“Deve ser tudo imaginação dessa minha cabeça preta, com cabelo ruim… “

[Diego Paulino]

Eu sempre fui o único negro do meu círculo social e, por muitas vezes quando criança, questionei isso. Me questionei porque eu não era branco como meus amigos ou porque não tinha puxado à família do meu pai (meu lado paterno tem pele clara). Me questionei porque não podia fazer o topete do cara da tv que todo mundo estava fazendo, e também me questionei muito sobre a razão de ter sempre que raspar a cabeça para ficar bonito, já meu cabelo era “ruim”. Mas né, eu era criança. Tinha vários amigos brancos e eles gostavam de mim pelo que eu era. Racismo no Brasil? Que isso!

Mal sabia eu que aquele pensamento já era discriminatório por si só.

A gente cresce e cá estou eu, refletindo sobre o tema. É cruel como existe todo um sistema de redirecionamento de culpa do opressor para o oprimido, e notei isso na época de vestibulares. Eu repetia o discurso idiota que era contra as cotas raciais e a “favor da cota pra pobre” porque me negava a ver que a maioria da população pobre é negra, porque eu não queria entrar numa universidade com uma “ajuda”, uma “esmola” do governo que, com as cotas, afirmava que eu era incapaz de passar no vestibular por meus próprios “méritos”. Eu queria provar, para eles e para mim, que eu, Diego, era tão capacitado quanto um menino branco que não precisa de cotas.

Entretanto, pensando hoje, meu maior medo era ser discriminado na Universidade justamente por ter usado as tais cotas, e ser chamado de “preto burro”, coisa que já tinham me chamado antes.

A culpa era minha. Há 3 ou 4 gerações parte da minha família era escrava e a culpa era minha. 300 anos de escravidão e a culpa era minha. Quando tentavam pagar o débito, com medidas desiguais para uma sociedade desigual, eu era compelido a acreditar numa igualdade que nunca existiu no Brasil e que favorecer a mim, por questões sócio-históricas, era culpa minha. Claro, eu deveria subir na vida por conta própria, porque a meritocracia é uma coisa que rege nossa sociedade e , bom, se eu não atingir meu objetivo não “era mim pra mim”, já que o Deus (branco, loiro e de olhos azuis, que fez todos à sua imagem e semelhança e por algum motivo me deixou preto – cor associada ao mal) tinha algo guardado pra mim no futuro: nem que fosse essa culpa que sentia sem saber porquê ou pensamentos infantis sobre a razão de não ter nascido no lado certo da tabela de cores.

Trocam o Lázaro Ramos e Camilia Pitanga por Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert e não é racismo, e ninguém tem a ver com isso, ainda mais gente branquinha que paga impostos e tem amigos, conhecidos, e pessoas negras que consideram muito (http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/12/racismo-o-que-eu-tenho-ver-com-isso-porque-sou-branquinha.html), abordam a mim e mais dois amigos (negros, veja só como evoluí!) na porta da casa de um deles, com armas apontadas, e não, não é racismo. Era medida de segurança, estavam fazendo a ronda. Me acusam de roubo, numa loja de doces em frente à minha escola quando eu tinha 9 anos, e não, não é racismo. Prendem, alegando um arrastão inexistente, um número absurdo de negros, pardos e brancos que se identificam com a cultura negra que “invadiram” um shopping (como alguém invade um shopping no horário comercial?) e não, não é racismo (http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/12/02/shopping-vitoria-corpos-negros-no-lugar-errado/) Usam “macumbeiro” como ofensa, se referem ao “neguinho” da outra rua com desdém, te olham feio quando anda num lugar “predominantemente branco”, não te atendem direito numa loja, te julgam como um ladrão em potencial apenas pelo tom da sua pele e, fazem piadas onde associam o negro à merda de cachorro, e adivinhem só? Não, não é racismo!

Deve ser tudo imaginação dessa minha cabeça preta, com cabelo ruim… Ou, como li nos comentários de um Portal de Notícias (nunca caiam nessa cilada): “É tudo culpa desses movimentos esquerdistas e racialistas que querem fazer o racismo ao contrário”

Desculpe senhor autor dessa articulação primorosa, digna de ser impressa e posta numa moldura de marfim (ouro branco, não é?), mas pelo jeito 300 anos de escravidão, exclusão e opressão não me ensinaram a pensar de forma direita.

Afinal, a culpa é toda minha.

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Um comentário sobre ““Deve ser tudo imaginação dessa minha cabeça preta, com cabelo ruim… “

  1. Minha vida resumida em um post.
    Venho de uma família de classe média, estudei em colégios particulares e sempre consegui contar nos dedos o número de alunos negros, muitas vezes era a única garota negra da sala. Fui excluída, chamada de macaco, mas tudo bem, as crianças “são” assim.
    Uma vez quando perguntei qual era o problema comigo e o por que de ninguém gostar de mim, me responderam friamente: “fulana é gorda e você é negra!”.
    Na época de vestibular abri mão de qualquer tipo de diversão e só me dediquei aos estudo, entrei em uma universidade pública sem usar qualquer tipo de cota, mas mesmo assim tive que aguentar piadinhas do tipo “com cota de negro até eu”.
    Poxa sociedade, em pleno século XXI, com toda a evolução científica, técnica e informacional não posso ser considerada normal? Uma estudante negra não pode ser inteligente? A cor da minha pele realmente importa?

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