Boquetes e Bagrinhos no Caminho do Brasil

[José Eisenberg]

Boquete em presidente não derruba ninguém. Nem a primeira-dama. Marisa sabia disto desde o início e só pediu que o sujeito mantivesse a amiga do casal fora da comitiva presidencial. Era conselho da Hillary: comprar perfume pra outra em Paris, nem pensar.

Pior ainda é fazer marola lacerdista em cima da desgraça alheia. Sim. Porque em todo triângulo, não importa quão amoroso seja, rola uma desgraça. Três ângulos juntos, todos agudos (com tolerância para um obtuso), nunca foi boa ideia. O aparentemente digno de ser tratado como réu chama-se Vieira, não Lula. Não misturemos moluscos. O que o sapo barbudo, o Clinton, ou o DSK fazem com ou contra as diversas mulheres com que se relacionam, sabe-se lá com quanto de coerção ou consentimento, não é da conta de ninguém até que uma das partes reclame autoria ou ser vítima. E se desta vez a secretária em SP, e não uma estagiária da Salão Oval do Palácio do Alvorada, estava de gracinha com o Vieira e abusando do cargo que lhe foi atribuído em confiança, investiguem, processem. Contudo, como afirmou Marco Aurélio Nogueira em um post no Facebook, com a propriedade que lhe é usual, a Lula o que é de Lula. A Rose o que é de Rose.

O que ela e Lula faziam nas horas mais ou menos vagas do cotidiano presidencial não é da minha conta. Nem da sua. Para ser honesto, a fantasia não me arrepia nem um pelo do corpo. Agora o que a Rose fazia com o Vieira não era sexo. Cabe ao poder público apurar e me causa arrepios de repugnância imaginar o tipo de razões que justificam a Ilha dos Bagres para senador manauara e faculdade privada picareta no interior paulista. O problema é que a história não dá boa pauta. A corrupção que esta gente aparentemente transacionava é coisa de bagrinho. Até o esqueminha do publicitário mineiro parece esquemão diante disso. Cachoeira, o amigo do inimigo Demóstenes, e que a base do governo carinhosamente nos ajuda a esquecer, é dono de um estado, e ninguém quer saber mais nada sobre a sua vida. Mas a pauta não é bem esta, não é mesmo?

As insinuações na imprensa chegaram ao limite do absurdo. Consigo ver redações dos grandes jornais passando as tardes rindo e discutindo como pautar a amante do Lula sem falar disso com todas as letras. Um veículo chegou a publicar página inteira sobre a amante do Figueiredo. Nos noticiários televisivos, o número de sinônimos para falar da presumida intimidade entre o casal Rose e Lula é um barroco de redundâncias. Todo mundo fala hoje do “batom na cueca” do Lula, mas ninguém discute abertamente a questão.

 É claro que não. Ela não importa. O problema com o tal Rosegate (esta banalização do Watergate não tem limites…) é que todo mundo quer falar do que não deve, daquilo que não tem a menor importância, e para isso ocupa as páginas políticas do noticiário com insinuações que orbitam no esqueminha do Vieira. O judiciário cuide deste e da Rose, por favor. É da maior importância que sejam processados. Mesmo que sejam apenas os líderes de um esquema de bagrinhos. Mas deixa “o homem” descansar! Por oito anos a maioria dos brasileiros deixou ele trabalhar. A maioria, excluso eu, deixaria ele trabalhar por mais quatro anos agorinha mesmo. Porque não deixam ele descansar em paz? Seria por acaso esta a pauta? Eu preferia ele na rede. De dormir. É verdade que ele teima em levantar postes por aí. Cidadania ativa é isto. E quem pode, pode.

 O moralismo é moda novamente no Brasil. É moda em um Brasil jovem, com mobilidade social, que anseia por valores públicos que possa compartilhar. Desde a transição democrática, vivenciamos uma recorrente subtração da dimensão republicana dos nossos procedimentos democráticos. Acabamos de vivenciar a criminalização do voto quando deixamos um calendário judicial bizarro se sobrepor ao calendário eleitoral. Dizem que não deu em nada. Que o julgamento do mensalão não fez diferença. Não sei. Não tem como saber. Mas este moralismo cínico da política no Brasil já vem de longe e está indo longe demais. Tudo o que não precisamos é de uma juventude moralista e desapontada com os descaminhos da geração que a antecedeu. É triste perceber que o preço da nossa democracia tem sido, desde Tancredo, sacrificar a república e seus procedimentos. E é em chave paradoxalmente republicana que conclamo: Desculpe-nos, Marisa. Eles não sabem o que fazem. 

 

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