O Futuro do Livro e da Tradução no Velho Continente: Entrevista com Quentin Skinner

[Rose Ferreira]

No dia 18 de junho deste ano, o filósofo e historiador das idéias Quentin Skinner recebeu a Revista Pittacos em sua casa para uma entrevista exclusiva. Com diversos livros traduzidos e publicados no Brasil, o Prof. Skinner é um dos mais importantes historiadores das idéias políticas de nossos tempos, e estará no Brasil para um tour de palestras em outubro deste ano. Nesta entrevista, conduzida pela pesquisadora Rose Ferreira, Skinner aborda três assuntos pautados pela Revista Pittacos: livros e seu futuro, tradução e a experiência de ser traduzido, e a crise na Europa.

1. Livros

PITTACOS: Esta entrevista está sendo realizada para Pittacos, revista de cultura e humanidades. Eu sou Rose Ferreira e vou conversar com o professor Skinner sobre suas opiniões e experiências como escritor acadêmico. – Boa noite, professor Skinner!

SKINNER:  Olá!

PITTACOS: Vamos começar com um assunto genérico: livros. Quando olhamos sua lista de publicações, encontramos principalmente livros nela, ao invés de artigos. Há alguma razão especial para isso?

SKINNER: Bem, eu menciono somente livros em meu curriculum vitae simplesmente por uma questão de espaço… Na verdade, escrevo mais artigos. Suponho que talvez tenha escrito uns 100 ou mais e reunido uns trinta deles num livro chamado Visions of Politics, que é uma coletânea em 3 volumes com alguns dos meus  escritos. Escrevi vários livros, mas tendo a preferir produzir em forma de artigos, tomar alguma questão particular, trabalhar o tópico e tentar chegar a algumas conclusões. Então… é uma impressão um pouco enganosa a que se extrai do curriculum vitae.

PITTACOS: De fato! Mas, enfim, o senhor escreveu livros…

SKINNER: Escrevi… Quantos foram mesmo? Creio que 12.

PITTACOS: 12 livros. Quantos artigos?

SKINNER: Não sei, talvez uns 100, mais ou menos.

PITTACOS: De qualquer forma, é bastante.

SKINNER: É o meu trabalho.

PITTACOS: O senhor é um escritor de livros, certo?

SKINNER: Sim! (risos). Um escritor de livros.

PITTACOS: Como o senhor prevê o futuro dos livros numa era de moderna comunicação em mídia eletrônica e digital?

SKINNER: Bem, penso que se estamos falando do futuro do livro, temos que nos perguntar que tipo de livro temos em mente. Creio que o futuro dos livros acadêmicos será algo diferente, por exemplo, dos livros de ficção. Me pergunto quão promissor será o futuro dos romances numa era eletrônica. Isto pode ser geracional… haverá uma geração de pessoas que sempre vai preferir comprar livros. Talvez desapareça, talvez seja já uma velha geração, mas é verdade que as pessoas preferem ter livros, mesmo de romances e poesia, numa forma permanente, a qual elas podem voltar, reler, consultar etc. Por outro lado, estou muito impressionado com esta invenção do Kindle, porque as pessoas estão, realmente, começando a ler romances online. Isto começou a ser uma feição relevante do hábito de leitura nesse país somente nos últimos 3 ou 4 anos, mas, realmente, está crescendo. Você pode ver no metrô de Londres a toda hora, pessoas sentadas, lendo no Kindle. Entretanto, se estamos falando sobre livros acadêmicos, penso que pode ser algo diferente. É difícil dizer agora qual será o futuro do livro acadêmico. Mas não vão acabar tão cedo; penso que estudantes, por exemplo, preferem ter livros em mãos quando vão a seminários. Se você está discutindo um texto específico com várias pessoas, elas preferem tê-lo em forma encadernada. Talvez isto aconteça devido à maneira em que fomos educados, mas, por ora, me parece que as pessoas preferem ter acesso a alguma forma de cópia impressa, mesmo dos trabalhos que encontram na internet, para que possam fazer anotações e voltar ao texto. Mas não podemos ter certeza, não é mesmo? Uma nova geração de pessoas pode achar tudo isso completamente estranho.

PITTACOS: Você gosta de ir ao cinema?

SKINNER: Sim.

PITTACOS: O que o senhor pensa sobre pessoas sendo bombardeadas por imagens, ao invés de fazerem o esforço de enfrentar uma literatura densa, como, por exemplo, os 3 volumes e as mais de mil páginas de Vision of Politics?

SKINNER: (risos) Bem, eu gosto de assistir filmes, mas, confesso que não consigo pensar no cinema como um receptáculo para grandes verdades morais como as que tradicionalmente foram produzidas no romance e na poesia em nossa cultura, embora eu veja que existem muitos filmes sérios também.  Imagens obviamente têm um poder especial, não é verdade? Se forem belas, principalmente, ela podem produzir efeitos emocionais muito mais poderosos do que palavras. Imagens são também bons meios de resumir argumentos, e todos nós aprendemos com o jornalismo televisivo que uma única imagem pode ser imensamente mais poderosa do que qualquer descrição. Tudo isso sugere que imagens possuem uma força particular e, numa cultura tão acostumada ao cinema e à televisão, elas são muito mais poderosas do que a palavra impressa. Mas se você quer desenvolver argumentos, você tem que usar palavras! Se vai desenvolver um argumento político com implicações filosóficas, você não poderá confiar em imagens. Elas podem apenas ilustrar seu argumento.

PITTACOS: Quer dizer que o senhor não crê que haja uma oposição entre estas duas coisas?

SKINNER: Não, penso que há sim. Mas creio que frequentemente acontece de as imagens serem usadas para aprofundar o poder das palavras. É o que se vê, por exemplo, o tempo todo na televisão. Pense, por exemplo, numa reportagem sobre uma enchente, uma grande fome ou qualquer outro desastre natural – você escuta alguém falar sobre o evento, e depois vê as imagens. Imagens não são meras ilustrações, elas são sua própria fonte de força emocional, assim como ilustrações.

PITTACOS: Então elas não representam especial  risco para os livros…

SKINNER: Bem, muitos livros contém imagens… Não quero estabelecer uma oposição entre palavras e imagens. Obviamente, o poder de ambas depende da finalidade de seu uso. Seria absurdo apoiar-se em imagens quando se pode apoiar em palavras. Argumentos só podem ser desenvolvidos em palavras.

PITTACOS:  O que o senhor pensa sobre esta mudança de expressão no mundo virtual – redes sociais como Twitter e Facebook?

SKINNER: Eu acho que toda essa nova mídia ajuda no processo de autoconstrução das pessoas, uma vez que possibilita a troca de visões de mundo, e isto edifica a todos nós. Dessa forma, embora eu não seja membro de nenhuma rede social e não use o Twitter, sou capaz de imaginar que minha vida seria enriquecida se o fizesse, porque essas mídias são simplesmente outros meios através dos quais as pessoas continuam a trocar informações.

PITTACOS: E por que o senhor não participa, então?

SKINNER: Participar do que, do Facebook, por exemplo? Creio que o Facebook é geracional. Seria bastante incomum para alguém da minha idade estar nele. Pessoas da minha idade pensam nisso como algo que seus filhos fazem. Meus filhos, quando mais novos,  estavam ambos no Facebook, e o que me impressiona é que, agora que já estão na casa dos trinta, eles não têm mais tempo para isso. Eles têm amigos reais ao invés de amigos virtuais e preferem gastar seu tempo com eles, não com suas fotografias. Eles simplesmente não tem tempo para acompanhar o Facebook. Eu acho que o mesmo vale para pessoas da minha geração: nós somos ocupados, e essa é uma técnica completamente inédita de apresentação de si e de uso do tempo livre – que, talvez para a nossa perda, não aprendemos a dominar. Você está no Twitter?

PITTACOS:  Não, no Twitter, não.

SKINNER: Mas você está no Facebook? Sim? Todos da sua idade estão no Facebook…

2. Skinner fora de contexto lingüístico

PITTACOS: Falemos sobre tradução. Não tenho informações quanto aos artigos, mas quase todos os seus livros foram traduzidos em outras línguas…

SKINNER: Sim, creio que todos.

PITTACOS: Qual é a sua relação com esse  público fora do mundo anglófono?

SKINNER: Tenho sempre muito orgulho, é claro, de ser traduzido, porque isto significa que meu trabalho está sendo mais amplamente conhecido. Por exemplo, a maior parte do meu trabalho está agora em mandarim, que não é uma língua remota no sentido de ser pequena – obviamente, é gigantesca –, mas no sentido de que não consigo sequer começar a imaginar o que seria lê-la. Já meus livros publicados em português, às vezes tenho a impressão de entender um pouco, porque leio em italiano sem dificuldades e também um pouco de espanhol. O que eu basicamente sinto é que é ótimo saber que meus livros são amplamente lidos, mas não tenho qualquer relação com esse público. A não ser que leitores me escrevam, em inglês ou qualquer outra língua que eu acompanhe, o que acontece com muita freqüência. Aí me parece muito importante responder – parece-me ser esse um público a que se deve muito respeito.

PITTACOS: O senhor lê traduções?

SKINNER: Sim, leio traduções. Quer dizer, leio muitos romances traduzidos.

PITTACOS: E de livros acadêmicos?

SKINNER: Leio traduções se não conseguir ler na língua original. Quero dizer, eu não conheço muitas línguas, mas se o livro estiver em francês ou italiano, leio com facilidade, se estiver em alemão também consigo acompanhar, e em Inglês leio sem nenhuma dificuldade. Mas fora destas línguas, eu dependo de traduções.

PITTACOS: E como você se sente com relação a isso?

SKINNER: O que eu sinto, o que sempre sinto em relação a traduções, é que com certeza eu devo estar perdendo bastante.

PITTACOS: E quanto às traduções de seus próprios livros, o senhor acha que tem sido mal-interpretado ?

SKINNER: Bem, eu creio que eles são traduzidos com diferentes níveis de competência. Posso falar de minha experiência nas línguas que acompanho. Por exemplo, as traduções francesas de meus livros são muito bonitas, isto eu posso te assegurar. Uma tradução recente de um livro meu em italiano me pareceu muito boa, e muitos de meus amigos italianos me disseram que estava excepcional. Então, sim, existem muito bons tradutores. Mas algo sempre se perde em  traduções, não é verdade?

PITTACOS: Isso nos leva à nossa próxima questão: ideias em contextos. Qual é o sentimento de ler a si próprio fora de seu contexto lingüístico? O senhor já teve esta experiência?

SKINNER: Sim, já tive bastante. É uma experiência muito estranha, ouvir suas próprias palavras numa forma diferente. Mas algumas dessas línguas são, na minha opinião, muito mais bonitas do que o inglês.

PITTACOS: Mas o senhor consegue se reconhecer?

SKINNER: Ah sim, com certeza. Posso tranquilamente escutar o meu inglês por trás do italiano, do francês e do alemão, definitivamente sim.

PITTACOS: O senhor já leu alguma tradução para o português?

SKINNER: O português é complicado… Não é de modo algum uma língua fácil. Se você sabe algo de latim, como eu sei, pode facilmente entender um pouco de espanhol e italiano, mesmo que não tenha aprendido tais línguas. Mas o português parece mais difícil. Comparado com o espanhol, é muito mais difícil de se entender quando falado.

PITTACOS: O senhor já esteve no Brasil, ou esta será a primeira vez?

SKINNER: Nunca fui ao Brasil. Estarei indo em outubro, por duas semanas, e estou bastante ansioso. Fiquei muito feliz por ter sido convidado. Não sei se os estudantes terão dificuldades em acompanhar o meu inglês. Mas os meus colegas brasileiros, e outras pessoas com as quais me correspondo, todos escrevem excelentemente bem em inglês. Isso é extraordinário.

 

3. Skinner fala sobre a Europa

PITTACOS: Vamos mudar um pouco de assunto e falar de um conceito… Digamos,  Europa. Será Europa um conceito ainda unitário, ou uma unidade conceitualmente válida? O que o senhor pensa sobre isso?

SKINNER: Não creio que a Europa alguma vez tenha sido uma unidade.

PITTACOS: Nem mesmo enquanto conceito?

SKINNER: Não. A questão “O que constitui a Europa?” nunca foi resolvida. Por exemplo, a Rússia é parte da Europa? Isto nunca foi decidido. A Turquia é parte da Europa? Isso jamais foi resolvido. O Reino Unido é parte da Europa? Eis aí uma grande questão. Não sabemos ao certo quão grande é a Europa.  Falamos da Europa Ocidental e Oriental como se fossem tipos diferentes de Europa. Então creio que é muito difícil ver este subcontinente como sendo unificado do mesmo modo que enxergamos outros subcontinentes unificados, a Índia, por exemplo. Não encontramos  qualquer dificuldade em dizer se a Índia é a Índia. Mas no caso do subcontinente europeu, nunca houve qualquer tipo de unidade. Uma das razões para isso é o grande número de línguas, que nem sempre tiveram qualquer tipo de comunicação entre si, muito freqüentemente se  fragmentando em pequenos grupos de base linguística.

PITTACOS: Como o senhor analisa a atual situação da Europa, à luz de sua história? Há alguma circularidade?

SKINNER: Penso que o que a Europa está vivendo agora é uma crise que se estende ao longo de sua história recente. Me parece que uma maneira de pensar a Segunda Guerra Mundial é que, dentre outras coisas, ela foi uma gigantesca guerra civil na Europa. Todas as nações europeias foram  envolvidas.  Terminada a Guerra, rapidamente se tornou claro, especialmente com Konrad Andenauer como chanceler da Alemanha, que aquilo não poderia voltar a acontecer e que  deveria ser da mais alta prioridade possível evitar a guerra na Europa. Porque se pensarmos sobre a primeira metade do século XX, na Europa ela foi marcada por duas guerras colossais e destrutivas. Assim, o projeto se tornou o de tentar assegurar  a paz entre as nações europeias, e veio a se pensar que a melhor maneira de fazer isso seria produzir federações. Começou-se obviamente como federação mercantil: a “Comunidade do Carvão e do Aço” e o tratado de Roma foram instrumentos econômicos. Depois acabou por se tornar uma tentativa de unificar a Europa culturalmente, e mesmo politicamente. Mas isto está provando ser muito difícil de alcançar, e quando a moeda única começou a ser adotada no vasto território europeu, começaram a surgir as grandes dificuldades que agora observamos. Um dos problemas da Europa enquanto extensa área geográfica é a moeda única. Considere os federalismos bem sucedidos, como o dos Estados Unidos e da Austrália. Uma razão para esse sucesso, no caso dos Estados Unidos, que conheço melhor, é, sem dúvida, a cobrança centralizada de impostos. Não existe qualquer cobrança centralizada de impostos na Europa, e é só desta forma que se poderia ajudar países periféricos em dificuldades. Assim, por exemplo, se um grande desastre natural se abate sobre o Mississípi, os custos de reparo da infraestrutura são  divididos entre os governos central e local. Boa parte dos impostos nos Estados Unidos são federais, mas quase nenhum imposto europeu é assim. Logo, na Europa não há meios centrais de ajudar a periferia. Isso é algo que estamos tentando resolver no momento, mas que não pode ser feito da noite para o dia.

PITTACOS: As identidades nacionais/regionais são um obstáculos para a unificação?

SKINNER: Creio que tornaram-se um obstáculo maior do que esperávamos. E com a crise do Euro se aprofundando estamos assistindo a re-emergência de poderosos Estados-Nação com as auto-identificações do povo como sendo os franceses,  os alemães, os gregos, os italianos, os espanhóis e assim por diante. O nível de hostilidade também aumentou: gregos culpam alemães, alemães culpam gregos. Então percebo que houve um escorregão de volta às unidades nacionais, porque os bancos, é claro, são nacionais, e uma grande parcela do problema é bancário.

PITTACOS: Se o senhor tivesse que recomendar um mesmo livro para os três maiores líderes europeus – Angela Merkel, François Holland e David Cameron –, qual seria?

SKINNER: (risos)Primeiro, é preciso dizer que nunca há algo como um único livro sobre qualquer assunto, como bem sabemos nós acadêmicos. Sempre me perguntam: “Que livro devo ler sobre a Primeira Guerra, que livro devo ler sobre Maquiavel?”. Nunca há uma boa resposta para isso. Sempre haverá um enorme quantidade de diferentes livros e todos terão algo a dizer. Uma segunda questão sobre sua pergunta é: será este livro para Mrs Merkel, Monsieur Holland e Mr. Cameron destinado a edificá-los, ou a facilitar seus trabalhos? Porque se objetivo é a edificação, então creio que eles deveriam ler romances, de preferência os russos. Mas se o objetivo é ajudá-los  a desempenhar seu trabalho, então talvez… Que tal A Teoria Geral, de John Maynard Keynes? “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, no qual ele argumenta que os níveis de emprego não são determinados pelo custo do trabalho, mas pela demanda agregada. A recessão é causada pela demanda inadequada, e a maneira de sair da recessão é gastando. Portanto, se você está lidando com uma economia em recessão e altamente endividada, poderá ficar inclinado a pensar que, acima de tudo, deve reduzir a dívida. É muito interessante como a teoria de Keynes diria que este seria um erro terrível.

PITTACOS: Professor Skinner, muito obrigada por esta entrevista. Esperamos que faça uma excelente viagem ao Brasil.

SKINNER: Foi ótimo conhecer você.

 

 

Tradução: Antonio Engelke, Revisão: Rose Ferreira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s