Lugar de Pobre é mesmo na Rodoviária

[Emma Toska]

Graças ao trabalho de uma equipe multidisciplinar liderada pela professora Rosa Marina Meyer da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Luiz Pedro Jutuca, reitor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), e Daniela T. Vargas também professora da PUC-Rio, foi descoberto nesse ultimo mês de fevereiro que pobres que não possuem glamour para andar (o termo técnico é viajar) de avião, estão deixando seus assentos nos ônibus e ocupando os aeroportos nacionais. Os achados foram publicados pela pesquisadora e então chefe da Coordenação Central de Cooperação Internacional da PUC (CCCI) Rosa Marina Meyer em seu perfil do Facebook no último dia 5 de fevereiro. O trabalho foi amplamente documentado pela professora, com a foto de um sem-estilo flagrado por ela no aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro, em plena luz do dia. Aparentemente, o sem-noção (sem-senso nas palavras de um dos membros da equipe) estava confortavelmente instalado no hall do aeroporto, trajando apenas bermuda e camiseta regatas –  além de ostentar alguns quilos a mais – pronto para se sentar ao lado de passageiros do voo e roçar  o braço peludo em algum companheiro de poltrona, de acordo com a hipótese da professora Daniela T. Vargas.  Para Luiz Pedro Jutuca, reitor da Unirio, trata-se provavelmente de um problema de glamour (com L) que, em suas próprias palavras, teria ido “pro espaço”.  A falta de bom senso teria levado os pobres a abandonarem seus assentos nos ônibus e, incentivados pela crise do glamour, migrarem para os aeroportos vizinhos, como o Santos Dumont. O que essa  tese nos sugere é que o perigo deles alcançarem o Galeão é grande e iminente.

Quanto ao pobre em questão, o sem-glamour flagrado pela câmera de Rosa Marina e batizado por ela de “Mr. Rodoviária”, descobriu-se tratar de um espécime que tinha não apenas cruzado o túnel na direção da Zona Sul, mas também  as fronteiras da remota Minas Gerais e, ao que tudo indica, até mesmo do Brasil, ocupando não apenas assentos em aviões mas até em navio. Capturado, mais tarde, pela imprensa o sem-glamour revelou que tinha andado por um cruzeiro internacional antes de ser descoberto por Rosa Marina matando tempo no hall do aeroporto. Novas investigações revelaram que se tratava, em verdade, de um advogado, o que chegou a levantar dúvidas sobre o rigor do conceito de “pobre” na tese em questão. Contudo, desde que milhares de pobres comandados pela líder da federação dos facebookeiros de plantão (FBPT), Dilma Bolada, assumiram que também viajaram, pretendiam ou até que achavam normal pobre se aboletar em de assentos de avião ou perambular acima do peso de bermuda por aeroporto, não resta duvida de que a descoberta dos intelectuais cariocas é realmente significativa.

Os achados, entretanto, são controversos e tem provocado muita revolta, evidentemente dos pobres, entre os seguidores de Dilma Bolada e outros viciados em Facebook. Mas esta não é a primeira vez que descobertas de homens da ciência são incompreendidos pela sociedade do seu tempo. Em um mesmo fatídico fevereiro de 1600, o teólogo, filósofo, escritor e herege Giordano Bruno foi condenado a ser queimado vivo em fogueira em praça publica e com a língua atravessada por um prego, simplesmente por afirmar, dentre outras coisas, que o universo era infinito. Felizmente já não se pune com esse rigor quem fala demais. Curioso é que se atentarmos para a definição que o dicionário Aurélio online traz para a palavra “infinito” – sem limites, sem fim ou superior a todo limite arbitrariamente fixado – não é difícil notar certa similaridade entre a tese de Bruno e as descobertas dos intelectuais cariocas acima mencionados. Sem dúvida, a obra, digo, o post, “Rodoviária ou Aeroporto?” de Rosa Marina Meyer também parece apontar para certa falta de limites dos pobres ao deixarem os ônibus para viajar de avião ou, do ponto de vista normativo, para a ausência de limites do espaço reservado aos pobres na cidade do Rio de janeiro ou, ainda, como aponta a professora Daniela T. Vargas, para o caso concreto dos pobres que cruzam os limites dos seus assentos e roçam seus pelos nos passageiros do avião. A conclusão que segue dessa impressionante tese é que o mundo evoluiu pouco nesses 414 anos, o que também demonstra que a marcha da civilização é realmente lenta, razão pela qual os pobres não tem que ter pressa de chegar aos aeroportos. Principalmente antes do glamour. Podemos observar ainda que a alusão ao “braço peludo do pobre” – no argumento da professora Daniela T. Vargas – remonta a tempos ainda mais remotos, não sendo impossível a hipótese de que os pobres ainda preservem vívidos traços e comportamentos dos primatas, o que, se comprovado, será uma revolução no campo da Genética e da Antropologia. Outra novidade trazida pelo formidável trabalho da equipe de Rosa Marina é a sugestão de que em países mais civilizados esse fenômeno possivelmente já se dê há muito mais tempo, ou seja, os pobres tem abandonado as rodoviárias e frequentado aeroportos sem que ninguém tenha se dado ao trabalho de identificá-los ou atentar para a crise de bom senso que isso representa. Em outras palavras, o glamour nesses países pode já ter ido pro espaço há muito tempo, sem essas sociedades se apercebessem. Em suma, o fato de que sejamos nós brasileiros a descobrir que lugar de pobre é realmente na rodoviária não é trivial. Trata-se de um feito que deve ser celebrado pelos scholars nacionais e coloca mais uma vez o Brasil à frente das inovações do nosso tempo.

Infelizmente, como o infeliz frade Bruno, Ms Meyer e sua equipe também foram amplamente incompreendidos pelo establishment, sendo que o reitor foi obrigado a se retratar publicamente, e a professora Rosa Marina foi perseguida e obrigada a abandonar o posto de chefe da Coordenação Central de Cooperação Internacional –  provavelmente por temor de que a tese leve o terror da descoberta de pobres em aeroportos a outros países.

Não se sabe, porem, qual foi o destino da Professora Daniela T. Vargas ( autora da interessante tese do braço cabeludo dos pobres) e outros membros da equipe, todos eles comentadores do post de Rosa Marina e já identificados por alguns Dilmaboladeiros como também professores universitários. Mas, comenta-se que todos tiveram seus perfis no Facebook rapidamente fechados, sendo que certo perfil que atende pelo nome do reitor Luiz Pedro Jutuca e exibe sua foto é altamente duvidoso de ser genuíno. Em todo caso, é o que restou ao publico, em sua maioria de pobres e sem-glamours, sedento de diversão à custa dos desavisados da rede, especialmente os que combinam esnobismo, pretensão e burrice no mesmo pacote. Enfim, alegria de pobre, todo mundo já sabe, não dura mesmo…

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