Homofobia: Um julgamento histórico

[Rodrigo Mudesto]

27 de agosto de 2013  é um dia especial. Talvez signifique algumas mudanças.

Conheci Igor Xavier em 2000. Tive a oportunidade de vê-lo se apresentar durante um grande festival cultural em Belo horizonte, em local reservado nas dependências do Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Era talentoso, profissional, e parecia estar empenhado em conquistar um lugar ao sol, desafio sempre maior quando se parte do interior do estado, mesmo sendo Montes Claros um dos mais frutíferos berços culturais mineiros. Eu estava na companhia de minha então namorada, hoje minha ex-mulher.

Ela era sua amiga desde a infância, e graças a isso, prezei da companhia de Igor mais algumas vezes, tomei cerveja com ele e joguei conversa fora. Mas conhecia muito sobre sua trajetória  e várias de suas histórias. Mannuella era extremamente apegada a ele. A notícia de seu assassinato, de forma torpe, absurda, brutal, chegou assim pra mim, no desespero dela enquanto balbuciava palavras desconexas ao gritos, incapaz de assimilar a notícia da tragédia, da crueldade. Desde então me mantenho informado da luta da família, dos amigos e da boa parte da gente montes-clarense, por justiça Mas isso não importa. Importa a maneira como a corrupção e a homofobia impedem há mais de uma década que haja essa justiça.

O Crime estúpido fora cometido com estupidez. Os culpados descobertos e sua culpa provada rapidamente. Não há, e não havia duvidas. Fora um crime de ódio, de preconceito perpetrado por gente influente. Incapaz de negar, o assassino confessou o crime e a motivação preconceituosa, homofóbica.  Uma vítima diferente, e há muito a tal da “justiça” já se teria pronunciado. Mas não há pressa em julgar os assassino de um artista gay.

Mesmo não sendo advogado, sou ex-professor de uma faculdade de direito, e não foram poucas as vezes que tive o desprazer de ouvir amigos advogados comentando boatos, ao longo dos anos, de como dinheiro e benefícios haviam trocado de mãos para que adiamentos absurdos ocorressem. Por inaceitáveis três vezes (até agora) um réu confesso e seu cúmplice, ganharam imerecido direito de permanecer em liberdade e de zombar de um cidade, de uma família, de uma vitima. Desta vez o julgamento deve contar com a presença do deputado e ativista Jean Willys e há informes sobre a presença também da Ministra da Pasta de Direitos Humanos, Maria do Rosário. Espero que a visibilidade ajude a impedir o judiciário de se cobrir de vergonha uma nova vez.

Abaixo reproduzo a narrativa dos fatos feita pelo Jornal mineiro “O Tempo”, para que possam perceber que mesmo quando a neutralidade do jornalismo redige, não há como não se indignar com os fatos.

“Nesta terça-feira, um julgamento histórico será realizado no Fórum Lafayette, no Barro Preto, região Centro-Sul de Belo Horizonte. Os réus Ricardo Athayde Vasconcelos, de 58 anos, e seu filho, Diego Rodrigues, de 30, serão julgados pela morte do ator e bailarino gay Igor Leonardo Xavier, que foi morto dias antes de completar 30 anos, em março de 2002. Segundo as investigações, um dos acusados matou o bailarino porque teria “horror a homossexuais”.

O julgamento dos réus Ricardo Athayde Vasconcelos, de 58 anos, e de seu filho, Diego Rodrigues, 30, acontece a partir desta terça-feira (27), no Fórum Lafayatte, na região Centro-Sul da capital mineira.

A vítima foi assassinada há 11 anos, em Montes Claros, na região Norte de Minas Gerais. As investigações mostraram que Igor se encontrou com Ricardo em um bar. Durante a conversa, o suposto assassino se disse apoiador da arte e convidou o jovem para ir até a sua casa.

Lá, ele teria ficado revoltado ao ver a vítima assediando seu filho. Por isso, ele pegou uma pistola e um revólver calibre 38 e disparou cinco vezes contra o jovem. Um dos tiros atingiu a nuca de Igor.

Após o crime, os suspeitos fugiram com a ajuda do irmão de Ricardo. O corpo foi encontrado, no dia seguinte, em uma estrada vicinal que liga Montes Claros a uma cidade vizinha.

O julgamento da dupla já foi adiado por três vezes. Entretanto, o advogado da família, Ernesto Queiroz, vai pedir a prisão preventiva dos réus, caso isso ocorra novamente.

“Eles (réus) estão mudando de endereço, tanto que, no último despacho do processo, o juiz precisou intimar os advogados deles para que fornecessem a localização dos dois. Eles estão tentando protelar o júri para que o crime prescreva”, analisa Queiroz.

A família espera a condenação da dupla há 11 anos e não tem dúvidas de que se trata de um crime motivado por homofobia. “Ele sempre respeitou a todos e não vemos outro motivo para esse crime a não ser o preconceito”, relata a mãe do bailarino, Marlene Xavier.

A presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Maria Berenice Dias, considera que Igor foi morto “escancaradamente por homofobia”.

Para a especialista, condenação exemplar dos réus teria caráter pedagógico. “A condenação faria com que outras vítimas denunciassem. Há uma ideia de impunidade”, destaca.

O deputado federal Jean Wyllys também não tem dúvidas de que o julgamento do caso é paradigmático. “O júri em si não vai impedir que outros gays sejam mortos, entretanto, ele vai sugerir uma reflexão”, considera o deputado.”

Fonte: http://www.otempo.com.br/cidades/n%C3%BAmero-de-assassinatos-de-homossexuais-aumentou-27-no-brasil-em-apenas-um-ano-1.703393

http://www.muza.com.br/2013/08/cellos-mg-organiza-manifestacao-para.html

http://www.alterosa.com.br/app/belo-horizonte/noticia/jornalismo/ja—1ed/2013/08/22/noticia-ja-1edicao,93143/reus-confessos-de-assassinato-por-homofobia-vao-ser-julgados-em-montes.shtml

http://www.hojeemdia.com.br/minas/primeiro-juri-popular-brasileiro-de-caso-de-homofobia-sera-julgado-em-bh-1.159081

Atualização 23/08/2013 – 22:40  .  Link para o Resultado do júri na imprensa: 

  http://www.otempo.com.br/cidades/fazendeiro-acusado-de-matar-o-bailarino-igor-xavier-%C3%A9-condenado-a-14-anos-de-pris%C3%A3o-1.704053

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/08/27/interna_gerais,440810/juri-condena-fazendeiro-e-inocenta-filho-por-morte-de-bailarino-em-montes-claros.shtml

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