O Broxa: O dia em que Francis teve sua virilidade posta à prova (PARTE I)

[Fernando Navarro]

NE. Nas próximas segundas-feiras, a Revista Pittacos publicará os quatro episódios do conto inédito O Broxa, de Fernando Navarro. O dia em que Francis teve sua virilidade posta a prova foi um dia e tanto. Neste primeiro episódio, Francis aceita o desafio de Bob. Quem vencerá? Convidamos o leitor a compartilhar as angústias de Francis e se divertir com a ousadia de Bob. Comente, e nos conte o que acha do conto.

*

Francis e Martins, por algum motivo, não se falam mais. Romperam? Ninguém soube dizer. Brigaram? Não há testemunhas. Mas então como é que foi? Ninguém viu. E o que é que eles dizem? Nada. Desconversam, negam qualquer coisa e ficam como se tudo estivesse do mesmo jeito. Mas nisso não há quem acredite.

Aqueles dois viviam quase como um para o outro. Frequentavam um grande número de amigos, porém uma cumplicidade acima de qualquer coisa os unia e dava aos dois uma sintonia diferenciada. Se um estava, a gente já podia esperar o outro chegar. Uma mesa de bar com apenas um deles era de se estranhar. Esse era, aliás, o recanto humano que mais os realizava: a mesa do boteco, sempre juntos. Aí as horas vinham e saíam sem que se percebesse. Então o que teria acontecido para estragar uma amizade assim tão perfeita?

Uns especulavam que deveria ter rolado bate-boca por bobagem. Outros falavam a respeito de uma possível disputa pela mesma mulher. E sentenciavam:

_ Botou mulher no meio embola o meio de campo.

E havia os que acreditavam que a amizade simplesmente esfriou.

_Coisas da vida.

De todo modo, o tema intrigou de tal maneira os amigos que um grupo deles achou por bem sentar em volta de uma mesa (de bar) e pedir algumas garrafas para servir de estímulo aos debates. Quem sabe assim conseguiriam jogar luzes sobre aquele enigma?

”Desde quando?”, era a pergunta que podia tirar o mistério da escuridão. Tentaram então lembrar quando foram vistos juntos pela última vez, mas não era tarefa simples. Após algumas tentativas de curto alcance, uma derradeira lembrança improvisou o consenso: _ ”Foi no desafio do Bob à virilidade do Francis”, cena memorável que o grupo jamais esquecerá, mas que o leitor provavelmente desconhece. Cabe aqui, portanto, uma explicação. Vamos a ela.

Era uma quinta à noite, dia de bar, como todo mundo sabe, inclusive o leitor, assim espero. A maioria dos presentes já tinha bebido bastante. Francis e Martins partilhavam a conversa e a bebida com Bob. Lá pelas tantas, uma alteração no tom das vozes foi percebida na mesa dos três. Alguns teriam ouvido quando Francis, desinibido pelo nível etílico, falou para Bob:

_Isso é porque vocês aí ficam com essa história de achar que todo mundo gosta, que todo mundo é chegado!…

Seguiu-se um silêncio. Contrariado, Bob o fuzilou com os olhos.

_ ”Vocês aí” quem? Quem são “vocês aí”?

Novo silêncio. Francis ficou intimidado.

_Vocês, ora, “vocês”. Você sabe do que estou falando.

E Bob:

_Não, não sei. Mas você vai me dizer.

Pronto. Estava comprometido o bom clima da conversa. Bob, muito vaidoso, detestava ser afrontado, particularmente nesse tema. Francis, já meio embriagado, descuidou-se e falou demais. Juntou tudo e deu confusão.

_ Bob, por favor, você sabe do que estou falando. Não precisa criar caso.

Mas o Bob estava resoluto.

_ Eu quero saber quem são “vocês aí”?

O Francis falou baixo.

_ Vocês que são da turma, os do seu grupo aí…

Foi interrompido.

_ Está com medo de dizer? Tão macho e de repente não consegue falar?

Acuado, Francis resolveu enfrentar.

_ Vocês gays. Pronto falei.

Silêncio. Apesar da situação desfavorável, Francis conseguiu impacto com sua resposta. Mas Bob voltou à carga.

_ Nós gays achamos que todo mundo gosta, é isso?

_ Sim, é isso.

_ E todo mundo gosta do que?

_ De ser gay.

_ E isso quer dizer o que?

_ Ora, isso quer dizer… que gostam de gente do mesmo sexo. Não é gay?

Francis tentava falar baixo e olhava de lado, temeroso de que aquela conversa chamasse a atenção das mesas mais próximas. 

_ E você então não gosta de gente do mesmo sexo?

_ Não.

_ Nunca se excitou com “gente do mesmo sexo”?

Francis tinha a impressão de que alguns olhos e ouvidos se voltavam para ele. Se era normalmente inseguro, ali estava apavorado. Olhou para o Martins ao seu lado, mas ele estava igualmente assustado. E mudo. Francis tentou manter a convicção.

_ Eu não.

_ Nunca?

_ Nunca.

_ Nunca mesmo, nem um pouquinho?

_ Nunca, eu não gosto de homem e pronto.

_ Mas eu acho que, dependendo do jeito de chegar, você gosta sim.

E Francis desabafou:

_ Pronto, lá vem você. Era justamente disso que eu estava falando.

De fato, o tema maior que norteava as conversas do Bob era a universalidade da condição homossexual. “Todo mundo é, menos quem nunca experimentou.” Foi quando ele chegou nesse ponto que Francis cometeu o deslize de contrariá-lo. Inaceitável. Mas o retorno ao ponto inicial da desavença deu novo alento a Francis, que tomou coragem.

_ Tem homem que é homem mesmo, seja aqui, seja em Pequim.

Mas Bob era um osso duro.

_ E tem homem que quando se vê sozinho em Pequim aproveita para soltar a franga.

Silêncio na mesa. Francis não sabia mais o que dizer. Pediu ajuda ao amigo.

_ Assim não é possível. Ô Martins, você não diz nada?

O Martins até tentou, mas não tinha a mínima idéia do que falar. Apenas repetiu,

_ É, isso mesmo, assim não é possível, assim não é possível…

Ou seja, Francis continuava sozinho, e se esforçando.

_ Nem todo homem gosta de ir para a cama com outro homem. Eu, por exemplo, não gosto.

Mas o Bob era senhor da situação.

_ Só pode afirmar que não gosta se já experimentou. Se você diz que não gosta é porque já experimentou.

_ Mas eu não experimentei, nem tenho vontade. Nunca senti atração por homem e não gosto de homem, mas que chatice!

Martins estava surpreso com a firmeza do Francis enfrentando aquela situação. Sempre tão reservado e de pouca exposição, estava agora ali no corpo a corpo com um adversário temido. No entanto, ele sabia que naquele assunto Bob não desistiria nunca e que iria para cima de Francis no primeiro vacilo.

_ Quem está falando de atração? Estou falando de reação. Ou de ereção, se você preferir. Ninguém é 100% ortodoxo. Você pode não gostar de homem a vida inteira, mas um dia toma umas a mais, chega um cara com jeito e aí a vaca vai pro brejo.

Mas Francis continuava seguro.

_ Papo de veado. Estão sempre achando que todo mundo é igual, que é só passar a mão que topamos qualquer negócio.

Foi como uma deixa para Bob.

_ Quer apostar?

Um silêncio pairou sobre a mesa, tão intenso que parecia haver tomado o bar inteiro. Dessa vez Francis recuou.

_ Apostar como…?

Bob sorriu.

_ Você acabou de dizer que não adianta passar a mão que você não topa. Aposto com você, se eu passar a mão no seu pau ele fica duro.

Francis soltou um riso nervoso.

_ O que é isso, o que é isso, que conversa é essa?…

_ Estou falando sério. Um desafio. Eu acaricio o seu pau durante um minuto, aí a gente vê quem tem razão.

Francis lançou um olhar assustado para as pessoas a sua volta em busca, quem sabe, de alguma manifestação de solidariedade. Mas o que ele viu foi assustador. Os olhos ao redor brilhavam fascinados. Logo imaginou que uma situação dessas viraria motivo de piada pelos próximos meses. Ficou lívido. Só encontrava algum apoio no Martins, que estava tão atordoado quanto ele e também não sabia como reagir. Tentou argumentar.

_ Olha… acho que não estou a fim. Não curto isso de homem botando a mão no meu…

Bob interrompeu.

_ Não estou falando de gostar ou de desgostar. Eu te desafiei. Ou você é macho para topar a parada ou assume que não tem coragem e pronto.

Francis não sabia o que pensar. Pediu de novo ajuda ao Martins.

_ Martins, você não vai dizer nada?

E o Martins:

_ Essa conversa de aposta aí, acho muito esquisita.

E Bob não perdeu a deixa:

_ Mas que gracinha, que belezinha o casal. Olha Francis, se você quiser eu deixo ele te acariciar…

Martins quase pulou da cadeira:

_ O que é isso?! De jeito nenhum!

Francis ainda tentava.

_ Mas você vai querer que eu tire ele para fora aqui? Num lugar público?

_ Você não precisa fazer nada disso. O pau pode ficar guardado. Eu acaricio você por cima da calça e ninguém vai ver seu precioso exposto.

_ Mas e aí…?

E Bob:

_ Se ele não ficar duro, sua reputação fica intocada.

Francis murchou completamente. Não via mais para onde recuar, mas ainda tentava escapar.

_ Olha, eu não estou a fim, eu…

Bob jamais desistiria:

_ Meu filho, agora não tem mais jeito. Ou você topa ou saio daqui gritando que você tremeu. Teve medo de ficar excitado com outro homem.

Arrasado, Francis era o retrato da derrota. Olhou para o Martins, depois para o Bob e perguntou baixinho:

_ Um minuto?…

Bob deu seu sorriso mais triunfante.

_ Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Se em um minuto de carícias ele não crescer, a pátria está salva. Mas se crescer… aí depois eu te chamo para tomar um chopp só nós dois…

Atordoado, Francis tentava respirar.

_ Mas é um minuto mesmo?

_ Contado no relógio. E agora me dê um segundo. Passo no banheiro e volto pronto pra você.

Bob saiu. Francis estava nervoso pois sentia um clima estranho no ar. Como se as pessoas ao redor tivessem acompanhado a conversa. Como se estivessem  excitados com a expectativa de acompanhar a cena de Bob bolinando seu pinto em público. Baixinho, quase sussurrando, falou ao Martins.

_ Martins, e agora? O que é que eu faço?

_ Tem que encarar. Que jeito?

Francis suspira.

_ Você fica no relógio.

_ Certo.

_ Vê se faz esse minuto correr.

_ Deixa comigo.

Os dois ficam em silêncio, aflitos, sem saber o que falar. Aos sussurros, o Martins manifesta uma preocupação.

_ Melhor a gente fazer isso rápido, sem muito barulho.

_ Como assim?

_ Ninguém fora daqui precisa saber.

_ Mas e essa gente toda em volta?

_ Se a gente não der bandeira, como se não estivesse acontecendo nada demais, eles se desinteressam e o assunto perde a graça.

_ Verdade, verdade. O mínimo de alarde agora é fundamental.

De repente, um barulho tremendo. Gritos, assovios e panelas batendo. Era o Bob, chegando com uma claque de frequentadores e garçons. O bar inteiro fora convidado para assistir ao embate. Pessoas levantavam das mesas e chegavam junto disputando espaço. Francis ficou em pânico.

Colherada, um garçom baixinho com voz de barítono, pediu a palavra batendo um garfo na bandeja e falou:

_ Senhoras e senhores, estamos diante de um momento histórico. À minha direita Bob, o desafiante, que quer mostrar com quantos paus se faz uma canoa. E à minha esquerda Francis, que topou o desafio e agora depende dele a salvação da masculinidade universal. E eu, Colherada, com muita honra, aceitei o convite para servir de árbitro desta contenda que pode mudar a história do homem. Ou pelo menos a história de um homem.

Outro garçom trouxe um enorme relógio de cozinha que pôs sobre a mesa. Colherada continuou.

_ Quando o ponteiro chegar no 12, vai soar o gongo. Atenção!

E começou a contar:

_ Quinze, quatorze, treze…

Continua: http://revistapittacos.org/2013/02/25/o-broxa-ii/

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