Gramática e uso linguístico: Brasil, França, lei, bobice + algumas coisas

                [Pedro Perini-Santos]

 Já lá se vão alguns anos que a agenda de discussões sobre o uso da língua de acordo com padrões normativos ou espontâneos é marcada por uma sangrenta oposição entre os gramáticos reacionários e os linguistas. Textos, artigos, livros e debates calorosos costumam chegar às mesmas asserções. Por um lado, defende-se o padrão conservador, porque sem ele perderemos nossa secular identidade cultural; por outro, sustenta-se que a ocorrência das variações do uso vernacular, porque assim é a prática linguística e nada contra isso, se é que algo deve ser feito, surte o efeito suposto pelos primeiros.

Com uma fortíssima tintura de agressividade, os defensores da pura e última Flor do Lácio defendem que o português de hoje não é tão bom como era o português de ontem. Daí, pipocam comentários tipo-net contra a escola dos dias de hoje, que nem boba dá, contra a internet, esse vício de gente jovem, e contra os pobres, que têm celular, vão ao shopping, mas não têm modos. Abre-se assim uma lamuriante explicação sobre o fracasso gramatical do século 21 que será coroada com a sofrida exaltação de como eram bons aqueles tempos. Claro, propaga-se solução em tom semelhante: que voltem para a sala de aula as mesmas estratégias de ensino e os mesmos conceitos de quando entrei no Estadual.

É dentro desse cenário de desconhecimento, preconceito e bobice*  que se encaixa o projeto de lei n. 1.983, rabiscada pelo agora prefeito eleito de Juiz de Fora, Bruno Siqueira. Gostaria de propor alguns comentários pontuais sobre o tema.

Sobre a lei

Tosca. (Sugiro novamente a leitura do ótimo artigo do cientista político e amigo da UFMG Fernando Filgueiras, acessível pelo link (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-bobice-paira-entre-nois/).

 

Sobre a variação no uso linguístico.

Referindo-se à língua francesa, Shana Poplack e Nathalie Dion (Language, 85(3), 2009) relatam que o início do uso de gramáticas prescritivas, aquelas que falam o que é certo e o que é errado, data do século 14. Desde então, o que ocorre é que uma forma de falar é julgada certa e as outras, por oposição, erradas. A escolha não tem nada a ver com a qualidade, a exatidão ou a coerência da forma utilizada. É apenas uma escolha. A forma sintética do futuro como em (1) Viajarei amanhã divide espaço com a realização analítica do futuro, (2) Vou viajar amanhã, com o chamado presente-futuro (3) Viajo amanhã. Nas gramáticas prescritivas, apenas a primeira é classificada como correta. As outras são julgadas como inabilidade gramatical, como falta de conhecimento ou simplesmente não são citadas no rol de possibilidades de expressão. Bonjour tout le monde! As três opções continuam a ser usadas pelos falantes do francês. Ou seja, sete séculos de murrinha não deram certo. Se se levar adiante a proposta de que no passado – seja lá o que isso queria dizer – o uso gramatical era mais correto, teríamos que negar o período bastante… extenso, diria. A mesma ideia vale para o português, para o inglês e para quase todas as línguas. Aryon Dall’Igna Rodrigues, Dante  Lucchesi, Mário Perini, Sírio Possenti e nosso Marcos McWhorter Bagno falam desse troço há tempos e textos.

Sobre a habilidade linguística  

O que me parece importante é pensar que pode haver de fato uma falta de habilidade linguística na população mais vulnerável, especificamente quando se trata de famílias monoparentais pobres. Uma parte significativa da população dos grandes centros urbanos mora em casas ou apartamentos onde reina o ruído urbano, fazendo com que possibilidade de convívio comunicativo agradável se torne reduzida. Para as crianças e adolescentes desenvolvam sua capacidade de comunicação – portanto, de linguagem – o diálogo afetivo é essencial. Se não houver diálogo entre irmãos, entre colegas e, sobretudo, entre filhos e pais, não me parece estranho falar em uma falta de habilidade linguística. Nesse sentido, o dito erro gramatical, o desvio da norma escolar, é absolutamente irrelevante e inócuo como argumento sobre a dificuldade escolar. Não será a limitação do tipo de texto a ser usado na escola, como sugere o prefeito Brunão, que resultará em mudanças na fala, na escrita e no resultado escolar. Ironicamente, a candidata petista derrotada pelo prefeito é a linguista Margarida Salomão, cujo trabalho acadêmico é um dos melhores do Brasil; sem dúvida.

Nota final    

Marcos Bagno e John McWhorter desenvolvem pesquisas com um certo e interessante tom iconoclasta sobre a evolução das respectivas línguas nativas. O que chama a atenção em seus textos é a leitura detalhada sobre os processos históricos e sociais nos quais o inglês e o português se estabeleceram como línguas nacionais.

“É isso.” (Pasquale Cipro Neto)

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