Papai Respeitava os Brancos, Mamãe Odiava

[Jorge Amado, 1934*]

O primeiro dos fatos de que Henrique se recordava era a vaia que haviam dado em Ângelo, o gordo vizinho do sobrado amarelo.

Hoje, Henrique tinha pena dele. Outro dia o vira. Estava gordíssimo, comerciante, carregava embrulhos de todos os tamanhos e de todas as cores. Tinha mulher magra e filhos que não acabavam mais.

Coitado dele! É gozado.. . Ninguém pode pensar nele sem rir… Só me parece que a mulher bate nele e os filhos aplaudem. Esse pobre Ângelo, um sujeito gozado, feito para se rir às custas dele.

Henrique está rindo, está rindo mesmo às gargalhadas, mas quer ter pena, quer lastimar a sua sorte e não pode. Não tem um tostão, dorme no areal, pesca à noite, às vezes carrega fardos nas docas – mas sente-se superior a êle, liberto, dono do mundo, senhor do ar, amigo dos gatos vagabundos e das sombras das árvores. O outro é escravo do armazém, da mulher e dos filhos. E quem sabe se o avô de Henrique não foi escravo do avô dele. O neto é que não é escravo de nada.

A vaia foi assim. Ângelo devia andar pelos nove ou dez anos. O pai era rico, dono do sobrado amarelo, do armazém de secos e molhados, de um enorme guarda-chuva cinzento que não largava nunca. Ângelo era gordo e andava devagar, quase se equilibrando. Sorria sempre, um eterno sorriso de aprovação. Tinha uma pele tão fina e tão corada que parecia a mulher rica, mal falada na rua, que morava no 22 e possuía um cachorro de luxo.

Logo que se mudara para o sobrado amarelo, Ângelo tentou fazer camaradagem com os molecotes, mas eles eram terríveis, acostumados a quedas e surras e com um grande adiantamento sexual. Houve ameaças e propostas sujas a Ângelo, que não podia correr com eles, nem tomar parte nos furtos de banana e sapoti. Demais, quando iam espiar os peitos das negras, ele se deixava ficar e certo dia, quando foram ver uma preta mijar nuns terrenos baldios da Baixa dos Sapateiros, Ângelo se interpôs entre eles – foi o seu único ato corajoso – e disse que aquilo era pecado. Jesuíno, um mulatinho fino, de cara de sagüi, endiabrado como êle só, soltou a descaração:

– Você não é homem! Já ouvi dizer que você dá…

Ângelo corou e chorou. O grupo foi ver a preta mijar e o pobre gorducho se separou deles definitivamente, para alegria de sua família. Só muito tempo depois é que souberam que várias vezes Ângelo apanhara por andar em tão má companhia.

Apesar disso, vaiaram-no.

Foi um domingo de muito sol, quando êle voltava da primeira comunhão. Vinha com o pai, que não abandonava o guarda-chuva, a mãe, também muito gorda, e as três irmãs, namoradeiras, de cachos e vestidos lindos. Os meninos estavam no tope da ladeira. Ângelo andava radiante, as mãos apertadas uma na outra. Bem no meio da rua, pisou na casca de banana, escorregou e foi ao chão, sujando a roupa branca. A vaia explodiu. Henrique não sabia quanto tempo gritaram, mas parece que Ângelo não chorou da queda, chorou da vaia.

– Papai quis me bater, mamãe não deixou. Foi uma discussão danada. Papai respeitava os brancos, mamãe odiava…

Henrique se lembrava também, com a voz entrecortada de gargalhadas sonoras e gostosas, da primeira vez que vira uma negra mijar.

O fato ficou-lhe na memória graças ao seu pitoresco. Um dia, discutiam sobre a conformação das pessoas. Nascera uma irmãzinha de José Gogó e eles tinham ido à casa em festa visitar a criança. Olharam bem para as partes vergonhentas dela e, juntando o que haviam visto com as conversas ouvidas de molecotes mais velhos, ficaram de perfeito acordo quanto à diferença entre o homem e a mulher. Restava saber como a mulher mijava. Discutiram uns quatro dias, sem chegar a uma conclusão satisfatória. Finalmente, um dia, foram espiar as pretas que mijavam no areal, Henrique, Baldo e o mulato Jesuíno. A vítima escolhida foi uma velha maluca que pedia esmolas cantando. Acompanharam-na um bocado pelas ruas e ladeiras. Ela cantava misturas de rezas e canções picantes. Afinal, após uma enorme caminhada, dirigiu-se para o areal. Eles atrás. A velha chegou e a primeira coisa que fez foi cheirar o chão. Depois traçou, com o dedo, um círculo e dançou em volta. Eles espiavam escondidos, amedrontados. A velha suspendeu primeiro o vestido, sem parar de dançar. Em seguida, suspendeu a camisa e, com enorme cerimonial (parecia até missa cantada), dando três passos para a frente e dois para trás, colocou-se no meio do círculo. Parou então de cantar. Ouviram um ruído e viram o jacto d’água. Terminada a operação, a velha retirou-se em silêncio e os molecotes se precipitaram para o lugar do sacrifício. Ficaram bestas. O círculo rodeava geometricamente a água mal cheirosa. Nem um pingo fora. Observaram tudo cuidadosa mente e foram procurar os companheiros. Seriamente, Henrique nunca discutiu tanto como naquele dia. Surgiram versões inúmeras sobre o caso. Por que as mulheres mijavam dentro de um círculo, após cantar e dançar?

Acabaram por aceitar a opinião de Baldo:

– Se elas não fizerem isso o diabo entra pelo corpo delas. Assim, o diabo fica preso na roda e elas mijam em cima dele.

Ficaram doidos por ver outra mulher mijar. Viviam escondidos atrás do areal. Finalmente, uma pretinha veio e mijou sem cantar e sem rezar. Baldo explicou que aquela já tinha o diabo no corpo. A explicação não valeu porque as outras que seguiram a pretinha também não dançavam. Estavam desapontados, mas veio um homem com uma mulher, e, em vez de mijarem como todo mundo, mijaram embolados, gemendo. Aí o mistério os dominou de novo e ficaram viciados no areal.

O terceiro fato era Morena. Hoje, Morena é um pedaço, uma mulher para um macho bom. Pois Henrique jurava que, já naquele tempo, menina de oito anos, Morena era um pecado. Os cabelos lisos e os olhos rasgados, parecendo cheios de água, diabo de olhos que o olhavam convidando para coisas feias.

Havia outras. A Francisca, filha de sinhá Rosa, que era bem bonita, Lilita e Rosinha. Mas êle só via Morena. Elas andavam com os moleques, corriam com eles, furtavam frutas também. Eles espiavam-lhes as coxas e pegavam nelas, às vezes. Uma vez Henrique bateu em Jesuíno porque o mulato quis pegar nas coxas de Morena. Depois êle pegou. E uma noite, no escuro, foram mijar embolados no areal. Ele achava que aquilo (não sabia o que era em verdade) devia ser gostoso. O engraçado é que mijou mesmo nas coxas de Morena. Então disse:

– Agora você é minha mulher. Tem de me obedecer.

Foi assim que começou o namoro. Ele poderia dizer que foi numa noite de lua num banco de jardim, com flores e coisas ingênuas. Agradaria a muita gente. Mas não foi mesmo, era besteira dizer.

Isaac achou que êle tinha razão, que assim mesmo, embolados no areal, eram líricos e ingênuos. O judeu escutava o preto imaginoso e alegre com os olhos brilhantes, como um estrangeiro escuta uma canção do seu país natal.

Henrique e Morena começaram se embolando no areal e se mordendo. Morena… Menina bonita da Rua dos Quinze Mistérios… Ele beijava os seus lábios, e nos brinquedos de quadrilha ela era a sua mulher. Podia ter sido somente assim! Ficaria até bonito! Mas eles gostavam era de se apertar e Henrique procurava-lhe os peitos que ainda não existiam debaixo do vestido.

[N.E.] * Extraído do Livro “Suor” de Jorge Amado, um de seus primeiros livros, publicado em 1934. Em 2012 se comemorou o centenário de nascimento de Jorge Amado (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001)

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