero), percebe-se que não é simples.

A desigualdade/pluralidade social, regional e cultural brasileira só logrou estabilizar um regime democrático, quando rompendo com o quadro faoriano (que diagnosticava uma tensão entre periferia e centro na politica brasileira) se permitiu que diversas forças politicas assumissem responsabilidades concomitantemente. Essa é de fato a grande continuidade entre tucanos e lulistas, e o verdadeiro mérito dos primeiros, se não do próprio Fernando Henrique. Mas o que é isso na pratica?

Significa que a instância de poder que a imprensa denomina “Planalto” resguarda para si um núcleo de afazeres, delegando ou abrindo espaço para que diferentes forças políticas ou institucionais assumissem outras tarefas da republica. Nesse contexto lideranças, principalmente dos grandes partidos “municipalistas” PFL, PMDB e PSB, praticamente de todo o espectro político, tomaram parte efetiva em processos nacionais, mesmo não ocupando o palácio, rompendo com o paroquialismo da política tradicional brasileira. O papel relevante que o STF, a PF o MP e outras autarquias também é consequência desse movimento, que se fundamenta na constituição de 88, mas é tributário da modernização política que tucanos e o PT dos anos dois mil vêm representando. Claro que ocorreram erros e abusos, mas nossa democracia se tornou mais robusta e menos parecida com uma rede de mandatários locais presos ao próprio umbigo. Eduardo Campos e Marina Silva são exemplos de políticos que se beneficiaram desse quadro, ganhando projeção nacional. Mas não é o lugar de me aprofundar nisso.

Importa aqui o que o grupo que lidera a coalizão escolhe privilegiar.

Existem pequenas diferenças entre as atribuições selecionadas por tucanos e lulistas, mas em ambos os casos, o núcleo de interesse, que não é compartilhado com outras forças da coalizão ou da sociedade, ou mesmo com legislativo e judiciário, sempre inclui a “condução da economia”. Minha critica menos intestinal e mais benevolente ao governo do PSDB, inclusive, é de que pareciam se contentar apenas com isso, sendo pouco interessados em segurança ou infraestrutura, e empurrando para a iniciativa privada áreas como saúde e educação. Sua passagem pelo governo de Minas faz supor que Aécio tem mais interesse em infraestrutura do que a vertente paulista de seu partido. Mas seu pouco interesse por saúde e educação (quando não entendidas como mero construir e comprar), principalmente por seus profissionais, é notório entre os mineiros.

Nas hostes opostas, existem diferenças entre o que Dilma e Lula separaram para sua órbita mais próxima de poder, caracterizada principalmente pela diferença de perfil pessoal e mais profundamente pelo posicionamento de um e outro dentro do trabalhismo. Infelizmente, uma análise séria precisa ficar pra outra ocasião, mas ambos, mesmo mantendo uma área de interesse principal mais ampla que a tucana, fragmentaram as responsabilidades dentro do governo. A menor habilidade da presidente Dilma (comparada com Lula) em apascentar essas lideranças anãs, é a principal causa de sua menor aprovação (sempre em relação a Lula) entre as lideranças politicas, o que se propagou pela sociedade. Por isso nos últimos meses Dilma tem dado sinais vacilantes que pretende se ocupar da reforma politica, seja diretamente, por meio de reforma constitucional, seja indiretamente, por meio dos conselhos populares. Mas são sinais titubeantes e vagos, mas por mim festejados, porque é nesse campo sua maior possibilidade de ombrear com as realizações dos dois antecessores, e fazer avançar o sistema político brasileiro.

Voltando a Marina.

Marina defende um “novo” retorico, sem precisar o conteúdo, muito de sua popularidade vem disso. Se vier a assumir a presidência  sendo “nova” nessa amplitude, ela cai e espatifa. Tão certo quanto a abobora que nasceu no alto do limoeiro. Mas esse cenário é remoto. Ela assumindo, munida com muitas coisas velhas irá dar conteúdo a esse novo. Uma das coisas que não irá mudar, porque não porque não tem opção, será o compartilhamento de responsabilidades. Que não só é a pedra de toque da atual fase da democracia brasileira, mas beira a ser uma exigência da complexidade contemporânea, uma das tais tendencias dominantes. O problema é que quando se escuta as propostas de Marina, da boca da própria Marina, fica claro que é a Condução da Economia, exatamente o centro do interesse dos anteriores e atual governo, a área que ela pretende delegar. Marina vem opondo desde 2013, formular políticas (como sinônimo de sonhar) versus gerenciar, o que seria uma marca comum entre Aécio e Dilma. Fazendo supor que prefere atuar como uma proponente de pautas pós-materialistas, do que se interessar pelo caixa publico, pelo desenvolvimento econômico ou pelo organização do trabalho.  Chamem-me de reacionário, mas não vou votar em alguém pra defender os frascos e os comprimidos da floresta, enquanto o mercado gerencia a si mesmo, ao salario-minimo e aos meus impostos [i].

O provável porta-voz e garoto propaganda dos desígnios do mercado em um governo Marina Silva, o economista midiático Eduardo Giannetti, recentemente disse que Marina gostaria de governar com Fernando Henrique e com Lula. Se desconsiderarmos a provocação por trás dessa afirmação, podemos nos ater ao argumento. Segundo ele Fernando Henrique representaria a estabilidade econômica e Lula à “inclusão social”. Parece correto. Mas não é.

O legado do governo de Fernando Henrique não é a estabilidade econômica, porque tal coisa foi fruto de fatores bem mais complexos. Dos quais o mais importante, e aí sim o grande legado, é a estabilidade política, a qual o discurso dos inocentes sonháticos propõem por-a-perder. No caso de Lula, a conquista não é uma assistencialista “inclusão social”, termo de que até os generais da ditadura se serviram, e que agrada economistas liberais. O que Lula representa é “distribuição de renda”, isso sim um profundo divisor de águas em nossa história, e um processo que declarados porta-vozes do grande capital sem fronteiras como Armínio Fraga, o próprio Giannetti e Andre Lara Resende já afirmaram que pretendem estancar e reverter. Não é mero sintoma que Marina e Neca Setúbal (não são doces os apelidos de socialites?) tenham se apressado a desmentir a impressa acerca do possível apoio da chapa aos conselhos populares, preferem governar da sacada do edifício  acenando para a multidão.

Basta lembrar-se da fabula do leão[ii] para perceber a falacia por trás de um discurso que pretende incorporar “os melhores”. O que está por trás disso é uma proposta de governar sem oposição, o que é em si inaceitável, e encobre algo mais grave, muito bem resumido pelo jornalista Paulo Moreira Leite ao falar sobre o universo de Marina Silva: “não tem referências claras, cresce nas emoções e na confusão política. Por isso se fala em governar com FHC e Lula. Isso sempre acontece quando o conservadorismo disputa uma eleição na qual não pode mostrar a própria face.”

Nota-se que nesta critica não foquei à orientação religiosa de Marina, que considero válida, nem ao fato de que crescimento sustentável se tornou um conceito caduco[iii] no mundo que ainda vive a crise internacional de 2008, muito menos repeti contra ela todos os preconceitos de classe que vários de seus apoiadores aplicam ao Lula. Ative-me basicamente a suas propostas e de seus conselheiros mais próximos. Sou cético sobre uma vitória de Marina[iv], mas caso ocorra, espero que ela não represente todo o retrocesso que leio em seu discurso.

______

[i] Mujica é um exemplo de uma governante que escolheu privilegiar outros temas e abdicar da condução econômica, e vem tendo bons resultados mesmo que a concentração dos meios de produção no Uruguai não esteja mais nas mãos de nacionais. O que pode animar os sonhaticos de Marina. Mas me pergunto se o peixinho Uruguai teria escolha, se poderia ter uma politica econômica altiva, acho que não. Acho que dado a especificidade, ser um quintal alheio bem cuidado, foi uma boa opção. Por outro lado pode a sexta economia do mundo, com todo um quadro de desigualdade e carência ainda por corrigir, abrir mão de administrar seus recursos? Queremos tomar o caminho de México, Grécia, Ucrânia e tantos outros?

[ii] Há muito tempo atrás, o Leão, a Raposa, o Chacal, e o Lobo, de comum acordo, combinaram em caçar juntos. Ficou então combinado que dividiriam entre eles tudo aquilo que conseguissem encontrar. Mas, sem que ninguém o pedisse, ou o elegesse como tal, o Leão logo tomou o lugar de líder e decidiu organizar como deveria ser o banquete, e evidentemente, determinar como seriam divididas as partes entre os presentes. Pondo-se, por conta própria, na posição de representante de todos, supostamente demonstrando total imparcialidade, mas agindo como se todos fossem seus vassalos, começou a contar para os convidados. “Um”, ele disse, enquanto para cada um dos presentes mostrava uma de suas garras, “que sou eu mesmo, o Leão. Dois, esta é para o Lobo; três, é para o Chacal, e finalmente a Raposa fica em quarto.” Então, cuidadosamente dividiu a presa em quatro partes iguais. “Eu sou o Rei Leão,” ele disse, quando terminou, “Assim, evidentemente, Eu tenho direito a primeira parte. A outra também me pertence porque sou o mais forte, e a outra também porque sou o mais valente.” Agora Ele olha fixamente para os outros com cara de poucos amigos. Então rosna exibindo as garras de forma ameaçadora, e diz: “Caso algum de vocês não concorde com a minha divisão, esta é a hora de se manifestar!”

[iii] Desenvolvimento sustentável foi uma ideia maravilhosa até 2008 porque ela se beneficiava de um mundo que experimentava crescimento, abundancia na Europa e nos EEUU permitia que escolhas fossem feitas com base em ótimos que combinavam desenvolvimentos econômicos e ecológicos. Mas essa postura nao sobreviveu a crise econômica e a recessão. O que não significa que as preocupações ecológicas foram abandonadas. Mas hoje é universal a compreensão de que em cada caso, os ganhos econômicos e ecológicos precisam ser confrontados e escolhas cruéis ora de um lado e ora do outro precisam ser feitas. Marina é reminiscente de um movimento ecológico por demais otimista que finge não compreender que não há mais aliados possíveis no grande capital. Ecologia e economia voltaram a ser pautas concorrentes, sem maniqueísmo, apenas a velha questão: quanto gastar em canhões e quanto em manteiga.

[iv] Aproveito para indicar a leitura da entrevista de Renato Meirelles do DataPopular para o ElPaís “A imagem simbólica da Marina é maior do que ela como candidata” , que apresenta muito bem os nos da revirado que reviveu a candidatura de Marina, sobre o ponto de vista da disputa eleitoral

[N.A] Postei um rascunho preliminar deste texto em meu perfil no Facebook. Quem for até lá perceberá que a poucos dias decidi explicitar o meu voto. Aproveito para eximir meus parceiros editores da Revista Pittacos, agradecendo principalmente por discordarem de mim.

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Um comentário sobre “Marina Silva e a Parte do Leão

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