JUDEU PÃO DURO

[Joãozinho do Rio]

 eu acho que pode sacanear negro, gordo e maomé. eu acho que deve sacanear pobre, deve sacanear viado, deve sacanear tudo o que puder ser sacaneável nesse mundo, até a buceta da sua santa mãezinha. e prezo que isso seja feito publicamente. nada mais babaca e hipócrita do que o velho confinamento das opiniões e preconceitos aos círculos restritos da panelinha. aos sussurros. na mesa de jantar dos eruditos. no boteco da esquina. sinceramente, eu acho que tem que sacanear anão, tem que sacanear índio, tem que sacanear loura, padre e papagaio. particularmente, eu comeria até o feto.

eu não sou contra índio, contra negro, contra gordo. eu curto anões. eu curto até pobre. o que eu não curto, e o que eu sou contra, é a ingenuidade perniciosa da crença no banimento da opinião como forma de ‘vencer’ esses temas agudos. noutro dia eu li um texto muito, mas muito reacionário sobre índios. sobre o caso dos guarani-kaiowá, pra ser mais exato. o cara debochou de forma tórrida. me mijei de rir. o texto era muito bom. quase tão bom quanto escroto. acho que valeu a pena. e não me espantei ao ver um movimento na internet querendo denunciar o autor pra polícia federal. ‘calem esse imbecil’, foi o brado que mais me chamou atenção. diziam que era crime de ódio. estavam com ódio do autor.

na mesma semana pintou um artigo bisonho na revista veja sobre homossexuais, cabras e espinafre. a cara daqueles idiotas. mas acho que valeu a pena porque o artigo gerou um sem número de respostas. algumas humoradas, outras artísticas, várias militantes. uma vasta tipologia de manifestações. todas expunham ao ridículo, e com muita propriedade, as opiniões medievais do autor do texto. eu achei bom. e fiquei pensando: e se tivessem ‘calado o imbecil’ antes, teria sido melhor? gostei da revista veja bancar essa opinião ‘imprópria’. justamente porque, assim, é passível de ser desbancada com a profundidade que nunca foi o forte deste veículo de mídia impressa.

eu parto de um pressuposto: os imbecis devem falar. perante isso, cala quem quiser. na minha opinião não é proibindo piada de nordestino que o preconceito contra o nordestino diminui. o preconceito diminui quando o debate é aberto e as condições favorecem a que cada vez menos indivíduos achem graça de piadas desse tipo. porque o preconceito existe. e existe por razões complexas que jamais desaparecerão calando um imbecil qualquer.

pior é pensar em quem teria propriedade de ‘calar o imbecil’. porque aí vai ter que ter gente supostamente não-imbecil apta a declarar a imbecilidade alheia. nesse caso, uma ‘censura pedagógica’. até o josé serra é humano e tem sentimentos, porra. como pode um imbecil degradar com montagens de photoshop um homem que tem filhos, amigos, carreira pública? ah, eu sou um imbecil por achar isso? imbecil é você. não é você. não é você. não é você. tem algum não-imbecil pra arbitrar essa questão? e quando digo isso me refiro a alguém que nunca votou no psdb. ora bolas, já me confundi.

eu não acho que liberdade de expressão seja libertinagem de expressão. as pessoas são responsáveis pelo que falam. mas eu prefiro que falem. o que eu não prefiro é que a opinião continue sendo concebida, no brasil, como o quartinho de empregada do negro/pobre ‘quase como se fosse da família’.

 

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11 comentários sobre “JUDEU PÃO DURO

  1. Nesse discursinho de liberdade o que eu vejo é uma tremenda intolerância com as minorias. Não é pelo politicamente correto, mas achar que todo mundo pode falar o que quiser, não importa que sejam negros, “viados”, anões ou gordos é facismo.

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  2. Eu nem acho que é fascismo. Mas o texto confunde as coisas: “sacanear” não é o problema, ser “imbecil” não é o problema. Walter Navarro (o autor do texto sobre os Guarani) não está sendo execrado por ser imbecil. Ele é imbecil em público há anos, e ninguem prestava muita atenção. “Índio bom é índio morto” é outra coisa – crime de ódio, sim. O caso do sujeito lá da Veja é bem diferente: ele não disse que “gay bom é gay morto”, apenas expressou uma opinião que desagradou um monte de gente, que por sua vez expressou suas opiniões contra ele. Ninguém o denunciou por crime de ódio, e eu pelo menos não vi nada parecido com “calem o imbecil”. Ele tem liberdade de expressão. Nós, também. Criticar um artigo publicado é atentar contra a liberdade de expressão? E a minha liberdade de expressão?

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  3. mauro e fabio, obrigado pelo retorno.

    acho no mínimo forçoso dizer que a frase ‘índio bom é índio morto’ constituir discurso de ódio, sobretudo quando o texto do navarro claramente apelava para jocosidade do princípio ao fim de sua construção. talvez você goste mais de índio que de gay e tenha, por isso, considerado mais grave a frase do navarro que do guzzo. o irônico é que enquanto o texto sobre os guarani-kaiowá foi nitidamente um texto “sacana” – ainda que apelativo – o da revista veja foi escrito com alguma pretensão de seriedade. o que pesa mais na balança?

    finalmente, acredito que sua timeline do facebook não contemple todas as reações de todos os usuários. o “calem o imbecil” se deu na minha linha do tempo. sorte sua, azar o meu.

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  4. A intenção humorística não é uma licença para proclamações racistas. Não há, na lei ou no bom senso, uma ressalva para crimes de ódio cometidos com o objetivo de gerar hilaridade. Estou me lembrando de piadinhas a respeito de negros, muito em voga nos anos 90, que disseminavam francamente o ódio racial. Os nazistas faziam milhares de piadinhas sobre judeus. Imagino que, hoje, os sionistas as façam sobre os palestinos. Mas terá sido essa a intenção de Navarro? Bom, aí é uma questão de hermenêutica, uma discussão sem fim. O que ele disse se impõe, neste caso, sobre o que ele quis dizer.
    Não gosto mais de índio que de gay, nem o contrário. Tentei ser objetivo: Guzzo fez um texto lastimável, mas dentro dos limites da liberdade de expressão. Não é, de novo, uma questão de pretensão de seriedade – é uma questão do que você faz, não do que pretende fazer.
    Por fim, eu hoje tive uma saudável (sem jocosidade) discussão com alguns amigos na qual fui contra denunciar outro colunista (L. F. Pondé) por crimes de ódio contra os guarani-kaiowá. O texto dele tem pretensão de seriedade, mas não tem crime de ódio: https://www.facebook.com/luisroberto.depaula/posts/557266037633695?comment_id=117052375

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  5. aí é que tá, mauro. pra mim o texto do navarro também estava “dentro dos limites da liberdade de expressão”. quem arbitra a questão?

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  6. Quem arbitra é a lei, desde que dada por um Estado democrático, podendo ser democraticamente modificada. No nosso caso, a Lei 7716/89 (modificada pela 9459/97), que diz, em seu artigo 20:
    “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional
    Pena: reclusão de um a três anos e multa.”
    Este é, no marco da nossa discussão, o limite concreto para o exercício da liberdade de expressão
    O texto de Navarro, no mínimo, induz ao preconceito, enquadrando-se no artigo. Os de Guzzo e Pondé, não.
    É evidente que as leis são imperfeitas. Mas são, por agora, o recurso possível para que possamos viver sob regras comuns.
    (E não quero que Navarro vá em cana. Quero que não publique textos racistas).

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  7. eu não interpretei nenhum dos textos como prática, indução ou incitação à discriminação ou preconceito. talvez um juiz sim, quem sabe outro não. a importância da liberdade de expressão está justamente aí. para evitar que cada indivíduo isoladamente ou em grupo passe a legislar e a enquadrar subjetivamente o que lhe desagrada como “crime de ódio”.

    seu avatar, se não me engano, vem de um desenho americano chamado “family guy”, que não poupa minorias, nem maiorias. no brasil, tomando você como exemplo, seria impossível a existência da série. assim como “south park”, “american dad” e até mesmo “simpsons”. acho uma tremenda hipocrisia.

    mas de qualquer forma, agradeço pelo debate. a motivação do texto foi essa mesmo.

    abração!

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  8. Pelo seu raciocínio, não poderíamos ter nenhuma lei. Toda lei é interpretada pelo juiz. Por isso não condenamos Navarro: apenas denunciamos. Os juízes dirão se ele merece ser condenado.
    No dia em que qualquer um desses desenhos disser que negro (gay-índio-mulher etc.) bom é negro (gay-índio-mulher etc.) morto, ele também não será possível nos EUA.
    Hipocrisia existe de muitas formas. Uma delas é achar que quem se manifesta pelo jornal exerce a liberdade de expressão, mas que quem critica essa manifestação ataca essa mesma liberdade.
    Abração.

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  9. Caros João, Fábio e Mauro, darei uns Pittacos na conversa. Há dois elementos distintos nessa discussão. O primeiro concerne falar sobre as diferenças entre as pessoas de forma aberta. Um surdo é um surdo e como Surdo deve ser chamado porque assim a comunidade dos Surdos assim o proclama. O mesmo vale para os deficientes físicos, surdos e anões. O uso de expressões supostamente “brandas” como deficiente auditivo e visual, por exemplo, não condiz com a realidade sensitiva dessas pessoas e não é usada por esses grupos humanos. (As diferenças comportamentais, de crença e semelhantes configuram outras categorias sociais cujas variações notacionais têm outro valor.) Continuo: falar sobre as dificuldades que temos todos em nos relacionar linguística e socialmente com essas diferenças deve ser enfrentada. Nesse sentido, creio que João está certo. Falemos, perguntemo-nos e, sobretudo, perguntemos a essas pessoas, que interessantemente organizam importantes movimentos associativos e afirmativos, como deve ser “falado”, o que deve ser “falado”, e porque deve ser “falado”. Agora, essa fala tem valor se for instrutiva, ilustrativa e aproximativa. Digo isso de experiência profissional e pessoal. Meu convívio com os colegasd professores surdos e com os cegos torna-se cada vez mais “normal” quando me sinto mais à vontade para perguntar, comentar, questionar, criticar e aprender sobre suas práticas e valores ligados à deficiência que têm. Romper com a insegurança da pergunta e do contato aproxima as pessoas sejam elas mais ou menos diferentes de nós mesmos. Por outro lado, “falar” sobre os grupos minoritários, segregados e esteticamente desconsiderados de forma agressiva e “aguda” (uso aqui o termo proposto pelo João) gera o efeito contrário. As pessoas se isolam e ficam mais diferente ainda. Vejam, se é previsto em lei algo como a condenação dessa forma de expressão, esse é um outro ponto, mas teremos ganhos sociais e pessoais se os comentários forem diretos, ok, mas respeitosos e aproximativos. O caso citado artigo do W. Navarro é indicação disso. Se o dito-cujo tivesse proposto sua opinião sobre as manifestações no Facebook de forma republicana, poderia até ter gerado um bom efeito de reflexão e discussão pública. Mas não era isso que ele desejava. O que ele queria, e deu certo, foi afirmar sua suposta inteligência social que o torna livre para “falar” o que é certo, direto, preciso e moral sem se preocupar com o julgamento dos outros.

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  10. Não entendi aquela parte em que você diz que todo imbecil tem direito a dizer o que quiser e em seguida defende a ideia de que quem diz “calem esse imbecil” deve ser impedido de falar. Você poderia explicar melhor? Também acho que você poderia deixar mais explícito que, dentro dos limites lógicos do argumento do texto, todas as pessoas que criticam gente que diz “Morte aos anões” mas não defendem a censura (censura no sentido de impedir que falem) aos entusiastas do androminicídio não entram no espectro de censura (censura no sentido de crítica negativa) do seu texto. Ou será que fui eu que não entendi? Você poderia explicar melhor? Outra coisa que eu não entendi é se uma campanha para pedir a demissão de um profissional que não agrada os clientes pode ser considerada como censura. Tipo assim, como se fosse um equivalente da censura nos tempos da ditadura. Você poderia explicar melhor?

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