Tente Arrancar Seus Dentes Caninos

[Antonio Engelke]

Em “O ritual do corpo entre os Sonacirema”, textinho de apenas 6 páginas tornado clássico da antropologia, Horace Minner descreve os bizarros costumes de uma tribo espremida entre o México e o Canadá. Obcecados pela ideia de que seus corpos são frágeis e doentios, os Sonacirema devotam boa parte de suas atividades diária a ritos de purificação e remediação de males variados, existentes ou imaginários. Jovens que lêem o relato pela primeira vez concluem que os Sonacirema são principalmente sádicos e masoquistas, além de muito supersticiosos. Depois, quando lhes é revelado que basta ler o nome da tribo de trás para frente para entender de quem realmente o texto está a falar, fazem cara de espanto. Ao transformar o familiar em exótico, Minner produziu um efeito de estranhamento incontornável.

A lembrança vem a propósito do filme grego Dogtooth, em que duas moças e um rapaz são mantidos dentro de uma casa, isolados de qualquer contato com o mundo exterior, desde sempre educados pelos próprios pais. “Educados” é modo de dizer: foram ensinados a se comportar literalmente como cachorros (mas não todo o tempo). Encarcerados num mundo de passatempos e atividades aparentemente sem sentido, obedecem sem muito questionamento às ordens do pai, o único a entrar e sair da casa. Somente uma mulher “de fora” é ali eventualmente admitida, contratada para aliviar as necessidades sexuais do rapaz. E é justamente uma conseqüência imprevista de um ato de intromissão da mulher que deflagra a série de eventos que conduzirá a história ao seu desfecho.

Há três formas possíveis de se compreender o filme: ou trata-se apenas do retrato da loucura de uma família, ou o diretor estava de sacanagem, ou então o que se vê na tela é uma grande metáfora. Sabemos que metáforas aceitam quaisquer interpretações que lhes forem dadas – e é isso que torna interessante o exercício de especular sobre os significados de Dogtooth. A leitura mais atenta à filosofia poderá enxergar no filme uma espécie de reedição pós-moderna do Mito da Caverna. A leitura psicanalítica terá, entre outras coisas, farto material para refletir sobre a fronteira entre natureza e cultura, ou o papel da repressão das pulsões na passagem da primeira à segunda. Já uma leitura de viés mais sociológico ou político poderia ver em Dogtooth uma metáfora para a condição da vida moderna sob o domínio absoluto do Capital.

Para dizê-lo logo e de uma vez: o patriarca provedor representa o capitalismo. Se sentimos estranhamento ao vermos a mãe ensinando aos filhos que “zumbi” significa “flor amarela”, é apenas porque esquecemos que não há nenhuma conexão intrínseca entre a soma das letras “z” “u” “m” “b” “i” e um morto-vivo perambulando pelas ruas. A manipulação do entendimento da realidade começa pela definição dos signos aos quais caberá a tarefa de representá-la. Em Dogtooth, quem decide a relação entre as palavras e as coisas é o patriarca provedor; é ele quem define o que conta como Real, e porque. É ele também quem permite a única interferência externa, na figura de uma prostituta vestindo uniforme de polícia – justamente o símbolo do monopólio da força do Estado, que está ali para administrar ou manter sob controle pulsões naturais que, se não foram canalizadas, explodem. Mas a polícia-prostituta quer se infiltrar além da conta, e por isso deve ser afastada, punida. Sem opção, o patriarca provedor é obrigado a permitir ou mesmo estimular o sexo entre os filhos; o rapaz deverá escolher a irmã que mais lhe apetecer para se aliviar. O pai não fica feliz com isso, mas mantém o pragmatismo; dá a mão para não perder o braço.

O patriarca provedor não consegue esconder completamente dos filhos a existência de uma realidade para além dos muros da casa porque eventualmente as coisas do mundo vêm se intrometer ali: um avião cortando o céu (não sem razão, brinquedo bastante disputado entre os irmãos), um gato que espreita no jardim (logo transformado em ameaça mortal a ser rapidamente eliminada). Percebendo a curiosidade natural e o desejo de liberdade dos filhos, o patriarca provedor anuncia que só se pode deixar a casa quando um dente canino cair – e, além disso, usando o carro. O fato de que ele próprio possui os quatro caninos na boca, e que seja o único na casa que sabe dirigir, não chega a ser objeto de discussão. Quão brilhante é sua estratégia! Sugere a possibilidade de autonomia e liberdade – pelo menos um fiapo, sem o qual não é possível viver – mas as condições que ele próprio impõe para sua obtenção cumprem a função de inviabilizar sua realização prática, e sem que ninguém sequer desconfie disso. Em outras palavras, a esperança de uma liberdade impossível é o presídio mais eficiente que há: ao dar a falsa sensação de que é possível alcançá-la, impede a avalanche de revolta que poderia acabar lhe derrubando os muros. Não são precisamente estes o cerne e o efeito da fábula liberal?

Mas eis que a menina se rebela, e arranca o próprio canino a tijoladas, numa cena quase insuportável de assistir. Tendo cumprido a primeira exigência para a liberdade, vai correndo se esconder na mala do automóvel – a lei diz que só se pode sair da casa de carro, e ela não sabe guiá-lo. O filme termina com a câmera se aproximando da mala do automóvel, mas o desfecho fica em aberto. Não sabemos se a menina abriu a mala e saiu para a rua, o que seria uma aposta otimista do diretor, ou se ela permaneceu lá, trancada em seu próprio medo, voltando para casa apenas para ser severamente castigada e servir de exemplo para os irmãos. Qual das duas opções acabaria sendo a mais difícil, ou a mais cruel, é uma questão a se pensar.

E convém não esquecer: trata-se de um filme grego.

***

[N.E.] Abaixo alguns endereços onde se informar mais sobre o filme: Dogtooth (Kynodontas ; Dente Canino). Ainda nesta semana, em sua seção “Quinta Coluna”  a Revista Pittacos republicará o clássico texto da antropologia  “O ritual do corpo entre os Sonacirema”.

http://www.imdb.com/title/tt1379182/

http://www.cineconhecimento.com/2011/03/dente-canino/

http://filmebagarai.blogspot.com.br/2011/09/dente-canino-kynodontas.html

http://sonatapremiere.blogspot.com.br/2012/04/dente-canino.html

http://laranjapsicodelicafilmes.blogspot.com.br/2011/09/dente-canino-2009.html

Anúncios

7 comentários sobre “Tente Arrancar Seus Dentes Caninos

  1. Isso (essa postagem) já vem me intrigando há dias no facebook (já que assinei a página para receber suas atualizações). Mas só agora tive tempo para ler e saber do que se trata. A história é fascinante, não há como negar. Claro que trata-se de uma grande metáfora (haja psicologia para entender!). Mas nada me intrigou mais do que a afirmativa: “uma tribo espremida entre o México e o Canadá”.
    “Espremida”?????????? Como assim “espremida”????? Nada ficaria espremido entre o México e o Canadá. Há espaço bastante ali, onde aliás fica um do maiores males mundiais, os Estados Unidos da América. Qual o significado dessa afirmativa? Claro, devo acrescentar que, sim, eles estão começando a ficar espremidos, metaforicamente falando (se é que me entendem).
    Obrigada.

    Curtir

  2. Tens razão. Por algum motivo que desconheço (talvez uma ironia inconsciente), coloquei este “esprimida” ali, para me referir ao espaço ocupado pelos Sonacirema. Simplesmente não dei muita bola pra isso.

    Curtir

  3. Não creio que o filme seja uma metáfora para os EUA em particular. A referência ao Sonacirema foi somente em função do estranhamento que o texto causa, que é semelhante ao estranhamento que sentimos ao ver “Dogtooth”.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s