Brasil Funâmbulo

[Pedro Duarte]

Como explicar o inexplicável? Eis a questão do goleiro brasileiro Julio César, após a goleada de 7×1 dos alemães. Nada na derrota em si surpreende, especialmente depois da contusão do nosso único craque, Neymar, e da suspensão do melhor beque, o capitão Thiago Silva. O que não sai da cabeça é o número: 7. Conforme olhávamos para baixo, após cada gol, já vinha outro, em uma avalanche que passou do desespero ao desconsolo em 6 minutos. O inexplicável foi a falta de jogo, pois já aos 30 minutos estava 5×0. O tombo foi drástico, retumbante.

Retrospectivamente, a campanha do Brasil na Copa assemelha-se à caminhada de um funâmbulo. Fomos nos equilibrando em cima de uma fina corda por 5 partidas. Tudo esteve sempre por um triz. E a seleção não convencia aqueles que, ainda assim, por ela torciam. Passo a passo, caminhávamos adiante, sem perceber – ou sem querer perceber – que o fazíamos sem base sólida sob os pés. Dessa altura heróica, exige-se atenção ímpar. Nós não a tivemos, nem na preparação (David Luiz, ao sair de campo, deixou escapar que os alemães se prepararam melhor), nem na performance nos jogos (vide o bote errado e a bola perdida de Fernandinho na goleada).

Fomos subindo tortos, pendendo para os lados, até desabar. O tombo foi e não foi súbito. Foi pois o funâmbulo nunca cai aos poucos, mas de repente. É catastrófico. Não foi pois só assim pode cair o funâmbulo, já que anda sobre uma corda, não sobre um fundamento. Nisso, afirmar que houve pane ou que deu branco nos 6 minutos nos quais o time tomou 4 gols é uma constatação, não uma explicação. O problema é: por que deu pane? Não foi coisa casual. Foi a pior derrota da história da seleção.

Nossa derrota foi extraordinária, perder de 7 é um escândalo. Não pela dor no coração. É fácil achar piores: 1982 e 1986 nos fizeram sofrer mais. Embora tais Copas fossem fora do país, os times eram talentosos, os jogadores tinham história e os jogos eliminatórios foram emocionantes. Já agora, com poucos garotos calejados no futebol, nem chegamos a disputar a partida perdida. Foi mais um evento histórico do que uma partida esportiva o que aconteceu. Foi mais chocante do que doloroso.

O técnico teve seus erros: a escalação de Bernard no lugar de Neymar, quando o maior problema era falta de meio-campo e o adversário tinha o melhor meio-campo da Copa; a cegueira para o degringolar do time em relação à Copa das Confederações; entre outros. Mas ele não é o único culpado. Felipão foi contratado faltando só 2 anos para a Copa. Deu um jeito de fazer o time jogar, mas não foi suficiente.

O curto tempo para preparação é flagrante, ainda mais diante da comparação com a Alemanha, que a faz desde 2003. O Brasil, depois da Copa de 2010, parecia ir nesse rumo, sob a batuta de Mano Menezes. Só que a combinação de maus resultados com mudança política na CBF e a iminência da Copa em casa cortou a promessa. Se o Mundial fosse disputado em outro país, talvez se tolerasse o trabalho gradual, a longo prazo. No Brasil, não. Ganhar era obrigação. E a CBF demitiu Mano.

Chamou-se, para seu lugar, a dupla Felipão e Parreira, os últimos dois técnicos campeões pelo Brasil. Como observou José Miguel Wisnik, o pensamento mágico do tempo cíclico dominava: o que já ocorreu uma vez deveria repetir-se (ignorava-se que jamais um técnico ganhou duas Copas). Só que o tempo linear ficou curto, como curto foi o repertório tático de Felipão diante dos desafios do futebol atual. O 7×1 espelhou, embora com exagero, a distância que separa a seleção alemã da nossa.

O futebol brasileiro, desde 1994, foi campeão duas vezes, vice uma, chegou às quartas-de-final duas vezes e às semi agora. Não é pouco. Mas 7×1 também não (ecoa aí, para piorar, o 4×0 que o Santos levou do Barcelona). O futebol brasileiro está em crise. Ela talvez não o fosse para outra escola nacional, com menos tradição. É para a nossa. Não sei se vivemos numa entre-safra de talentos – pelos precoces declínios de Adriano, Ronaldinho Gaúcho e Kaká – ou numa decadência. Certo é que temos hoje uma oferta de qualidade aquém da que nos acostumamos, de jogadores e de técnicos, agravada pela ausência de identidade do estilo de jogo (a ligação direta da zaga para o ataque virou a marca indefectível não só da seleção, mas do futebol brasileiro).

Esta seleção foi das piores que tivemos, comparável talvez só à de 1990 – que caiu nas oitavas-de-final, mas contra a então campeã Argentina, com Maradona, por 1×0. Não houve trauma. Nada de inexplicável. Hoje, a angústia é se reconciliar com o sentido. 7×1 é mais do que triste. Não faz sentido, foge à normalidade. É terrível, pois ameaça a sensação de estabilidade à qual nos agarramos até mesmo nas derrotas, seja na seleção, no Brasil ou na vida.

É cedo ainda para finalizar a autópsia no corpo recém falecido deste time. Mas ela deverá ser feita. Explicar o inexplicável é o que importa, pois explicar o explicável é a redundância em que se comprazem os tolos. Não basta dizer: vida que segue. Essa pressa da volta à rotina perpetua o auto-engano, mantém-nos funâmbulos sonâmbulos: a um passo do abismo sonhando que caminhamos sobre terra firme. Daí a necessidade de pensar os 7×1. Como cantam os Los Hermanos, porque é “no não que se descobre de verdade o que te sobra além das coisas casuais”.

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