Índios, Pra Que Te Querem?

[Thiago Tito]

Índio no Brasil sempre foi tido como a barbárie. Desde o sem rei, sem lei, sem fé fundador, (des)caminha o espetáculo da conformação populacional da sociedade tropical. “Índio” é termo horroroso, nascido do engano, inventado por aquele que ignorava seu pouso, utilizado para inscrever, inventar e distinguir o que sequer compreendia. A força física, intelectual, estratégica, sexual e analítica, porém, supera qualquer erro de lógica. Ao menos o desloca. O erro ficou no dicionário e fora dele. Foram-se trezentos anos. Cantou-se a liberdade e voltou-se para o erro que ficou, voltou-se para o índio. Processos paralelos: um procura pela identidade indígena, antropologia, etnologia, romantismo, IHGB, três raças formadoras; outro, Expansão econômica, desenvolvimento técnico, Nova Filadélfia, índios mortos a torto e a direito.

Bando de ideias novas, ainda nos oitocentos, chega de romantismo. Agora é ciência, positivismo, evolucionismo, Museu Nacional. Botocudos em gaiolas, fazendas a perder de vista. Mentira de Alencar, o autóctone é fraco, franzino, parece que não come direito, o crânio é mal formado. A raça é fraca e degenerada, tende  ao desaparecimento mesmo. Elemento atávico que deverá prejudicar para sempre. Melhor trazer logo os galegos, antes que a coisa fique perdida, quem sabe em trezentos anos a raça se consolida. Com índio não se faz república, mas por onde eles andam?  Terão já desaparecido? Não, morrer se necessário, matar nunca! Sentimento de meia culpa, Roquete Pinto, não são inferiores, são diferentes, melhor deixar eles por lá, jamais irão se civilizar.

1922! Quanto barulho! Só assim para tão pouca gente ser escutada. E daí? Tem algum índio aí? Ah, somos todos índios! Voltemos ao original, manifestemos por nosso caráter, cantemos quem somos de verdade de mentirinha. Somos, cara pálida? Verde Amarelo: o índio é um bem subjetivo, sua contribuição já foi dada, ficará no sangue, na alma, no amor, na cordialidade, o índio sobrevive. Subjetivamente. Objetivamente, não. Cantemos a Antropofagia. Esta sim! A única filosofia nascida sob este país continental. Quanta originalidade. Índio, pelado, tupi, antropofagia nos une! Revolução Caraíba! Que diabos é Caraíba? A planta ou a nação das Antilhas ou o “homem branco” das revistinhas do Maurício de Souza? Que importa? Tupi or not tupi? A ideia é boa, funciona, vai fazer o maior sucesso. Somos todos tupi. E como tupi, somos todos nada, outro erro que ficou. Erro em cima de erro. Será que dá um acerto?

Mas isso é uma retrospectiva? Vai passar no Fantástico? Ah! Que chato! Detesto retrospectiva. Marcha pro Oeste. Yeah, virou bang-bang. Pouco antes, inventou-se o dia do índio. Expansão de fronteira agrícola, colonização do século XX, terra para ser ocupada. Não há nada aí, só índio. Tinha. Tem. Tinha. Tem. Dia para se lembrar do índio. FUNAI. Brasil Grande. Agronegócio, hidrelétricas, eldorado, transa amazônica, Iracema está à beira da estrada, à espera de um caminhão da Volkswagen. A Amazônia é da Volks, da nação que fala alemão. E de muitas outras que não falam português. Muito menos tupi, que é errado. Macunaíma nos 60 tá no meio de luta armada. Índio não sabe onde se mete. E esse Macunaíma era índio? Ainda somos todos tupi.  Como era gostoso nosso cinema.

Índio virou deputado. Mas índio ainda existe? Que insistência! Dia pra se lembrar do índio. Ainda bem que a ditadura acabou e junto com ela aquela maluquice toda. A luta armada venceu. Macunaíma fez luta armada, não é possível que não irá por ordem nisso aí. Índio vai deixar de ser índio finalmente. Vai virar Ianomami igual ao português. Vai virar Aicanãs igual às alemãs. Vai virar guarani igual aos chineses. Vai virar Maxacali igual aos angolanos. A luta armada venceu, a ditadura caiu. Macunaíma fez luta armada, foi torturada, mas venceu. Agora é o oposto, é o outro. A maluquice acabou. O lugar não é mais a vala. Nem, o destino, a bala que não erra pela terra do índio, de ninguém. A maluquice acabou.  Acabou? Então por que Kaiowá vira nada?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s