Na Europa, Comia-se Com os Dedos

 [Eduardo Frieiro]

 Até o século XVII, na Europa, comia-se com os dedos. O grego Plutarco deixou escritas algumas regras para fazê-lo com graça, nos banquetes gregos e romanos. De meia em meia hora, os criados apresentavam vasilhas com água morna para os comensais lavarem as mãos. Usaram-se sucessivamente a colher, a faca e o garfo, como utensílios de mesa.

O uso de comer com faca e garfo entrou tarde nos hábitos dos brasileiros, ainda mesmo os pertencentes às classes mais educadas. Já divulgado o talher na Europa, dom João VI, no Brasil, ainda comia com a mão e a nobreza seguia-lhe o exemplo. Tão tarde entrou, que, ainda no fim do Império ou princípios da República, quando o costume de esconder as mulheres começava a desaparecer, as sinhazinhas preferiam quase sempre meter-se na cozinha com as crianças e as criadas, para comerem à vontade com os dedos, fazendo o tão apreciado capitão. O brasileiro do interior, e até mesmo o da cidade, sabe o que é assim chamado capitão, o qual consiste em juntar no prato com três ou quatro dedos apinhados o bocado de comida que em seguida se leva à boca. Era desta maneira que os escravos negros comiam o seu feijão misturado com farinha de mandioca: amassavam-no todo com os dedos formando bolos que depois atiravam à boca com destreza. Entendiam que o uso da colher lhes tirava muito gosto à comida. Não eram só os negros que faziam assim, em Minas e fora de Minas, quando se comia o trivial mais ou menos empaçocado. Faz pouco, conhecemos no Rio de Janeiro uma moça de fina educação, cujo noivo – um estrangeiro – não a quis mais quando soube que ela comia com os dedos. No norte, segundo o Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, denomina-se capitão o bocado de pirão de peixe que o tapuio faz com as mãos e atira à boca com a ponta dos dedos.

O comerciante inglês John Luccock, homem ilustrado e excelente observador, que viveu dez anos no Brasil, entre 1808 e 1818, legou-nos um livro interessantíssimo de impressões pessoais sobre o estado material, moral e intelectual em que se achava o país ao passar de Colônia a Reino (Jonh Luccock. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. São Paulo, 1942). Das mais curiosas são as suas notas acerca dos usos e costumes de nossa gente por aquele tempo. Veja-se como descreve o jantar duma família abastada dos arredores do Rio de Janeiro, quadro que, sem muita mudança, podia observar-se também nalguma cidade mineira em ambiente análogo.

A refeição principal consta de jantar ao meio-dia, por ocasião da qual o chefe da casa, sua esposa e filhos às vezes se reúnem ao redor da mesa; é mais comum que a tomem no chão, caso em que a esteira do dono da casa é sagrada, ninguém se aproximando dela senão os favoritos reconhecidos. As vitualhas constam de sopa, em que há grande abundância de legumes, carne seca e feijão de várias qualidades. Em lugar de pão, usam farinha de mandioca; esta, quando úmida, é servida em cabaças ou terrinas; quando seca, em cestas, sendo comida em pequenos pratos de Lisboa. Somente os homens usam faca; mulheres e crianças servem-se dos dedos. As escravas comem ao mesmo tempo, em pontos diversos da sala, sendo que por vezes suas senhoras lhes dão um bocado com as próprias mãos. Quando há sobremesa, consta ela de laranjas, bananas e outras poucas frutas.

Em alguns jantares de cerimônia, podia-se notar que parte dos objetos de mesa eram de procedência inglesa, como a louça e a cristaleira, sendo comum no entanto, as cabaças e os cocos, em lugar de terrinas e xícaras. Colheres e garfos eram de prata, mas cada convidado comparecia com a sua própria faca, em geral comprida, pontiaguda e com cabo de prata lavrada. Antes de servido o jantar, os convidados ficavam à vontade, ou de pé, conversando na sala, ou recostados em cadeiras, mesas, camas ou esteiras no soalho. Tiravam o casaco, os sapatos e mais o que estorvasse. Se havia senhoras, guardava-se um tanto o decoro que lhes era devido. Nesse caso, a disposição da mesa pareceria estranha a um civilizado europeu: as damas ficavam todas juntas de um só lado e do outro os cavalheiros, ou então a dona da casa sentava-se ao lado do marido, tendo do outro lado outra senhora, também com o seu da outra banda, de modo que nenhuma dama se colocava ao lado de outro homem que não fosse o próprio cônjuge. “Precaução zelosa, mas não de todo desarrazoada“, reconhecia o inglês, “entre um povo de cabeça tão quente“. Constituía demonstração de especial confiança e grande respeito pela reunião quando acaso se permitiam moças solteiras à mesa, favor raramente concedido. Ter senhoras à mesa com estranhos era já notável concessão que o enciumado macho luso-brasileiro fazia, com muitas reservas, à civilidade de maneiras que o século impunha. Isto na capital do país, porque no interior a segregação da mulher permanecia rigorosa.

Vejamos como se comportavam os comensais. O chefe da casa, sentado à cabeceira, recebia os pratos, um a um, e servia os presentes. A altura demasiada da mesa fazia com que o prato chegasse ao nível do queixo do comensal, obrigando-o a fincar os cotovelos na mesa e a levar desajeitadamente a comida à boca em grandes porções. Não havia muita ordem nem grande asseio. Não se trocavam os pratos e usavam-se os dedos com tanta freqüência quanto o garfo. A etiqueta mandava que não se empregassem mais de três dedos em juntar o bocado. Comer alguém do prato do vizinho era prova de amizade, não sendo raro que os dedos de um e de outro se vissem mergulhados a um só tempo no mesmo prato. Bebia-se vinho sem delicadeza de modos. Terminado o repasto, cada um limpava na toalha da mesa a faca de ponta de que se servira, enfiando-a depois no cano da bota ou na bainha ao lado do cinturão… por fim, todos tomavam uma xícara de café, uma só, como sedativo. Releva notar que a faca era indispensável a todo homem por causa dos seus diferentes usos. Servia com a ponta aguçada para cortar a carne à mesa, palitar os dentes, alisar a palha de milho e picar o fumo de rolo para o cigarro, tirar o bicho-dos-pés muito comum naqueles tempos e, enfim, como arma de defesa e ataque, além de outros préstimos.

Generalizou-se mais tarde o uso da faca de mesa, mas nem sempre apropriadamente. Muitos não a usavam tão só para cortar a carne, mas levando-a também à boca com o bocado ajeitado na ponta. Simão de Mântua (A. Gomes Carmo), no seu malicioso livro Figurões vistos por dentro (Estudo de psicologia social brasileira. São Paulo, 1921), fazendo o perfil do doutor Costa Sena, referiu certo episódio ocorrido com o cientista mineiro, em Santiago do Chile, por ocasião da exposição mineralógica ali realizada em princípios do século. Textualmente: “Tomada a sopa e servido o primeiro prato, segundo a moda em voga lá em Minas Gerais, amontoou na ponta da faca quantidade avantajada de alimento, caiu o queixo e introduziu com decisão o instrumento cortante pela boca a dentro, o que provocou grito de pavor a uma francesinha que lhe ficava em frente, a qual, nervosa, protestava: – Mais, mon Dieu, vous me faites peur! Todos riram e nosso concidadão, calmo e superior: – Elle est nerveuse, la petite, je l’ai fait exprès, pour l’éffrayer.” Daí em diante, parece, não voltou a fazê-lo.

Ainda me recordo de respeitável sacerdote do norte de Minas que se hospedara, como nós, num hotel de estância aquática de Cambuquira. À hora do almoço e do jantar, observávamos com certa curiosidade o bom do sacerdote fazer as refeições na sua mesinha, não longe da nossa. Comia levando o bocado à boca com a ponta da faca, o que o obrigava a uma ginástica um tanto discômoda. “Vai cortar-se“, pensávamos conosco. “Ainda se corta… É agora.” Não se cortava, é claro. Pelo que o apelidamos de “Padre engole-espada“.

Terminando com as impressões de John Luccock. Nas fazendas das vizinhanças do Rio o cardápio era diverso do urbano. Predominavam nele, sobretudo, o charque do Rio Grande, a farinha de mandioca, o feijão e os legumes. Galinha, ovos e sopa eram luxos. Como bebida, a única, quase, vinha a ser a água. Por vezes apareciam também a aguardente. O vinho era só para os fazendeiros mais ricos. Abundava a caça.

Eduardo Frieiro trecho extraído de “Feijão Angu e couve.”

Sobre o autor leia:

http://www.osantooficio.com/2008/12/15/eduardo-frieiro-e-os-livros/

http://descubraminas.com.br/MinasGerais/Pagina.aspx?cod_pgi=2957

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