Mais Perto do Céu: a corrida espacial na canção brasileira

[Suelen Maria Marques Dias]

Space: the final frontier.” A famosa frase do seriado norte-americano Star Trek, sucesso na década de sessenta, parece descrever aquele que teria sido o sentimento de grande parte da população que vivenciou o período da Corrida Espacial. Pela primeira vez a fronteira, por vezes tão longínqua, parecia mais próxima. Havia uma confiança no progresso, no engenho humano, uma certeza de que nada mais poderia parar o avanço da tecnologia e da humanidade. Por outro lado, havia a crença de que a expansão seria uma característica inerente aos homens, e assim como os grandes navegadores, que romperam os limites do mundo europeu em busca de novas fronteiras, o homem partiria agora em sua aventura em busca da fronteira final, o universo.

Desde tempos remotos o universo fascina os homens. Civilizações milenares já se baseavam nos movimentos dos corpos celestes para se orientar, criar calendários, crenças, mitos e deuses. Também remonta a tempos longínquos o desejo humano de ultrapassar a fronteira terrestre, de visitar o desconhecido, de ir além. Contudo, no século XX, aquilo que até então não passava de fábula, de sonho, de ficção, começou a se tornar realidade. O homem finalmente caminhava para a realização do seu antigo sonho, a conquista do espaço.

Pela primeira vez o homem ousava ultrapassar os limites naturais que até então lhe eram impostos e rompia a fronteira do planeta. Esse importante evento foi responsável por muito mais que o simples desenvolvimento científico e tecnológico e acabou por produzir esperança, medo, imaginação, ansiedade, povoando os sonhos e angústias de toda uma geração.

A História do século XX foi fortemente marcada pelas implicações dos acontecimentos da Guerra Fria. O contexto de disputas entre Estados Unidos e União Soviética, surgido ao final da Segunda Guerra Mundial, trouxe grandes consequências para as diversas partes do planeta e influenciou o pensamento das gerações que viveram o período. As disputas entre as nações para demonstrar a superioridade de seu modelo de sociedade atingiram diversos campos, ideológico, militar, social e tecnológico.

 Os diversos acontecimentos que marcaram o período tiveram repercussão mundial, difundidos pela imprensa e pela televisão que se consolidava na época. Dentre os principais episódios gostaríamos de destacar a Corrida Espacial que, ao ser noticiada em nosso país, trouxe novas reflexões para artistas, poetas, músicos e grande parte da população.

A grande variedade de músicas, de diferentes gêneros, compostas e interpretadas pelos mais diversos artistas nos mostra que a conquista do Espaço teve grande repercussão na época, atingindo um público amplo. É interessante perceber que, se por um lado a obra dos músicos deixa transparecer que eles eram influenciados pelas questões do seu tempo, por outro verificamos que esses artistas também contribuíam para disseminar alguns desses debates, bem como para influenciar uma parcela da população.

Canções como Marcianita, A lua é dos namorados, O Astronauta, Boemio Demodê e tantas outras, demostraram a existência de múltiplas opiniões a respeito do crescimento tecnológico da época. Nem sempre a tecnologia era vista de forma positiva, em muitos casos havia certo receio diante de mudanças tão rápidas. Uma das questões postas, nesse momento, era sobre quais seriam os limites de tanto desenvolvimento. Estariam os homens ultrapassando barreiras e manipulando forças com as quais não saberiam lidar no futuro?

É importante lembrar que um dos grandes desenvolvimentos proporcionados pela Guerra Fria foi em relação à produção de equipamentos bélicos. Em poucos anos a humanidade adquiriu um enorme poder de destruição, que chegava a colocar em dúvida a sobrevivência da raça humana.  Diante dessa perspectiva catastrófica, surgia a reflexão sobre quais benefícios e quais malefícios a tecnologia poderia trazer.

O desenvolvimento da tecnologia espacial, concomitante com o crescimento do poderio bélico de ambas as potências, trouxe ainda outra questão, que relacionava-se à expectativa sobre a possibilidade de fuga da Terra. Assim, considerando as conquistas do homem no Espaço, muitos sonharam com a possibilidade de encontrar, fora do planeta, um lugar onde a humanidade pudesse recomeçar.

Por outro lado, alguns artistas mostravam uma preocupação poética, com o futuro dos seus versos diante da invasão do Espaço pela tecnologia. O luar, fonte de inspiração para tantas poesias e letras de música, passava a ser ameaçado por satélites e foguetes que lhe roubavam o mistério e desvendavam os segredos. Assim, alguns músicos da época usaram o espaço da canção para alertar sobre o risco de perda do lirismo da Lua, que em tempos de Corrida Espacial deixava de ser território dos poetas para se tornar terreno da ciência.

Mas nem todos viam de modo negativo o desenvolvimento da tecnologia espacial. Muitos artistas usaram sua música para exaltar os feitos e os grandes nomes da Corrida Espacial. Se por um lado havia certo receio diante do crescimento tecnológico da época, de outro havia, para muitos, uma euforia diante das novas possibilidades abertas ao homem e uma confiança na capacidade do ser humano. A humanidade chegava a locais antes impensáveis e muitas pessoas que viveram o período sentiam-se privilegiadas por poderem vivenciar um momento tão importante.

 Além disso, havia uma exaltação da ideia de modernidade, uma euforia diante do novo, um desejo de ruptura com o passado, uma ansiedade pela concretização futuro. Os passos dados pelo homem na conquista do Espaço significavam uma grande novidade, algo nunca presenciado anteriormente, dessa forma, a Corrida Espacial passou a ser utilizada, em algumas músicas, como sinônimo de moderno.

O desenvolvimento da tecnologia espacial trouxe à tona velhas questões que sempre permearam a relação do homem com o Universo. Estaríamos sozinhos na imensidão do Espaço? Qual seria nosso lugar no cosmos? Do mesmo modo que observamos os demais planetas, estaríamos nós também sendo observados? Esses e outros questionamentos fizeram parte do imaginário do período e também povoaram as canções dos artistas da época.

Outra ideia interessante; a conquista seria uma característica inerente ao homem. Assim, da mesma forma como os navegadores aventuraram-se por oceanos desconhecidos em busca de novas terras, com a Corrida Espacial a humanidade ousava atingir uma nova fronteira, o Espaço. Muitas expectativas foram criadas diante da possibilidade e desejo de conquista do Universo.

Apesar de ter representado um momento de grandes mudanças para toda a humanidade, a Corrida Espacial ainda é pouco estudada em nosso país, mas ao viajar pelo universo das canções que procuraram abordar o assunto, podemos perceber um pouco dos sentimentos e das incertezas que se fizeram presentes nos primeiros anos da conquista espacial.

Algumas composições:

A lua é dos namorados, de Armando Cavalcanti,Klecius Caldas e Brasinha.

Lunik 9 de Gilberto Gil.

Astronauta de Roberto Carlos.

Colher de chá, de Tony Osanah.

Eu vou pra Lua,  Ari Lobo.

Não identificado de Caetano Veloso.

Marcianita de José Imperatore Marcone e Galvarino Villota Alderete.

A lua e a colombina, de Armando Cavalcanti, Klecius Caldas.

Dois mil e um de Tom Zé e Rita Lee.

A lua disse de Gildo Branco.

O Astronauta de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

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