O Nascimento do Conho

Um novo termo para uma velha relação

[Rebecca Monteiro, Carla Moreira e Beto Vianna]

Na obra Dom Casmurro, quem amou Capitu? Bentinho e, na imaginação do próprio Bentinho, também Escobar, seu amigo de infância. Ao transformá-lo em amante da esposa, Bentinho cria um novo vínculo com Escobar, criando, ao mesmo tempo, uma nova percepção de sua relação com Capitu. Na peça “Cyrano de Bergerac”, o herói Cyrano é poeta de primeira e tem um primo, Christian de Neuvillette, dono de um belo físico. Mas eles não compartilham suas qualidades: Christian é um desastre com as palavras e, Cyrano, desprovido de boniteza. O que os une é o amor por Roxane. E é Cyrano quem ajuda o primo a conquistar a amada, emprestando a Christian a virtude da poesia. No filme “Casablanca”, Rick ama Ilse, casada com Laszlo, perseguido pelos nazistas. E é Rick quem ajuda Laszlo a se safar e, ao se safar, fugir com Ilse para Portugal e para longe da felicidade do herói.

Tal como fez Sam, poderíamos “tocar de novo” as histórias acima, indefinidamente. As relações estabelecidas entre os personagens masculinos do livro, da peça e do filme, respectivamente citados no parágrafo anterior, são tema frequente nas narrativas de amor e desamor do ocidente. Isso porque tocam numa relação bastante disseminada entre nós, desde que nossa cultura se entende por cultura: a ligação entre dois amantes – ou duas amantes – de uma mesma pessoa amada. Ainda assim, e por mais importante que seja (de fato, fundamental, como iremos argumentar), não dispúnhamos, até o momento, de um termo que se referisse a tal relação. É o que propomos neste artigo, e o termo que propomos é conho.

Sobre a cunhagem do termo

Na terminologia aplicada às culturas ocidentais, o parentesco estabelecido mediante um ancestral comum é chamado consanguíneo, seja direto (filho, neta) ou colateral (primo, irmã, tio). Aquele criado pelo casamento ou outra união social recebe o nome de parentesco por afinidade.

Conho, o novo substantivo masculino proposto (flexionável em gênero e número), refere-se a uma relação de parentesco por afinidade estabelecida entre o(a) companheiro(a), cônjuge, namorado(a), amante, ou qualquer outra relação de caráter sexual, amoroso ou conjugal, em relação a outro(a) companheiro(a), cônjuge, namorado(a) ou amante de uma determinada pessoa. Dizemos, então, que determinado indivíduo é conho de um outro, isto é, que essas pessoas são conhas entre si. Por exemplo, em uma relação conjugal heterossexual tendo como referência um indivíduo do sexo feminino, a ex-esposa de seu atual marido será sua conha, assim como, da mesma forma, seu ex-marido e seu atual marido serão conhos entre si.

O termo é decalque linguístico composto a partir de vocábulos existentes no português, no espanhol e no latim. A primeira referência é cunhado, também uma relação parental por afinidade. Adicionalmente, temos o vulgarismo coño, que em espanhol denota o órgão sexual feminino. Finalmente, o vulgarismo do português corno, o companheiro traído. Os três vocábulos ajudam a compor estrutural e semanticamente conho ao remeter, respectivamente, ao parentesco nascido da relação amorosa, à própria relação amorosa, e à troca de um companheiro por outro. Tangencialmente, temos também a etimologia de coelho, que tanto em espanhol (conejo) quanto em latim (cuniculus)aproximam-se morfologicamente do vocábulo para o órgão sexual feminino (coño e cunnus, respectivamente). Em espanhol, é possível que coño seja derivado, ou internamente de conejo, ou de um dos termos latinos. O nome popular do animal empresta ao neologismo conho a ideia de atividade sexual prolífica com parceiros diversos, comportamento considerado típico entre as espécies da ordem Lagomorpha (coelhos e lebres).

 A relação de conhadagem: definições

Ao contrário do cunhadismo e de outras relações de parentesco por afinidade ou consanguíneas, a relação de conhadismo é, ceteris paribus, simétrica. Se o cunhado de um indivíduo do sexo masculino é companheiro de sua irmã, aquele terá um status parental, na relação, diverso do irmão de sua própria companheira. Mas um indivíduo terá um status parental equivalente, a princípio, a seu próprio conho (ou conha). Em outras palavras, a condição de ex-companheiro em relação à relação amorosa atual não diferencia o status parental dos dois conhos. No entanto, é preciso sempre haver ao menos alguma relação atual. Por exemplo, duas ex-esposas não podem ser, ou não serão mais, conhas entre si. De uma forma abrangente (mas não absoluta) a própria noção de conhadagem já implica uma mudança na história amorosa. Dizemos que não é absoluta, pois não é obrigatório que uma relação de conhadagem seja estabelecida a partir de uma mudança de companheiro. Por exemplo, em uma relação heterossexual, se um indivíduo do sexo masculino tem duas namoradas atuais, as duas serão conhas entre si. E se uma dessas namoradas tiver, por sua vez, dois namorados atuais, esses também serão conhos entre si.

Não há distinção entre relações homossexuais e heterossexuais para o conhadismo, visto que essa relação parental se baseia unicamente na ligação amorosa e, não, nos papeis sociais ou na constituição de uma descendência comum. Assim, por exemplo, um indivíduo homossexual masculino pode tanto ter um conho (o namorado do namorado) quanto uma conha (a namorada do namorado), ou qualquer outra combinação de sexo ou de opção sexual passível de descrição.

Finalmente, não há a possibilidade de se estabelecer uma relação de “conconhadagem”, ou seja, se o conho de um indivíduo tiver um segundo conho, este último e o referido indivíduo não serão conhos entre si.

Uma semiologia do conho

 Em termos simbólicos, o conho é filho do casamento (ou do encontro), por um lado, e da separação (do desencontro) por outro, o que certamente explica o fato de que, até hoje, o conho tenha estado no “armário” das designações e das nomenclaturas. Por isso, bem podíamos chamá-lo de um parentesco por desafinidade (ou contrafinidade). O conho não é bastardo, pois não carece de legitimação legal, mas tal como a bastardia, mantém-se no limbo das relações envergonhadas, custando-nos admiti-lo com serenidade. Daí – pensamos nós – a pertinência de se cunhar um termo para essa relação. Sua origem, a cada união e a cada desunião amorosa, é ao mesmo tempo inadmitida e bastante comum. Agora, depois de alguns séculos de psicanálise e de flexibilização dos costumes no ocidente, o termo está, julgamos, maduro para vir ao mundo oficialmente. Ou ao menos, linguisticamente, já que o conho anda por aí entre nós há muito tempo.

Também simbolicamente, o conho é regido por Palas-Atena, tradicionalmente conhecida como a deusa da guerra, mas também da civilização, da sabedoria, da estratégia, das habilidades, das artes e dos artifícios, ou seja, todos os atributos necessários não apenas para admitirmos a existência do conho, mas, também, para nos relacionarmos com ele de maneira prazerosa ou, no mínimo, respeitosa. Uma das dificuldades de aceitarmos a relação de conhadagem é o mito de que essa relação é necessariamente antagônica, imaginando se tratar, sempre, de uma disputa de rivais por um mesmo troféu amoroso. No entanto, o que prevalece na maioria das relações de conhadagem é uma inserção dos conhos nas redes familiares recíprocas, como acontece, muito comumente, quando alguém se torna responsável (ou corresponsável) pela criação dos filhos de seu conho. Se a guerra for mesmo necessária, a sábia coruja está aí… e as armas também.

Conhos culturas afora

Em sociedades cultural ou legalmente poligâmicas, a conhadagem é o resultado direto do estabelecimento de uma relação parental múltipla por afinidade e, não, necessariamente, por uma mudança nas relações amorosas, ou “amantismo”, como é comum nas sociedades ocidentais. As diferenças são a aceitação de tal relação pela comunidade e a sua condição estável. É possível haver termos específicos para conho em muitas dessas sociedades, mas ainda se faz necessária uma investigação mais cuidadosa, para o que convidamos nossos colegas – linguistas e antropólogos – a fazê-lo.

A poliginia (poligamia de mais de uma esposa) é praticada em sociedades chinesas há milênios. Seu banimento em 1930 pelo Código Civil (e outros atos subsequentes) deu lugar a práticas poligínicas “secretas”, a exemplo do ocidente. Como ficamos sabendo no filme “Lanternas vermelhas”, uma esposa trata a outra por irmã, o equivalente chinês para conha. Essa mesma forma de tratamento é usada entre as esposas de famílias poligínicas iorubás, na Nigéria. A poliandria (poligamia de mais de um marido) é praticada, ainda hoje, em algumas culturas da Índia. Nessas sociedades, o usual é que uma mulher seja desposada por dois ou mais irmãos, e, portanto, o status parental de irmão (um parente consanguíneo colateral) antecede a relação de conhadagem.

Entre os índios brasileiros Zo’é, do Pará, relações poligâmicas podem se estabelecer ou se romper com plena aceitação da comunidade. O caso é relevante, pois prescinde da distinção que costumamos fazer entre relações “estáveis” ou “oficiais”, de um lado, e “provisórias” ou “extra-conjugais”, de outro (não há, entre os Zo’é, a instituição formal do casamento). Por exemplo, ao escolher um segundo companheiro, uma mulher supre assim alguma “falta” do primeiro, seja emocional ou de ordem prática, ou econômica: um paralelo iluminador com o estabelecimento de relações de conhadagem em nossa própria sociedade. Conta-nos uma informante entre os Zo’é (que pediu sigilo de sua identidade): “X morre de ciúmes de Y, mas se tem farinha na casa, é pra todo mundo. Ninguém briga aqui, nunca vi ninguém de mau humor. Quando um casal não quer ficar junto ele se separa, igual à gente, só que com menos confusão. Troca e pronto. E os filhos ficam cheios de irmãos, e cheios de pais e de mães, também.”. O termo Zo’é para conho (mas que é usado em muitos outros contextos) é amõ, que quer dizer “o meu outro”, “o meu igual”, ou “o meu irmão”.

Considerações finais

Após este exercício em torno do significado da palavra, talvez seja agora possível tentar compreender o modo como este nome significa, questionando-nos sobre a relevância da designação conho. Refletindo sobre o modo como temos construído nossas vivências amorosas, podemos transpor o campo das relações de parentesco por afinidade e deslocar a questão para um novo espaço de problemas: que tratamento costumamos dar a uma relação que justamente nasce do fim ou da falta? E que seja de um fim transitório, um fôlego, mas inegavelmente uma falta. Uma mulher, seu marido e seu amante. Um desejo que surge de qualquer coisa que se reconhece em um e outro, que seja um terceiro, um quarto, um mundo inteiro de gente pouco predestinada a amar pra sempre, mas muito mais propensa a ser fisgada por alguém com quem se afina, seja numa única canção ou num espetáculo inteiro, com muitos e muitos intervalos. Mas a cada intervalo, uma pausa, ou um fim.

Perguntamo-nos se o que nos paralisa é o medo do fim. E o que é o fim senão o início de um estado de coisas, de uma condição – refutável, porque nem sempre podemos ou queremos dar conta dela – em que temos de nos haver com nós mesmos, de nos haver com o que nos falta? Talvez por conta disso, calamos a existência do conho. Negando sua existência e sua importância, negamos a fragilidade do amor. O conho é alguém que existe no intervalo ou no fim. O conho, que só existe em relação a, representa ao mesmo tempo um passado e um presente, a falta e a presença, a paz e o pré. É o que faz sentido quando alguma dimensão do amor manca, pra dar lugar a outra, menos verbalizada, mais opaca.

O conho é o real do amor. Não é o que identifica pessoas no ponto cego em que relações passadas se alinhavam às atuais, em relações simultâneas ou mesmo imaginárias, mas é a identidade desse lugar de entremeio que atribuímos ao nosso próprio desejo, que não nos deixa esquecer de que o amor precisa respirar, pausar, ou mesmo morrer. Como escreveu Paulo Mendes Campos, “O amor acaba”. O amor acaba para nascer de novo. Aliás, para nascer outro, renovado, nos braços polivalentes do conho.

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