“Doze Anos de Escravidão” e a vitória do individualismo

[Maria Aparecida Abreu]

O vencedor da categoria de melhor filme do Oscar deste ano foi “Doze anos de escravidão”, produzido por Brad Pitt – que recebeu sua primeira estatueta na história dessa competição como produtor e não como ator. O filme é dirigido por Steve McQueen e baseado em uma história real, cujo roteiro é adaptado do livro escrito por seu próprio personagem protagonista – Solomon Northup.

Solomon é um negro alforriado, que vive no estado de Nova York (embora seja originário de Washington), sabe ler e escrever e toca violino. É justamente esse último talento, incomum nos Estados Unidos pré-guerra de secessão, que o leva de volta a Washington, para tocar, ser sequestrado e, junto com outros negros, levado para a Louisiana, sul do país, onde a escravidão de negros ainda era legalmente admitida.

A história vivida por Solomon, cujo nome é alterado para Platt, é impressionante e contém todos os elementos que caracterizam as estratégias adotadas pelos oprimidos em situações de dominação: o duro aprendizado acerca da ocultação de seus talentos, do afastamento absolutamente forçado da empatia – e até mesmo da solidariedade com os que vivem em situações semelhantes à sua –, o da mentira e o da desconfiança permanente. Enfim, estratégias de sobrevivência e não de vida plena.

Como outra personagem dessa história, há a figura destacada de Patsey, que não aprendeu – talvez por não conseguir realizá-las, ou simplesmente por não admiti-las – a utilizar as mesmas estratégias do protagonista: ela exerce toda a sua sensualidade e é simplesmente aquela que sempre consegue extrair a maior quantidade de algodão das plantações. Ela, assim como ele próprio o foi, é duramente penalizada pelas suas qualidades “acima da média”. Os que ficam “abaixo da média” do que os escravos colhem também são devidamente castigados. Mas esse fato não obtém o mesmo destaque na narrativa.

O filme é basicamente sobre doze anos da vida de dois indivíduos extraordinários que, apesar de terem se tornado escravos, foram alforriados e, por circunstâncias diversas, foram sequestrados e transformados em escravos novamente. Um deles, por sorte, pela obsessão de recuperar sua condição anterior e, sobretudo, pelo talento de aprender a minimizar os efeitos da racionalidade, da irracionalidade, do exagero e até da loucura das regras e dos caprichos (transformados em regras, quando conveniente) do opressor, consegue recuperar a sua condição de alforriado.

Na demonstração disso, muitos detalhes estão ali a serem notados – a  hierarquia de dominação entre senhores, suas esposas, capitães do mato e capatazes em que cada dominador intermediário transfere àquele que está abaixo de si todos os efeitos de sua própria dominação: indiferença pelo sofrimento alheio, desejo de vingança, desprezo pelos que lhe são diferentes e, acima de tudo, a falsa crença em alguma superioridade supostamente “natural”. Como complementação do cenário desumano, a música do filme é crua: às trilhas das festas comandadas pelo violino de Patts, alternam-se as músicas dos trabalhadores, que se apresentam ora como canções em que o discurso do senhor dominador se expressa, ora como os próprios negros/trabalhadores se apropriam delas e tornam sua rotina mais suportável. Aliás, outro ponto é o papel que a bíblia exerce em ambos os lados: a crença em deus é manifestada por brancos e negros, mas não é o mesmo para os dois grupos.

O espaço reservado às mulheres nesse contexto é também de um realismo duro e cru. De objetos de desejos a sujeitos de caprichos, a hierarquia entre as mulheres brancas e as negras é marcada por uma diferenciação que pode ser assim descrita: a estas últimas estão reservados o trabalho, os açoites e o sexo de acordo exclusivamente com os desejos do senhor branco. Ao ser objeto desse desejo, cada uma pode ter dois destinos: ser recompensada, com uma vida mais leve, retirada do trabalho; ou ter sua vida transformada num verdadeiro inferno, em que sua condição de sujeito é aniquilada, sendo alvo de investidas sexuais, atos de inveja e de vigilância excessiva, tornando a violência por elas sofrida algo do qual só se pode escapar com a morte. Na família negra livre, seu entorno é retratado com mais afeto, mas a sua posição secundária também está ali.

 As atuações são excelentes. Duas se destacam, a de Lupita Nyongo (Patsey), premiada como melhor atriz coadjuvante, no Oscar; e a de Michael Fassbender, no papel de Edwin Epps, um senhor de escravos, dando mostras definitivas – já indicadas nos seus papéis de Jung, em “Um método perigoso” e de Brandon em “Shame” – de que sabe representar (ou vivenciar, não sei) os limites da obsessão e do sadismo humanos. O sadismo está presente no filme em suas diversas facetas: o da esposa branca, também dominada pelo senhor; e o de outros sujeitos, que têm como modo de sobrevivência garantir aquela estrutura de horror e de opressão; mas é na figura de Epps que atinge seu apogeu.

O naturalismo das cenas de violência, a crueza dos recursos cinematográficos – que normalmente são pasteurizados em produções desse alcance de público – e a honestidade da narrativa e dos atores fazem desse filme uma das notáveis (não sei se a melhor, isso não importa, aqui) produções distribuídas no mercado cinematográfico estadunidense do ano passado. O roteiro ilumina um dos aspectos relevantes da história dos EUA, que é a coexistência, antes da guerra de secessão, na mesma república federativa, de estados em que a escravidão era permitida e de outros em que ela já estava abolida. E ilumina também um nervo central da própria escravidão, seja ela dos negros, ou de qualquer outro grupo: enquanto houver alguém sendo escravizado, não há liberdade individual definitivamente garantida. E quanto mais perto de nós for essa escravidão – e o conceito de “perto”, em nosso mundo contemporâneo, está cada vez mais incerto – mais risco correm os seres humanos livres, individualmente.

Mas o sucesso do filme – que não é pequeno – para por aí. Na história da escravidão, todos, na verdade, em algum momento, tornaram-se escravos: seja por derrotas em guerras, seja pelo tráfico baseado na pretensa superioridade de um grupo étnico-racial ou nacional sobre o outro, seja por uma lei espúria. Mas a empatia causada por Solomon/Platt, que é devidamente explorada no filme, cujo cume é um close em que o ator encara diretamente a plateia, é a de um indivíduo talentoso que foi, por meio de uma armadilha, forçado a sobreviver novamente como escravo.

É a perda da ilusão da meritocracia – na medida em que esta é facilmente sobrepujada por um ato de esperteza –, que parece causar o espanto, e não apenas a discordância ou a piedade, até mesmo do personagem interpretado pelo produtor, Brad Pitt. Em vários momentos, a defesa de uma justiça universal, que torna a escravidão de qualquer pessoa inadmissível, emerge. Mas a crença na supremacia do talento individual – que está presente no filme em diversas passagens e, ao que tudo indica, também nas plateias – é tão mais forte que qualquer sentimento profundo de justiça, que são provavelmente os talentos de Solomon/Platt e Platsey e seus infortunados destinos que comovem aqueles que passam a conhecer a sua história. O abraço de Solomon ao seu último amo, quando este o resgata da escravidão, e o desespero contido de Patsey com sua partida parecem ser simplesmente senões ao alívio sentido com a descoberta da injustiça individual da condição do protagonista. No entanto, os açoites e humilhações daqueles que não colheram o algodão como deviam são tão absurdos quanto aqueles sofridos em decorrência do brilho do protagonista e da coadjuvante. E já sabemos deles. Não há pessoa que tenha passado pelas escolas públicas, ao menos do Brasil e dos Estados Unidos, que não tenha recebido a informação de que houve tráfico de escravos – e, pra justiça (e não para a lei), não importa que tenha sido dentro ou fora do país. Mas é preciso narrar a sobrevivência de Solomon para que o nosso sentimento de justiça em relação à escravidão se aflore. Sua inerente injustiça parece não ser suficiente.

Doze anos de escravidão é um filme a ser assistido, sem dúvida. Necessário? Não sei. Mas se o for, a sua necessidade, ainda hoje, pode ser um dos aspectos mais trágicos dos reflexos da história narrada pelo filme.

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3 comentários sobre ““Doze Anos de Escravidão” e a vitória do individualismo

  1. – O Brad Pitt é um dos produtores. E isso é muito comum em filmes (inclusive nos nacionais) os atores mais famosos do flme ajudarem na produção porque na verdade esses nomes chamam patrocínio;
    – Destacaria a atuação do Chiwetel Ejiofor, porque acho que ele faz uma gradação inclusive física desse processo de desumanização que ele sofre, do confinamento mental e da alienação. Tenho a impressão que a idéia de passividade que em alguns momentos o personagem transparece é tão irritante que esquecemos o puta trabalho que o ator fez para caracterizar essa apatia do desolamento.
    – sobre as questões do individualismo… eu não sei. Vamos primeiro a história. Esse tipo de história individual como a do Solomon é um recurso historiográfico das chamadas “trajetórias da vida”. A questão é que povos e comunidades negras (e não só negras) tem uma historiografia pouco explorada, mal feita e gerenalizante. Então é comum trabalhar com histórias de vida não só pensando nos aspectos individuais (porque essas experiências foram estendidas a conjuntos de pessoas), mas como um recurso de humanização. Em alguns trabalhos do Sidney Challub da UniCamp encontramos relatos similares. É uma história de uma pessoa que ajuda a entender aspectos de uma história coletiva.
    – Uma coisa que é importante destacar e aí a minha discordância no: Porque afinal vale a pena ver esse filme? É a própria cinematografia negra americana. Depois do auge nos anos 1980-90 com grandes produções do Spyke Lee, ou mesmo grandes filmes negros de produção branca como A cor Púrpura, faz um tempo que esse debate está arrefecido no cinema. O debate do “pós-racial” estimulado pela eleição do Obama, ou até pela existência de um cinema negro americano (que não vou entrar na qualidade discursiva de produções como Madea), descolam a questão na necessidade de contar certo tipo de história e de como conta-la. Pensar que um filme como “Histórias Cruzadas” (horrível, condescendente, enfraquecido e estereotipado) possa ter comovido a academia assusta. Assim, como, ainda que bem mais legal, o cheio de problemas “Mordomo da Casa Branca” explicite que no diálogo com o senso comum, ou seja, as grandes audiências do cinema, ainda é necessário antes de comover alguém pelo sofrimento de pessoas negras, mostrar porque elas são humanas. Nesse sentido, acho que “12 years…” dialoga com essa realidade, é um blockbuster, tem a intenção de dialogar com grandes audiências, mas com o cuidado historiográfico e político que não temos visto tão facilmente em filmes sobre a mesma temática.
    – Com relação a gênero, ainda que não seja um filme feminista, acho que ele acerta em alguns pontos. As personagens Eliza e Patsey são muito importantes para a história e mais conscientes que todos os homens em cena. Eliza por saber que nada adianta, não adiantava agradar os brancos, não adiantava se resignar, não havia conformação possível, e ela é responsável por uma das cenas mais emocionantes do filme. E Patsey pelo suicídio como saída possível, pela chaga de ser alvo das atenções do Senhor, enfim, esse é um grande trabalho da Lupita na caracterização dessa personagem.
    Então acho que é um filme necessário que dialoga com a cinematografia negra de hoje e essa lacuna da temática e da politização.

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  2. O comentário acima melhora o meu texto e destaca pontos que eu não destaquei, ou por desinformação, ou por estilo. Assino embaixo.

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  3. Pingback: Revisitando a dicotomia público versus privado (III): O corpo como fronteira – ESCUTA.

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