Kony 2012: O Complexo Industrial de Heróis Brancos

[Antonio Engelke]

A história é conhecida. Em questão de dias o vídeo Kony 2012 varreu a internet, tornando-se o viral que mais rapidamente atingiu a marca de 100 milhões de views no YouTube. Caso o leitor não saiba do que se trata: a ONG norte-americana Invisible Children produziu um vídeo de 30 minutos com o objetivo de tornar famoso o rosto e as ações de Joseph Kony, líder rebelde de Uganda que há décadas transforma meninos em soldados e meninas em escravas sexuais, espalhando a morte entre uma coisa e outra. O vídeo, apresentado por Jason Russell, fundador da ONG, pretende dar início a uma mobilização popular cujo propósito final seria pressionar o governo dos EUA a enviar uma força-tarefa militar para ajudar o governo de Uganda a prender Kony. (A mobilização, aliás, parece ter falhado em seu intuito de “ganhar as ruas”; se terá fôlego para pressionar a administração Obama a agir, é uma questão ainda em aberto.)

As críticas vieram igualmente rápidas – e de todos os lados. É interessante notar a discrepância entre elas. No Brasil, a grande imprensa atacou Kony 2012 em função de 1) seus equívocos factuais (o vídeo dá a entender que os rebeldes estariam ainda bastante atuantes, e em Uganda, o que não é verdade: o que sobrou do grupo de Kony esconde-se no Congo, com baixo poderio militar); e 2) a falta de seriedade da Invisible Children (além de não ter as contas auditadas, a ONG repassa somente 1/3 do dinheiro que arrecada para ajuda aos ugandenses: o restante vai para despesas de pessoal e produção de vídeos). No “Fantástico”, da Rede Globo, a reportagem sobre Kony 2012 encerrava alertando: “A causa pode ser boa. Mas você precisa saber que a sua doação vai ser usada para fazer vídeos como este [um vídeo antigo, sofrível]. Então, fica o recado. Antes de ajudar uma ONG na internet, informe-se bem sobre como o seu dinheiro vai ser empregado.”

O artigo que a Pittacos reproduz abaixo, do escritor africano Teju Cole, parte de uma perspectiva distinta. Enxergá-la em contraste com a crítica da grande imprensa nos leva a atentar para importância da diferença entre lugares de fala. Enquanto as grandes empresas de comunicação preocupam-se não apenas com a correção factual do Kony 2012, mas sobretudo em utilizá-lo para reivindicar o monopólio da credibilidade da informação, um intelectual que conhece de perto a realidade africana nos exorta a observar o contexto mais amplo – necessariamente político – dentro do qual uma iniciativa como Kony 2012 é possível, a mentalidade que lhe serve de esteio e o papel que cumpre num jogo de interesses muito maior do que ingênuo otimismo para “fazer a diferença”.

Boa leitura.

*** 

O Complexo Industrial de Heróis Brancos

 [Teju Cole*]

Há uma semana e meia, assisti ao vídeo do Kony 2012. Depois, escrevi uma pequena resposta dividida em 7 partes, que postei em sequência no meu Twitter:

1 – De Sachs a Kristof a Invisible Children ao TED, a indústria que mais rapidamente cresce nos Estados Unidos é o Complexo Industrial de Heróis Brancos.

2 – O herói branco apóia políticas brutais pela manhã, faz caridade à tarde, e ganha prêmios de noite.

3 – A banalidade do mal se transmuta na banalidade do sentimentalismo. O mundo é apenas um problema a ser resolvido através do entusiasmo.

4 – Este mundo existe apenas para satisfazer as necessidades – sobretudo as necessidades sentimentais – das pessoas brancas e da Oprah.

5 – O Complexo Industrial de Heróis Brancos não busca justiça. Busca uma grande experiência emocional que valide privilégios.

6 – Uma preocupação enorme com aquele líder sanguinário africano. Mas quase 1,5 milhões de iraquianos morreram numa guerra que os americanos quiseram travar. Preocupe-se com isso.

7 – Eu levo o sentimentalismo americano a sério, do modo como se deve respeitar um hipopótamo ferido. Fique de olho nele. Ele pode ser letal.

Estas frases foram “retuítadas”, passadas adiante e amplamente compartilhadas por leitores. Elas migraram do Twitter para blogs, Tumblr, Facebook e outros sites; me disseram que criaram debates ferozes. Com o passar dos dias, foram reproduzidas na íntegra nos sites dos jornais  The Atlantic e  The New York Times, e apareceram em sites alemães, espanhóis e portugueses. Um amigo me mandou um e-mail dizendo que o quarto tweet, que atrevidamente cita o nome da Oprah, foi mencionado no canal de televisão Fox.

Estas minhas afirmações, escritas sem muita premeditação, atingiram um nervo. Recebi respostas de muitas pessoas gratas por tê-las lido. Recebi outras tantas respostas desapontadas ou furiosas. Perdi a conta de quantas vezes fui chamado de racista. Uma pessoa me comparou ao Mau Mau. O jornalista do The Atlantic que reproduziu as minhas frases, ainda que concordasse com a linha do argumento, descreveu a linguagem na qual foram expressas como “ressentimento”.

Este fim de semana, escutei uma entrevista no rádio com Nicholas Kristof, o jornalista ganhador do Premio Pullitzer. Kristof é mais conhecido por sua coluna no The New York Times, na qual frequentemente apresenta balanços de seu ativismo, ou de outros ocidentais. Quando vi o vídeo Kony 2012, achei seu tom similar ao de Kristof, e foi por isso que o mencionei no primeiro de meus sete tweets.

Aqueles tweets, embora não-premeditados, eram intencionais em sua ironia e seriedade. Não os escrevi para provocar uma polêmicazinha, muito menos para atacar  alguém. Acredito que um certo tipo de linguagem é raramente visto em nosso discurso público. Sou um romancista. Transito pelas sutilezas, e meu objetivo em escrever um romance é deixar o leitor sem saber o que pensar. Um bom romance não deve ter um objetivo.

Mas há um lugar na esfera política para a fala sem rodeios, mesmo que nos últimos anos tenha ocorrido nos EUA um arrefecimento de um certo tipo de fala direta no que se refere a direitos. O presidente tem medo de ser visto como um “homem negro enfezado”. Pessoas de cor, mulheres, gays – que, mais do que nunca, agora têm acesso aos centros de influência – estão sob pressão para se comportarem bem ao falar de suas lutas. Há uma expectativa de que possamos falar de pecados, mas ninguém deve ser identificado como pecador: jornais adoram descrever palavras ou atos como “racialmente carregados” mesmo naqueles casos em que seria mais honesto dizer que são “racistas”; concordamos que há misoginia desenfreada, mas não encontramos misóginos em lugar nenhum;  a homofobia é um problema mas ninguém é homofóbico. Um efeito cumulativo desta linguagem vigiada é que quando alguém ousa apontar algo tão óbvio como a existência de privilégio branco, soa  demasiadamente ostensivo. Vozes marginalizadas na America têm cada vez menos lugares onde possam falar abertamente sobre o que sofrem; o efeito desta civilidade forçada é que tais vozes são falsificadas ou completamente excluídas do discurso.

Somente no contexto desta linguagem castrada podem meus mansos tweets ser vistos como extremos. A entrevistadora do um programa de rádio que escutei perguntou a Kristof se ele tinha ouvido falar de mim. “Claro”, ele disse. Ela perguntou o que ele achava de minhas críticas. Sua resposta foi respeitosa e genial, mas o que disse me preocupou mais do que se tivesse respondido com uma explosão de raiva: “De fato, existe um desconforto, uma reação violenta entre africanos instruídos de classe média, particularmente ugandenses, mas também entre as pessoas de uma maneira geral, em ver a África identificada com um brutal rebelde militar, e com a idéia de que americanos montados em cavalos brancos resolverão o assunto. Para mim, pensar que nós, americanos brancos, não deveríamos intervir num desastre humanitário simplesmente porque as vítimas tem uma cor de pele diferente, é mais desconfortável ainda”.

Eis alguns dos “africanos instruídos de classe média” com os quais Kristof, sabendo ou não quem são ou o que fazem, decidiu polemizar: o jornalista ugandense Rosebell Kagumire, que acompanhou o Exército da Resistência do Senhor em 2005 e fez uma eloqüente resposta em vídeo ao Kony 2012; o pesquisador ugandense Mahmood Mamdani, um dos maiores especialistas do mundo sobre Uganda e autor de uma minuciosa réplica à visão politicamente equivocada da Invisible Children; o romancista etíope-americano Dinaw Mengestu, que buscou Joseph Kony, conheceu seus generais e escreveu recentemente um brilhante ensaio sobre como o vídeo Kony 2012 entendeu tudo errado. Eles têm uma opinião diferente sobre o que Kristof chama de “desastre humanitário”, talvez porque enxerguem desastres maiores por trás deste: a militarização de países pobres, políticas agrícolas míopes, expropriação de recursos, o fomento a governos corruptos, e a incrível complexidade de conflitos violentos e duradouros que ocorrem em um amplo e variado território.

Quero ser cauteloso: não acuso Kristof de racismo, nem acredito que ele seja de alguma forma racista. Não tenho dúvida de que ele tem um bom coração. Escutando sua voz no rádio, comecei a pensar que a gente poderia passar uma borracha nesse assunto depois de algumas cervejas. Mas é precisamente isso o que me preocupa. Foi isto que me levou a comparar o sentimentalismo americano a um “hipopótamo ferido”. Seu bom coração não significa que pense de maneira complexa.  Ele não faz as conexões ou enxerga os padrões de poder por trás dos “desastres” isolados.  Tudo o que vê são bocas famintas que ele, em sua forma particular de militância-através-do-jornalismo, está enchendo de comida o mais rápido possível. Tudo que vê é  necessidade, e não vê necessidade alguma de descobrir porque a necessidade é necessária.

Mas discordo particularmente da perspectiva adotada pela Invisible Children, e pelo Complexo Industrial do Herói Branco em geral, porque “fazer diferença” é pouco diante do trabalho que precisa ser feito. Antes de mais nada, atentemos ao princípio de não causar dano. Para além dele, há também que se consultar aqueles que estão sendo ajudados sobre assuntos que lhes dizem respeito.

Escrevo olhando de diferentes perspectivas. Escrevo como um africano, um homem negro vivendo na America. Estou sujeito diariamente às microagressões do racismo americano. Também escrevo como americano, aproveitando os muitos privilégios que um passaporte dos EUA e a residência neste país tornam possíveis. Me incluo quando realizo a crítica do privilégio: meus próprios privilégios de classe, gênero e sexualidade são insuficientemente examinados. Meu celular possivelmente foi fabricado por operários chineses maltratados nas fábricas. O coltan usado na fabricação do telefone provavelmente vem de um Congo abarrotado de conflitos. Não me deixo enganar, achando que não faço parte destas redes transnacionais de práticas opressivas.

E também escrevo isso como um romancista e contador de histórias: sou sensível ao poder das narrativas. Quando Jason Russell, narrador do vídeo Kony 2012, exibiu uma foto de Joseph Kony ao seu filhinho loirinho e bonitinho, descrevendo-o como a encarnação do mal (um ameaçador homem negro), e outra de seu amigo Jacob como a representação do desamparo (uma africano de rosto doce), eu me perguntei como o filhinho do Russell iria desenvolver um senso matizado da vida dos outros, sobretudo dos que são de uma raça diferente da dele. Como é que aquele pequeno garoto conseguiria entender que os outros podem ter autonomia; que seu direito à vida não é exclusivamente um direito ao respeito próprio? Num contexto diferente, John Berger escreveu: “O cantor pode ser inocente; jamais a canção”.

O que a África precisa com mais urgência do que a prisão de Kony é uma sociedade civil mais equitativa, uma democracia mais robusta, e um sistema de justiça mais justo. Ouvimos com freqüência canções na qual a África serve como pano de fundo para fantasias de conquista e heroísmo de homens brancos. Do projeto colonial, passando por Out of Africa, The Constant Gardener e Kony 2012, a África forneceu um espaço sobre o qual egos de homens brancos podem ser convenientemente projetados. É um espaço liberado no qual as regras usuais não valem: um Zé ninguém americano ou europeu pode ir para a África e se tornar uma entidade salvadora quase divina, ou no mínimo saciar suas necessidades emocionais. Muitos assim o fizeram sob a bandeira de “fazer diferença”. Afirmar esta verdade, óbvia e comprovada, não faz de mim um racista ou um Mau Mau. Somente denuncia minha condição de “africano instruído de classe-média”, da qual me declaro culpado. (Vale a pena notar que há outros africanos instruídos de classe-média que têm opiniões diferentes da minha. Isto é o que pessoas, instruídas ou não, geralmente fazem: obtêm informação e, de vez em quando, discordam entre si).

De qualquer forma, Kristof e eu certamente estamos acordo em um ponto: tem muita coisa acontecendo em inúmeras partes do continente africano que não deveriam estar ocorrendo. Tive sorte na vida, mas isso não significa que eu não vi e vivenciei a pobreza africana de perto. Cresci em uma terra de golpes militares e de programas econômicos baseados em “ajustes estruturais” impostos pelo FMI que foram devastadores. A ferida da África é verdadeira; não é nenhuma ficção.

Concordamos também em outro ponto: há um impulso ético dentro de cada um que exige que nós sirvamos à justiça tanto quanto puder. Mas para além da evidente preocupação que ele corretamente tem com bocas famintas, crianças soldados e pessoas estupradas, há problemas mais complexos e amplamente disseminados. Há sérios problemas de governança, de infraestrutura, de democracia, e de Estado de Direito. Estes problemas não são nem intrinsicamente simples, nem podem ser reduzidos a slogans. Eles são ao memso tempo intrincados e intensamente locais.

Como, por exemplo, poderia um americano bem intencionado “ajudar” hoje um lugar como Uganda? Começa, creio, com certa humildade em relação às pessoas destes lugares. Começa com demonstrar algum respeito pela capacidade do povo de Uganda carregar seu destino em suas próprias mãos. Muito trabalho já foi feito, e continua a ser feito, pelos próprios ugandenses para melhorar seu país, e os comentários ignorantes que já vi por aí sobre como “nós temos que salvá-los porque eles não conseguem salvar a si próprios” não vai mudar esta realidade.

Deixe-me trazer para este debate o exemplo de um país africano que conheço muito bem. No início deste ano, centenas de milhares de nigerianos ganharam as ruas do país para protestar contra a decisão do governo de eliminar um subsídio para o petróleo. Este subsídio era amplamente percebido como uma das poucas benesses que a riqueza (até então catastrófica) do petróleo trazia ao povo do país. Mas o que tornou estes protestos tão potentes foi o fato de que havia mais do que o fim do subsídio em jogo. A Nigéria possui um dos governos mais corruptos do mundo, e os protestantes abertamente exigiam que alguma coisa fosse feita contra isso. Os protestos duraram dias, mesmo com riscos consideráveis para os manifestantes. Muitos jovens foram assassinados, e o movimento foi eventualmente esvaziado quando os líderes dos sindicatos capitularam e o exército ganhou as ruas. O movimento não teve “sucesso”, no sentido convencional do termo. Mas algo importante tinha mudado na consciência política das massas nigerianas. Para mim e para muita gente que conheço, os protestos deram a oportunidade de sentir orgulho da Nigéria; para muitos, pela primeira vez na vida.

Este não é o tipo de história fácil de se resumir num artigo, menos ainda de se fazer um vídeo viral. Afinal, não há nenhuma reivindicação simples a ser feita e – dado que a corrupção é endêmica – nenhum vilão para derrubar. E certamente não há ninguém capaz de “construir pontes”, eufemismo que Kristof utiliza para os heróis brancos das narrativas sobre o Terceiro Mundo que tornam suas histórias mais palatáveis à audiência televisiva norte-americana. Contudo, a história do movimento de protesto nigeriano é até o momento, neste ano, uma das mais importantes da África subsaariana. Homens e mulheres, de todas as classes e idades, se ergueram para defender aquilo que consideravam justo; marcharam pacificamente; se defenderam mutuamente, e deram comida e bebida uns aos outros; cristãos montaram guarda enquanto muçulmanos rezavam, e vice-versa; e eles falavam sem medo aos seus líderes sobre o tipo de país que queriam ver. Tudo isso aconteceu sem nenhum jovem herói americano cool por perto.

Joseph Kony não está mais em Uganda e não é mais a ameaça de antes, mas é um vilão conveniente para aqueles que precisam de um vilão conveniente. O que a África precisa com mais urgência do que a prisão de Kony é de uma sociedade civil mais igualitária, uma democracia mais robusta e um sistema de justiça mais equânime. Este é o andaime a partir do qual infraestrutura, segurança, saúde pública e educação podem ser erigidos. Como fazer para incentivar vozes como as da massa nigeriana que marchou em janeiro, ou como aquelas que estão engajadas na luta para estabelecer a democracia ugandense?

Se os americanos querem se preocupar com a África, talvez devessem ponderar sua política externa, na qual influenciam diretamente através das eleições, antes mesmo de se impor sobre a África. A verdade é que a Nigéria é um dos cinco maiores fornecedores de petróleo dos EUA, e a política externa norte-americana está interessada primeira e principalmente no fluxo deste petróleo. O governo norte-americano achou melhor não apoiar os protestos nigerianos. (Embora o Departamento de Estado tenha publicado uma manifestação de apoio – “nossa opinião é que o povo nigeriano tem direito a protestar pacificamente, deve protestar pacificamente, e rogamos aos serviços de segurança nigerianos que respeitem o direito de protesto popular, comportando-se de maneira profissional ao lidar com as greves” –, ela fedia à retórica barata e, previsivelmente, nada de concreto saiu dali.) Ocorreu o esperado; sob a bandeira do “interesse americano”, o petróleo ganhou prioridade. Sob a mesma bandeira, a vitalidade dos agricultores de milho no México foi destruída pelo NAFTA. Plantadores de arroz do Haiti sofrem perdas imensas devido à inundação de arroz americano subsidiado. Em Honduras, um pesadelo se desenrola nos últimos três anos: um golpe apoiado pelos EUA, seguido por uma militarização radical do país, também apoiada pelos EUA, produz um conflito no qual centenas de ativistas e jornalistas já foram assassinados. O exército egípcio, que agora está reprimindo o outrora esperançoso movimento pela democracia, matando dúzias de ativistas no processo, sobrevive com a ajuda anual de 1.3 bilhões de dólares enviada pelos EUA. Para uns, é uma litania conhecida. Para outros, parece novidade. Conhecida ou não, entretanto, ela tem um impacto em nossas noções de inocência e de nosso direito presumido a “ajudar”.

Proponho que comecemos nosso ativismo bem aqui: com a maldade guiada por dinheiro que está no coração da política externa americana. Isso nos faria abandonar a ilusão de que a compulsão sentimental de “fazer a diferença” se sobrepõe a quaisquer outras considerações. O que heróis inocentes nem sempre entendem é que eles são instrumentais a pessoas com motivações muito mais cínicas. O Complexo Industrial do Herói Branco é uma válvula de escape para as pressões insuportáveis que surgem em um sistema baseado em pilhagem. Podemos participar da destruição econômica do Haiti por longos anos, mas quando vem o terremoto nos sentimos bem em doar dez dólares para fundos de socorro humanitário. Não me oponho, em princípio, a tais doações (eu mesmo as faço frequentemente), mas somente devemos fazer este tipo de gesto cientes do restante que está em jogo. Se vamos nos meter na vida alheia, um pouco de zelo é o mínimo que se espera.

O sucesso do Kony 2012 significaria mais militarização do governo anti-democrático de Yoweri Museveni, que está no poder em Uganda desde 1986 e tem sido um dos principais personagens no conflito mais letal em andamento no mundo de hoje, a guerra no Congo. Mas aqueles que têm o privilégio de ignorar a complexidade do mundo preferem ignorar este fato. Ignoram outras conexões perturbadoras, como Museveni se portar como um aliado americano em suas batalhas nebulosas contra militantes no Sudão e, especialmente, na Somália. Quem regula estes conflitos? Sob autoridade e supervisão de quem eles são conduzidos? Quem está sendo morto e por que?

Tudo isso nos leva para bem longe de jovens americanos bem apessoados usando o poder do YouTube, do Facebook e do puro entusiasmo para mudar o mundo. O cantor pode ser inocente; a canção, entretanto, jamais.

*Tradução de Antonio Engelke, revisão de José Eisenberg.

[NE] Original em inglês disponivel em: http://www.theatlantic.com/international/archive/2012/03/the-white-savior-industrial-complex/254843/

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2 comentários sobre “Kony 2012: O Complexo Industrial de Heróis Brancos

  1. Caros, louvável a atitude, no último post, de abrir espaço para a fala de outrem, sobretudo pelas ideias inquietantes propostas.

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  2. Muuuuito bom e ao mesmo tempo, complexo pra carái. Simples e complicado: “Ao invés de encarnarem a salvação cristã faturando em cima da miséria que seus governos ajudaram a criar, esses heróis brancos e gordinhos deveriam olhar para a politica externa que seus ‘votos’ estão empoderando”; do outro lado, ” A África precisa, mais do que de prender o Kony, de justiça justa, democracia democrática, e Estado estatal.” Será que ele quer dizer, mais do mesmo remédio que te picou? Acho que estamos precisando organizar o samba e ver de que forma fazer política fora do controle estatal que é constantemente saqueado pelas forças patrimonialistas (como agora o nosso congresso por ocasião do C.F.) sem acabar servindo de inocentes úteis e bobalhões. A democracia que está aí precisa ser radicalizada e não tomada de assalto, seja por vias fascistas ou por articulações de interesses espúrios (no entanto, perfeitamente legais). Essa sociedade civil que se manifestou na Nigéria (a hora que o autor acerta na veia, dizendo que isso não dependeu de heróis como o Clooney) é um correspondente da sociedade civil americana, inglesa ou mesmo brasileira que, mesmo boba, está doidinha pra fazer alguma coisa que seu voto não alcança. Essa têm sido desvirtuada, desempoderada, tornada míope e manipulada das formas que ele denuncia (caso vídeo do Kony). Mas inclui também os movimentos sociais que têm sido também traídos das formas mais michelianamente vís, vendidas por pratos de lentilhas por quem chega ao poder por suas mãos e passa a conversar com quem sempre esteve lá.

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