Mulher e Bordoada

[Black no Mucho]

Este texto é para dizer que Lisbeth Salander é o melhor personagem de ação da última década, e ponto. Como não vale crítica de uma frase apenas, chego nisso daqui a pouco. Primeiro vou danar a falar mal de outra Lis, a “Swann” e do resto da ninhada de siriemas anoréxicas ninjas.  A senhorita cisne, para quem não lembra, é a principal personagem feminina nos três primeiros filmes da franquia Piratas do Caribe – da sempre educativa Disney Company – e aparentemente volta para o quinto, previsto para 2015.

Pouca coisa provoca tanto preguiça em ficção quanto um personagem de 40 quilos surrando brutamontes de mais de 8 arrobas cada. Já era perda de tempo quando queriam convencer às crianças dos sixties que o Burt Ward (Robin) poderia oferecer qualquer coisa que não carinhos para um brutamontes, com ou sem “pow” ou  “boom”. Falo por ele ser magricela, e não porque até as crianças daquela época sabiam que aquela coca era fanta. Já Keira Knightley deve precisar de dublês até para cenas de subir escada, nas cenas de chutar caras de caras, acho que ela nem aparece no estúdio no dia, deve ficar de cama pra cuidar daquela anemia auto imposta toda. Do mesmo naipe são Maggie Q (a atual nikita), Milla Jovovich (cujos olhos dispensam as apresentações), Rose McGowan (Conan) e várias eteceteras, pelo menos uma ou duas em cada série ou filme de ação. Vou livrar declaradamente a Rachel Nichols (Alias, Continuum e G. I. Joe). Ela é tão fraca como atriz que não ser convincente como lutadora é o de menos. Além do que, no momento, ela é a mais bonita das siriemas anoréxicas ninjas, e estaria disposto a assisti-la até mesmo lavando cuecas. Devemos sempre respeitar o tipo ideal de uma espécie.

Mas esse tipo de caracterização de personagem sempre soa como se escalassem um Superman barrigudo (santa pança Batman) ou se o Justin Bieber saísse refilmando os papeis do Harrison Ford (#meda).

Não convence o argumento do “tudo pela fantasia”. Por exemplo, sou a favor de maquiagem, saltos altos, silicones diversos e ponta dos dedinhos na boca, no tocante as mulheres acho satisfatório ser iludido se, porém, todavia, contudo, no fim ambos ouvirmos o sino tocar (tá, isso é difícil, mas vezes um e vezes o outro, está bom). O ponto “g” da questão é que a enganação precisa ser convincente.

Mas acima de tudo, por favor, não venham argumentar que é preciso romper com o modelo da princesa em perigo, que nossas magricelas porradeiras servem de modelo para novas gerações de meninas. Blá, blá, blá e frigidez. Prefiro que as meninas almocem direitinho… Minha geração de caras cresceu vendo o MacGyver segurar armas com a ponta dos dedos e cara de nojo, além de ter tremeliques quando acertava algum capanga com a frigideira. E não precisa ser especialista em gênero para saber que é o MacGyver e não o Chuck Norris quem serviu de modelo para o quinhão de testosterona que governa esse nosso tecno-mundo de hoje em dia.

Mas claro, há bons personagens femininos de ficção, adequadamente personificados e que (se é que isso importa) servem como bons modelos. E aqui falo primeiro de Game of Thrones e Hit and Miss e finalmente entrego o Black no Mucho de Ouro para a Naomi Rampace que é a Salander primeira e definitiva.

Pelo conjunto da obra não tem como não falar de Game of Thrones. O elenco é basicamente masculino, mas os personagens femininos no geral destacam-se pela plausibilidade, mesmo estando mais sujeitos ao fantástico. Não tem como não achar que faz todo o sentido a Daenerys domar dragões e todo um exército de primos do Conan.  Ninguém duvida de que ela não seja capaz, e exatamente porque ela não dá piruetas e socos na cara de nenhum brucutu. As damas são femininas, e fortes inclusive  porque femininas Shae, Ros (adorava ela), Cersei. Quem não pensaria duas vezes antes de arrumar problemas com a Catelyn? E sobre Brienne of Tarth? uma mulher que com certeza come direitinho seus vegetais, para conseguir sustentar quase 2 metros de altura (exagero meu, a atriz tem 1,91m), não há porque duvidar que derrote na espada os grandes guerreiros do Westeros.

E claro, a personagem feita sob medida para educar mocinhas a não serem “só” mocinhas: Arya (que se chama Stark, mas devia se chamar Wayne). A criança que viu o pai ser assassinado e se motiva pelo desejo de reparar a violência com a violência, que foi treinada por um espadachim nos usos da espada curta na primeira temporada, por um assassino a matar na segunda, e na terceira recebe lições de arco e estratégia. Arya corre o mundo aprendendo a ser tornar quem ela é. Mas ninguém ofende o telespectador – ou o leitor dos livros, obrigando-o a acreditar que a criança, que ela ainda é, seria capaz de vencer guerreiros treinados e adultos. George Martin conquistou seu lugar ao sol entre os escritores de fantasia, exatamente porque, seus personagens matam e morrem quando é exatamente isso que aconteceria, não só num mundo de dragões e bruxas vermelhas, mas em qualquer universo ficcional coerente. Sabe porque sempre se diz que “o livro é melhor que o filme”? Porque em filmes sacrifica-se a regra que manda tecer com coerência a rede que deve prender o leitor empaticamente aos personagens, Em Game of Thrones, a série é tão boa quanto o livro porque essa regra é obedecida.

Hit e Miss é provavelmente a obra menos conhecida que menciono aqui, e por isso precisa de uma pequena digressão. É uma minissérie inglesa estrelada por Chloe Sevigny, atriz que se especializou em personagens marcadas por conjunturas sexuais conflituosas. Ela surgiu como a adolescente HIV positivo de Kids e ficou conhecida por ter feito a namorada da personagem de Hilary Swank em Meninos não choram. Na sequência foi uma das esposas em Big Love, série sobre uma Trigamia Mórmon. Em Hit and Miss, ela é uma transexual que ainda não passou pela operação “definitiva”, que precisa cuidar da sua família, um filho inclusive, e que sobrevive como assassina profissional. Ou seja, como um amigo meu diz, Mia é a “Nikita Kinder Ovo”. Costumo torcer o nariz para a opção por usar mulheres para representar homens que buscam se parecer com mulheres. Acho que, por um lado, é condescendente com a audiência, que se choca menos com mulheres usando vestidos. Além do que o bom burguês não vê nada demais em que somente mulheres sejam ambíguas. Por outro lado, é pouco ético. Tipo latino fazendo papel de árabe ou vice-versa. Mas a série é muito boa, e a estranheza natural da Sevigny, mesmo reforçando o preconceito por trás da ideia de “mulher em um corpo de homem”, prende a atenção. Mas o que realmente importa aqui é a forma como ela é vista como uma assassina foda. Não há grandes feitos físicos, mesmo porque Sevigny é pequena e esbelta. Apenas técnica e perfeccionismo. Ela sabe brigar. Ensina, inclusive, ao filho que “tudo que tem maxilar pode ser nocauteado”. O que é uma boa hipótese e se torna plausível porque ela e o pirralho dão socos, não em guerreiros, não em terroristas, em homens fortes, mas que não tem treinamento, ou mesmo jeito pra brigar. E são brigas rápidas resolvidas em dois ou três bem colocados socos. O Mal conceito, por trás das Siriemas Anorexias Ninjas é a ideia que um corpo praticamente sem carne ou músculos, um saco de ossos (mesmo que formoso)  que é atirado de um lado para o outro, não se quebra, e sustenta horas de explosão muscular equivalente ao esforço de uma prova olímpica. Proezas de corpos que não sustentam nem um bom café da manhã. Deixando de lado o problema tratado aqui, assista a série Hit and Miss se estiver passando, ou baixe. Vale a pena por diversos motivos. Até porque Mia tem muito em comum com Lisbeth

Lisbeth Salander é o mais interessante personagem de ficção de qualquer gênero ou espécie neste inicio de Século. Pra quem não a conhece, é a protagonista da série de livros Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson – que fez carreira como repórter investigativo especializado em grupos de extrema-direita. Larsson faleceu após concluir o livro A Rainha do Castelo de Ar (último da trilogia). O filme americano sobre o primeiro volume Os Homens que não amavam as mulheres– e que em inglês recebeu o titulo de The Girl with the Dragon Tattoo, conta com o (James Bond) Daniel Craig no principal papel masculino, e foi filmando devido ao sucesso tanto dos livros, quanto dos filmes originais. A Trilogia foi filmada incialmente pela produtora sueca Yellow Bird, ótimo selo, que tem se destacado pela filmagem de obras policiais da literatura sueca. Para quem não sabe, os suecos mandam muito bem nesse nicho – recomendo também os livros e os filmes sobre a série Wallander, mas podemos falar disso outro dia.

Mesmo com todo o estardalhaço do lançamento de um filme hollywwodiano, é provável que a versão sueca tenha sido a mais vista. Ela circulou muito bem pelas salas de cinemas “de arte” e por vídeo clubes e, principalmente, tem uma carreira de sucesso no mundo torrente.  De qualquer forma, a versão sueca é superior. Principalmente na retração de Lisbeth. A atriz Rooney Mara (EUA) em muitos momentos parece querer seu lugar entre as Siriemas Ninja, é a mulher bonita que se mortifica, que está bonita porque seria bonita de qualquer jeito. Para ela, vestir-se como Salander é como exteriorizar rancor e trauma no próprio corpo. Noomi Rapace (Suécia) não é tão bonita, e talvez por isso sua Salander é alguém vestida como um exército em ordem de batalha. Tatuagens, moicanos, couro, piercing e a genitália são como o pugilismo e os computadores, ferramentas a serem dominadas, não coisas que a definem. Ela não é Electra sendo treinada para ser lutadora. Ela não é um hacker sexualmente tedioso e sem vida social. Se já foi dito (Benjamin) que o herói é o verdadeiro objeto da modernidade. E isso significa que, para viver a modernidade, é preciso uma constituição heroica, em Salander, heroico é o ato de instrumentalizar a modernidade. Não mais vivê-la: jogá-la. A vida é sonho, escreveu Calderon de La Barca, em 1635. A vida é um cenário de Role-Playing Game, corrigiu Stieg Larsson em 2005.

Mas Salander não é uma heroína invencível, nem uma princesa a ser salva por príncipes. Os príncipes nunca aparecem e ela vez por outra se fode. E é na forma como sobrevive e vinga-se das humilhações e injustiças que ela se destaca. Salander não é susceptível a passar pela vida traumatizada por um estupro, como o autor fez questão de contar. Recusa-se a ser vitima. Não há nada que possa ser tirado dela. E, principalmente, ela não se sente diminuída porque violada. A violência diminui o agressor, que na sua hora pagará com juros. Esse conceito está comprometido na versão americana. Aparentemente foram incapazes de retratar um herói que não é salvo pela própria predestinação, ou de compor uma mulher que não está sujeita a envergonhar-se pelo que não é sua culpa. Talvez o segredo esteja em que para ela, “Não há inocentes. Apenas diferentes graus de responsabilidade“. Não existem vítimas, há responsabilização. Não por acaso o enredo gira em torno de crimes cometidos por velhos e jovens simpatizantes do nazismo, retratados como gente comum: aquele velho esquisito da casa ao lado, sabe-se lá o que ele fez quando era jovem, ou pior o que faz quando sai de casa…

Os livros e a trilogia sueca podem ser adquiridos ou baixados na internet facilmente. O segundo filme da trilogia americana talvez não saia. É que o personagem Mikael Blomkvist vivido por Daniel Craig tem uma participação muito menor no volume II, A menina que brincava com fogo, e ele parece pouco interessado. Foda-se, como já disse, Naomi Rampace já é a Salander definitiva, e os norte-americanos só teriam a ganhar se acostumando com legendas.

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2 comentários sobre “Mulher e Bordoada

  1. Tenho até dificuldade de opinar sobre um texto que reflete quase em tudo a minha opinião sobre o assunto. Tirando, é claro, a minha falta de conhecimento sobre um ou outro seriado ou filme que eu ainda não vi. Mas é a velha questão: quero ser enganado, mas não erre no roteiro e siga a lei da plausibilidade. Os gêneros que podem romper, intencionalmente, com essa regra são a comédia, o pastelão, ou o clássico filme B do tipo “quanto pior, melhor”. E tem mais uma coisa: a riqueza do papel de herói, está diretamente ligado ao auto-sacrifício que compõe a personagem. Se essa personagem for uma mulher, o convencimento do sacrifício muitas vezes remete ao confrontamento de sua própria feminilidade socialmente composta. Não é como o pastiche da mulher machona ou valentona, mas algo parecido com Pentesiléia, de Kleist. Guerreira, amazona “legítima”, que tem sua feminilidade depositada em um lugar aonde os homens não a reconhecem obviamente, posto que tal feminilidade não está no corpo de mulher desejado pelos homens (falta-lhe, como boa amazona, um de seus seios). Ainda assim, ela apaixona-se perdidamente, loucamente, mortalmente por Aquiles (e vice-versa). Vejo alguma ressonância de Pentesiléia em Lisbeth Salander. Ela realmente é uma das maiores heroínas que surge em nossa atualidade.

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  2. Boa lembrança a Pentesileia do. Kleist. Mencionei outro texto dele aqui na PIttacos a uns meses. É sempre boa leitura. Gostei da distinção entre a feminilidade pra si e a atribuída pelos desejo do outro. Penso que a Salander radicaliza o conceito porque a (romântica) feminilidade deslocada da Pentesileia é um elemento de trágico, na Salander é a própria motivação épica.Valeu. Um Abraço Pra quem estiver lendo essa conversa um link para a obra que Daniel mencionou (http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/pentesileia_kleist.pdf)

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