O Inferno na Boca

[Campos de Carvalho]

Não perdi o mau hábito de falar mais do que devo. O mau hábito não: o mau hálito.

Tem um sujeito aqui em frente que tem o péssimo costume de me olhar de binóculo, e eu a ele, e o resultado foi que acabamos conversando à distância um com o outro – e sem abrir a boca, o que chega a ser espantoso.

Se ainda não morreu deve ter seus noventa anos no mínimo, e anda preocupado com o isolamento em que eu vivo, quase sem sair de casa. Para ele, Rosa a empregada faz parte da decoração ou do mobiliário – mal sabe que às vezes durmo com essa poltrona na cama – e sugeriu que eu ao menos arranjasse um cachorro para me fazer companhia, para me tornar mais humano ou pelo menos mais canino. Respondi que cachorro bastam os que eu já conheço, sem o rabo de fora, e discretamente bati-lhe com a janela na cara.

Outro dia o troglodita quis convencer-me de que um dos meus quadros estava de cabeça para baixo, e o pior é que nem era um quadro, era um espelho. Possivelmente me viu debruçado à janela, por trás, e concluiu que aquilo não poderia ser bunda nem coisa parecida, daí meter-se a querer fazer crítica impressionista. Vê-se que ele não deve ver bunda há muito tempo, o infeliz, e que o binóculo não o ajuda muito nas suas pesquisas, ao contrário do que acontece comigo.

Aliás, a bunda da sua neta ou tataraneta é um dos grandes melhoramentos do bairro, e se falo melhoramento é porque só se mudaram para cá há uns dois meses; antes quem morava lá era um deputado com a sua mulher, ambos sem bundas. A menina deve ter seus 14 ou 15 anos, e não sei por que cismou que quem faz parte do mobiliário sou eu e não a Rosa – e de minha parte faço o possível para corroborar a sua teoria. Despe-se na minha frente como se fôssemos copular daí a um minuto, e põe-se a acariciar os pequenos seios como se os estivesse pondo na minha boca – eu um armário.

Sempre me preocupou e há de preocupar o sexo das adolescentes, como já houve quem se preocupasse até com o sexo dos anjos, mas por motivos outros. Os meninos ainda se defendem de uma forma ou de outra, como eu com as galinhas, mas as meninas eu faço idéia de como devem cortar um doze, quando o que menos lhes interessa é ter metade de um doze em cada mão; antes atrapalha.

Isso me lembra um incunábulo que vi certa vez na Biblioteca do Vaticano, do século XIII ou XIV se não me engano, e que trazia este título (em latim) bastante sugestivo: “NO QUE PENSAM OS ADOLESCENTES QUANDONÃO ESTÃO PENSANDO NO SEXO.” Suas quatrocentas e tantas páginas vinham em branco naturalmente, um pouco amarelecidas pelo tempo, e só no final se lia a advertência FINIS, em belas letras góticas. Propus a tradução de obra tão erudita a um editor de Florença, mas como ele não concordasse em suprimir aquele tópico final, que me parecia uma excrescência, a idéia não foi avante.

Mas eu dizia, no início, sobre o inferno da boca e o seu mau hálito, e não sei por que entrou de repente na história o fóssil com o seu binóculo – e, de quebra, os seios da tataraneta, que não vejo aliás há mais de uma semana. O que eu queria dizer era que ontem cometi a tolice de dizer E então? a um conhecido na rua e, quando vi, o estafermo já estava a discorrer sobre o mau tempo, a propalada reforma agrária, as hemorróidas de um tio recentemente falecido, o prêmio do Sweepstake e outros assuntos correlatos, o que me tomou bem uma parte da tarde e boa parte da noite. Se houve uma verborragia no caso ela foi muito mais minha do que do outro, pois eu não tinha nada que saber se ele ia ou mesmo se estava indo, e estou cansado de saber que um simples boa-tarde pode transformar qualquer tarde excelente na mais terrível das tardes, e noites, e madrugadas, como ocorre desde que foi dada a palavra ao homem ou que se lhe dê a palavra. Se o morto é tão acatado e respeitado é justamente devido ao seu espantoso silêncio, algo que escapa à compreensão de qualquer mortal e o torna, ao morto bem entendido, o menos entendido de todos os mistérios da natureza, seja ela feminina ou masculina.

E eu mesmo, aqui digressionando sobre o nada enquanto não atino com a razão deste diário, sou bem o melhor exemplo do que digo e redigo e torno a dizer, só que no caso em vez de língua eu uso a Língua e em vez de tomar a palavra tomo as palavras, neste labirinto em que me engolfo, em que te engolfas, em que nos engolfamos, com a conivência dos lexicógrafos, dos filólogos, dos semantologistas e dos decifradores de todas as procedências ou improcedências.

Ainda bem que o racionamento do sol vem aí, segundo acabam de noticiar os jornais.

[N.E] : do livro “PÚCARO BÚLGARO”  sob  o titulo original de “7 de novembro” .

” Walter Campos de Carvalho (Uberaba, 1º de novembro de 1916 — São Paulo, 10 de abril de 1998), foi um escritor cujos trabalhos são singulares na literatura brasileira. Em 1938 formou-se em direito, tendo se aposentado como procurador do estado de São Paulo, onde viveu em companhia da esposa Lygia Rosa de Carvalho. Sua vida sempre esteve ligada à literatura, tendo publicado inicialmente Banda forra (ensaios humorísticos), em 1941, e Tribo (romance), em 1954. Mais tarde, escreveu os romances A Lua vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva Imóvel (1963) e O Púcaro Búlgaro (1964), hoje considerados verdadeiros marcos da literatura brasileira. A Lua vem da Ásia e A Chuva Imóvel chegaram a ser traduzidos para o francês. Campos de Carvalho, como ficou conhecido no meio literário, também colaborou com O Pasquim e trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, no período de 1968 a 1978.”  da Wikipedia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s