Artistas de 30 Mil Anos

 [Alicia Ivanissevich]

Uma dica de um amigo em conversa corriqueira resultou em uma noite de êxtase. Antes de que a sugestão seja relacionada a algum tipo de prazer carnal, apresso-me a esclarecer a causa do entusiasmo. Há algumas semanas me foi recomendado assistir a um documentário de Werner Herzog, de 2010, sobre a caverna de Chauvet. Pode parecer pouco palpitante, mas trata-se da gruta que abriga as pinturas rupestres mais antigas já encontradas. Se a idade das imagens impressiona – têm 32 mil anos –, sua beleza é ainda mais arrebatadora.

A caverna foi descoberta perto da cidade de Vallon-Pon-d’Arc, no sul da França, pelos espeleólogos Jean-Marie Chauvet, Christian Hillaire e Eliette Brunel-Deschamps na véspera do Natal de 1994. Eles exploravam a região de Ardèche, conhecida por sua importância geológica e arqueológica, quando Chauvet sentiu vapores vindos de uma fenda profunda. Ao descer amarrado por cordas pela estreita passagem, encontrou uma cavidade maior repleta de fósseis de animais, alguns deles já extintos. Mais adiante, um cenário espetacular: centenas de pinturas rupestres extremamente bem conservadas e de uma estética ímpar.

Um dos tesouros mais valiosos da humanidade, a caverna de Chauvet, como foi batizada em homenagem ao seu descobridor, não está aberta à visitação: a contaminação por bactérias, fungos e outros micro-organismos acabaria por deteriorar o ambiente e arrasaria o patrimônio artístico e arqueológico. A entrada só é liberada a cientistas e ainda assim com severas restrições.

Nós, pobres mortais, não teríamos a oportunidade de conhecer esse legado não fosse a obra do cineasta alemão. Dezesseis anos depois da descoberta, Herzog obteve a permissão das autoridades francesas para filmar, sob rígidas condições, o interior da caverna. Com equipe muito reduzida, iluminação especial e usando tecnologia 3D, conseguiu produzir um documentário impactante.

A caverna dos sonhos esquecidos reconstrói a história da descoberta do local. Com narração do próprio Herzog, o filme é permeado de entrevistas com especialistas em arqueologia, antropologia, geologia e história da arte. As interpretações enriquecem as imagens — poderosas em si — e buscam responder interrogações antigas.

Os estudiosos acreditam que a caverna foi naturalmente preservada por milhares de anos porque um deslizamento de terra ou pedras teria fechado e ocultado a entrada principal. Na avaliação dos especialistas, a gruta não teria sido usada como moradia, mas para rituais e cerimônias, uma vez que nenhum esqueleto humano foi encontrado, embora tenham sido identificados traços de carvão, associados ao uso de tochas para iluminar o interior.

O melhor desse passeio histórico-cinematográfico são de fato as pinturas. Uma série de cavalos encanta pela precisão do desenho e profusão de detalhes. Há sombras ao longo do nariz e do lombo; círculos mais claros em volta dos olhos; orelhas muito bem delineadas, crinas exuberantes. Tudo em perfeita proporção. O próprio relevo da pedra é aproveitado para criar a ilusão de profundidade.

Leões, bisões, aves, rinocerontes, ursos… A variedade de animais retratados na caverna é grande, e a harmonia das gravuras comove. Alguns deles apresentam oito patas sobrepostas, para dar a ideia de movimento. Impensável para a época em foram pintados. Nem os antigos egípcios – civilização que viveu há pouco mais de cinco mil anos — tinham boas noções de perspectiva…

Curiosamente, não há pinturas de pessoas. Mas há diversas impressões vermelhas de uma mão que se distribuem pela caverna. O dedo mindinho torto indica tratar-se de um mesmo homem.

É interessante lembrar que o Homo sapiens chegou a conviver com espécies humanas não-modernas, como os neandertais, que teriam desaparecido da Terra por volta de 28 mil anos atrás. As línguas teriam surgido há cerca de 10 mil anos. E muitas das pinturas da gruta de Chauvet têm mais de 30 milênios!

Filme, caverna, fósseis e pinturas são simplesmente magníficos. Imperdíveis.

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