Viveremos e Venceremos

Uma visita à capital sulamericana do socialismo.

[Mayra Goulart]

Finalmente chego em Caracas, após uma epopeia de ilógicas escalas por vários países da região. Sou recebida por um imenso cartaz das Forças Armadas venezuelanas, cujos atípicos dizeres determinam minha primeira impressão nessa incursão pela “nação partida*”: Independencia y patria socialista. Viveremos y venceremos!

Na manhã seguinte, caminho pela cidade e confirmo que esta não seria uma impressão isolada. São inúmeros os cartazes de propaganda governamental e, em quase todos eles, aparece o termo socialismo sem a exótica adjetivação a respeito do “século XXI”, que acompanha a maioria das análises sobre o modelo bolivariano. A remissão ao herói da independência, ao contrário, é recorrente em diversos lugares, sobretudo no centro, onde se concentram a maioria dos monumentos históricos de Caracas. Em geral é ressaltada a ideia de continuidade entre o atual governo de Hugo Chávez e o projeto emancipador de Simon Bolívar. Em especial, vale mencionar a placa de inauguração do museu bolivariano, antigo Museu Nacional, que explicita seus objetivos de modo literal: “fortalecer e estimular o espírito libertário do povo venezuelano, sua consciência para a transformação social e seu apego à memória histórica que nos particulariza como nação livre e soberana”.

Dentro do museu, por sua vez, encontra-se uma mostra permanente dos restos mortais do Libertador, exumados em julho de 2007, a pedido de Chávez. Esta conta com uma mórbida ata de 1843 detalhando o estado e o tratamento dado ao cadáver de Bolívar. Há, também, duas outras exposições que se destacam. A primeira denominada: Bolívar – Raiz de Pueblos Soberanos e, a segunda, Libertários y Libertárias Nuestroamericanos Los imprescindibles. Nesta última, aparecem enfileirados: Augustino Nicolás Sandino, Victor Jara, Sub Comandante Marcos e, até mesmo, Paulo Freire, dentre outros.

Da clássica maratona turística pela cidade, culminada pela mostra Arte e Política, do Museu de Belas Artes, sobressai a sensação de que boa parte da curadoria, e das próprias obras de arte, são marcadas por uma forte conotação política. Ao longo dos dias, entretanto, vou percebendo que esta é uma marca que não se limita ao circuito cultural, invadindo o cotidiano e determinando as relações sociais em quase todos os aspectos. Vários foram os episódios que ensejaram esta sensação de reminiscência soviética.

Ainda no primeiro dia, ao comprar o jornal, escolho o mais barato – afinal, tudo em Caracas é absurdamente caro, exceto o que é subsidiado pelo governo, como era o caso do periódico em questão. Prontamente, a senhora que realizava a venda responde: “já vi que é chavista”. Penso, então, que, talvez, as nefastas consequências da viagem para meu módico orçamento poderiam ser compensadas pela possibilidade de ver de perto como funciona um país radicalmente polarizado e supostamente socialista. Pois, como fui confirmando ao longo dos dias, o antagonismo, em torno da figura de Hugo Chávez e seu projeto socialista, estrutura boa parte da dinâmica social da sociedade venezuelana.

No microcosmo da Assembleia Legislativa, onde passei a maior parte do tempo, ela determinava, por exemplo, as relações entre os funcionários, já que, de modo geral, os poucos chavistas do lugar eram excluídos das interações extra-profissionais realizadas pela maioria, composta por opositores ao governo. Mesmo quando ocupavam posições de chefia, eles não eram convidados para o chope de fim de expediente e, nem mesmo, para almoçar com os colegas. Em diversas ocasiões, vi nos restaurantes, em mesas distintas, grupos chavistas e oposicionistas, que, embora trabalhassem lado a lado, não almoçavam juntos. Ademais, sempre que sozinhos, aproveitavam a oportunidade para me confidenciar o quão prejudicial era a empreitada socialista do governo, no caso dos oposicionistas. Ou, no caso dos chavistas, o quanto eram sabotados pelos funcionários e técnicos remanescentes da “IV República”   que representariam mais de 80% da folha salarial da Assembleia. Quanto aos primeiros, no entanto, sobressai o grau abertamente racista e demofóbico das críticas dirigidas ao “populacho chavista”.

No tocante aos restaurantes, outras duas particularidades me chamaram atenção. A primeira foi (a infeliz) constatação de que poucos vendiam bebidas alcoólicas, cuja comercialização seria condicionada a uma custosa licença.  A segunda, diz respeito à clara segmentação sócio-econômica, poucos eram aqueles com preços intermediários, ou frequentados por grupos heterogêneos de pessoas. Nos mais caros, os empregados visivelmente se irritavam diante de qualquer questionamento relativo ao preço. Em alguns deles, coexistiam dois salões com decoração e preços distintos. Certa vez, diante de um questionamento acerca do motivo da separação entre os dois ambientes, não poderia ser mais significativa a resposta do garçom, que em outras situações já havia declarado sua adesão ao projeto chavista: “esse é o revolucionário, aquele é o burguês”.

O caráter monotemático da mídia local também é digno de nota. Para o bem ou, sobretudo, para o mal, a menção a Hugo Chávez é onipresente. Como no Brasil, a maioria dos veículos é de oposição, porém, se destacam pelo formato agressivo e rústico de seus programas, quase sempre em beligerante tom de denúncia. O clima é de guerra. Mesmo faltando quatro meses para as eleições, elas são tema de quase todos as reportagens.

Senti falta do entretenimento alienante e de conversas fúteis, afinal, boa parte das pessoas com quem travei contato era politizada, quando não militante. De todo modo, visível em quase toda a cidade, está a garrafal inscrição 4 F. Em vermelho, situada no alto de um morro, ela relembra a fracassada tentativa de derrubar o então presidente Carlos Andrés Pérez, levada a cabo por um grupo de militares, liderados pelo tenente-coronel Hugo Chávez, em fevereiro de 1992. Em Caracas, é impossível esquecer da política e de seu mais notório símbolo.

Nunca fizeram tanto sentido as teorias acerca do papel do líder na formação identitária das comunidades políticas. A “Razão Populista” pareceu traduzida em realidade empírica, corroborando a percepção – formada a partir de qualquer leitura apressada do livro de Ernesto Laclau – de que a sociedade venezuelana é o seu sujeito oculto.

Ainda assim, inúmeros elementos contribuíram para relativizar a caracterização soviético-totalitária que poderia resultar de uma primeira impressão. Primeiramente, a já citada mídia oposicionista, que, de forma escancarada, esculhamba Chávez e seu governo de todos os modos possíveis e, sobretudo, imaginários – incluindo referências  grotescas à doença do presidente. Todavia, nesse tocante, o evento mais emblemático foi a realização de uma marcha em apoio à candidatura do principal candidato da oposição. Nesse dia 10 de junho, Henrique Capriles, literalmente, correu cerca de 14 quilômetros, atravessando a cidade para exibir sua saúde, como insistentemente reiterou sua equipe de campanha. Não obstante, o evento contou com a participação de uma multidão de pessoas, sem que fosse registrado qualquer movimento de censura, desestímulo ou repressão por parte do governo.

Ao conversar com alguns manifestantes, entretanto, ouvi relatos acerca dos inconvenientes associados a uma postura abertamente oposicionista, que teria como principal consequência o fechamento das portas do Estado em termos de financiamentos, empregos públicos, bolsas de estudo e, até mesmo, vagas nas universidades estatais. Neste e em outros momentos, foram feitas alusões ao episódio da Lista Tascon, que teria circulado nas instâncias oficiais, expondo a inúmeras sanções, aqueles que teriam assinado o pedido de referendo revogatório, levado a cabo contra o presidente agosto de 2004. Na ocasião, o mandato de Chávez foi assegurado pelo voto de 59,10% dos cidadãos do país.

É difícil, contudo, formar qualquer opinião definitiva acerca da conjuntura venezuelana. Todas as críticas são sumariamente rechaçadas pelos partidários do governo, que sempre ressaltam, embasados em pertinente argumentação, a liberdade de expressão e a tolerância em relação às atitudes radicais, e muitas vezes golpistas, da oposição.

As considerações de Laclau sobre a possibilidade de interpretar o populismo de um modo não contraditório em relação à democracia, todavia, parecem acertadas. As reservas acerca da sua não coincidência com algumas características da tradição liberal continuam, no entanto, sob crivo. Deixo a Venezuela, ainda, com a esperança habermasiana a respeito da co-originalidade entre democracia e direitos humanos, mas, também, com a expectativa de que o proceso de cambio possa transformar a realidade político-social do país.


* [N.A.] Ver: Uma Nação Partida. Violência social e polarização política na Venezuela. Pittacos, 01/04/2012.

Um comentário sobre “Viveremos e Venceremos

  1. “Senti falta do entretenimento alienante e de conversas fúteis, afinal, boa parte das pessoas com quem travei contato era politizada, quando não militante.” Ãnh?Foi uma ironia ou vc falou sério? Bacana seu texto mas esperava mais. Não entendi essa insistência em falar de “reminiscência soviética”. Moro há 10 anos na fronteira com a venezuela e nunca esses anos todos vi qq menção ao socialismo russo, muito menos ao termo “comunismo”. Todo o referencial da revolução Bolivariana é baseada em valores e símbolos latino-americanos e tropicais. Me desculpe a franqueza, mas você poderia ter dito muito, muito mais. Abs.

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