A Melancolia do Mestre da Canção

[Sheila Kaplan]

No Brasil, o livro de Elie Wiesel sobre o movimento hassídico do século 18 ganhou o título A melancolia dos mestres da alegria. ‘Transcriação’ feliz – se não me engano, o original era Souls on fire (Almas em fogo} – pelo intrigante paradoxo que contém. Esse título me veio de imediato à cabeça ao escutar o novo CD de Caetano Veloso, Abraçaço, que fecha a trilogia iniciada com ‘Cê’ (2006) e seguida por ‘Zii e zie’ (2009).

O próprio Caetano revelou, em diversas entrevistas, que Abraçaço tem uma melancolia que não existia antes. Ele, que um dia, lá pelo final dos anos 1960, fez a grande louvação da alegria, caminhando livre e impávido em plena ditadura, agora declara sua tristeza. De que é feita a melancolia atual do criador de ‘Alegria, alegria’?

O propósito aqui não é desvendar os reais motivos – subjetivos, políticos, sociais etc – desse estado de espírito. Como na literatura (na prosa assim como na poesia), também na canção a primeira pessoa é sempre ficcional, mesmo quando leve ou pesadamente autobiográfica. O propósito, então, é seguir a trilha apontada pelo compositor em seu álbum mais recente para se aproximar da melancolia que expressa, incluindo inevitavelmente, nessa aproximação, a imaginação deflagrada pelos ”ásperos passos” (‘Vinco’) das canções.

O mais explícito sinal da melancolia aparece em ’Estou triste’. “Por que será que existe o que quer que seja?” – pergunta o compositor. A dúvida filosófica, metafísica, já havia aparecido antes. Mas na linda e misteriosa ’Cajuína’ surgia na forma de perplexidade vívida e saltitante –“existirmos: a que será que se destina“. A interrogação quase oculta sob a vitória afirmativa (sobre a lágrima) da condição “cristalina”. Agora não. A declaração da tristeza vai num crescendo desolado – triste, muito triste, tão triste –, embora revelando certa doçura, quase como queixa infantil. Nem no espaço mais íntimo há consolo – o quarto é lugar mais frio. Tristeza feita de silêncio e imobilidade – e o paradoxo do “peito vazio e farto”.

A tristeza aparece também em ’Um comunista’. Em diálogo com ‘Mil faces de um homem leal‘, do Racionais MC’s, Caetano narra a saga do mulato baiano Carlos Marighella, foco também da recente e alentada biografia de Mário Magalhães. Mas em contraste ao ímpeto realista e revolucionário dos Racionais, que chamam para o presente a luta do “super-herói mulato”, a litania de Caetano segue índole mais reflexiva. Ainda que “muito embora não creia em violência e guerrilha”, não é sem alguma melancolia que o compositor constata o fim das utopias. Admite: “Vida sem utopia não entendo que exista”. Mas logo, ambíguo, despista a autoria do dito, emendando que “assim fala um comunista”. Para em seguida, novamente crente, perguntar-se sobre o que – ”quem e como“ – ainda poderá fazer com que a Terra se acenda.

Como os Racionais MC’s, Caetano se imiscui na biografia do guerrilheiro urbano. Diz na canção que, ao saber da morte de Marighella, encontrando-se no exílio, mandou o recado de que “eu que tinha morrido”. E, enfático, proclama: “os comunistas guardavam sonhos”. Refrão engenhoso: o ’guardar‘ com suas ricas ramificações semânticas desencadeando vasta cadeia de sentidos, e o passado verbal a ecoar que ali o sonho acabou. A versão mais política dos Racionais – sublinhando, com o breque de metralhadoras, a permanência no país de grande parte daquilo que gestou o ”maldito sonhador” – ganha, na canção de Caetano, um tom mais universal, mas nem por isso amenizado: “a raça humana segue trágica sempre”. E apresenta equação-síntese dessa tragédia: “tédio, horror, maravilha”.

Na faixa-título, ’Abraçaço’, a melancolia aparece na forma de cansaço – “velho cansaço do eterno mistério”. Exaustão de “tudo que não deu certo/ e sei que não tem concerto”. Difícil não relacionar o abraçaço de hoje com o célebre abraço de Gil em 1969. A caminho do exílio na Inglaterra, Gil mandava aquele abraço “para todo o povo brasileiro”. O momento podia ser tenebroso, mas, autoconfiante, ele declarava que ”meu caminho pelo mundo eu mesmo traço”. Hoje, contabilizados todos os desacertos, o traçado é incerto, dispensa régua e compasso. “Meu destino eu não traço”, contrapõe Caetano, reverenciando o acaso (o “grã-senhor”).

E então vem o ápice da melancolia, a magnífica ‘Vinco’, espécie de versão atualizada de ‘Terra’. Arrastada, estendendo-se infinitamente, versos escandidos, hipnóticos, cantados como se já poucas forças restassem – a mais triste de todas as faixas. Essa nova ode ao planeta é ainda marcadamente erótica (“terras tenras”, ”vermelha e rosa de terra íntima”), mas aqui algo se desmancha no antigo “leão de fogo”: “De desfazer-me eu meu, eu, eu, eu, eu”. Mais que um desmanche do ego, há uma dissolução mais ampla, ”além da ilusão do seu ser pessoal” (como no verso de ‘O homem velho’, composta nos anos 80).

De todas essas canções, desprende-se, enfim, um fio (menos ou mais denso) de melancolia. Esse sentimento saturnino, objeto de inúmeras criações de autores geniais (Benjamin, Klibansky, Panofsky e Saxl, mais recentemente Lars von Trier, entre tantos e tantos), muda de feição a cada época. Muitas vezes, no entanto, tem sido associado a uma hiper lucidez, que, diferenciando-o da depressão, provoca – não revolta ou desespero – mas uma espécie de distanciada aceitação do mundo. Mesmo diante das coisas mais lindas da natureza e da civilização, o susto é calmo (como em ‘Quero ser justo’).

Mas Caetano desmente também muitas outras imagens ligadas ao campo da melancolia. Grita sua raiva no ‘Funk melódico’. Incita com vigor a ação pela justiça em ‘O império da lei’ (“quem matou tem que pagar/ (…) pelo olho no olho do jaguar)”, canção inspirada na morte da missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005 no Pará. Exalta a “pura-invenção” nacional (‘A bossa nova é foda’). E espalha superlativos – do abraçaço ao ”megabom gigabom terabom” de `Parabéns‘ (composta com Mauro Lima).

Na nossa época, a melancolia tem assumido a fisionomia do ”transtorno bipolar”. A instabilidade que iria da tristeza absoluta à euforia. Ouvir Caetano é perceber, com estardalhaço, o reducionismo dessa proposição. O paradoxo é a prova dos nove: no convívio de luz e treva, na tristeza do neón, na dor-delícia de ser o que é, entre tantos possíveis exemplos. Para o bardo baiano romântico, a vida não acontece nos pólos, mas no emaranhado. E melancolia – por que não? – rima bem com alegria.

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