O Humor Politicamente Incorreto e o Humor Incorretamente Político

[Igor Suzano Machado]

Os excessos do chamado “politicamente correto” enchem o saco. A facilidade que as pessoas têm tido para se sentirem ofendidas com qualquer coisa, numa vida que cismaram não poder ter mais nem dores nem frustrações, também anda insuportável. Sob essa encruzilhada da patrulha moral e do diagnóstico do bullying, uma vítima sempre com potencial de ser atingida mortalmente é o humor. Afinal, nada mais normal do que uma piada rebaixar ao ridículo seus personagens e esses personagens serem representantes de todo um grupo social. O escárnio é parte integrante do humor e quanto mais inofensiva for uma manifestação humorística, provavelmente mais sem graça ela também será.

Tentando “salvar” o humor dos riscos da patrulha do politicamente correto, um grupo de “comediantes rebeldes” teve a “brilhante” ideia de criar um show “proibidão”, no qual poderiam ficar à vontade para fazer um humor sem limites, amparado, inclusive, pela assinatura de um termo de compromisso firmado por aqueles que iriam assistir à apresentação. Nesse termo de compromisso, a audiência do espetáculo faria um exercício básico de previsão do futuro e realização de uma jornada de profundo autoconhecimento psicológico para garantir que não se sentiria ofendida pelas piadas contadas. O resultado ficou amplamente conhecido: um dos humoristas achou que seria superengraçado comparar um dos músicos da banda que acompanhava a apresentação, e que era negro, a um macaco.

O músico, que não havia assinado o termo de compromisso, sentiu-se, obviamente, ofendido e chamou a polícia contra o ato de desrespeito do humorista. O caso ganhou visibilidade midiática e gerou uma série de manifestações, incluindo as de outros humoristas, como o global Bruno Mazzeo – filho do, também humorista, recentemente falecido, Chico Anysio – que fez questão de ressaltar que a brincadeira feita no show nada tinha a ver com humor, se resumindo à mera ofensa. Por outro lado, o arauto dos humoristas rebelados contra o politicamente correto, Rafinha Bastos, também fez questão de se manifestar, ridicularizando Mazzeo, em defesa do autor da piada, em nome da liberdade de expressão, e destacando que o humor depende do contexto, e que só quem estava presente poderia julgar o contexto daquela piada e se, assim, teria sido uma piada boa ou não.

Que o humor depende do contexto eu concordo plenamente, e, nessa específica questão, sou obrigado a endossar as palavras de Rafinha Bastos. Mas o que me chama atenção é a correção da observação feita por alguém que tem se destacado, justamente, pela falta de inteligência e sensibilidade para compreender os contextos em que são feitas as piadas. Afinal, Rafinha Bastos é aquele homem que, inserido no contexto de uma sociedade machista e violenta e que coordena essas suas duas características das formas mais escrotas possíveis, achou que seria engraçadão dizer que uma mulher vítima de estupro deveria agradecer pela violência sexual sofrida. Agora, Rafinha é aquele branco que, inserido no contexto de uma sociedade racista, que nivela a humanidade de seus cidadãos com base na cor da pele, acha que chamar um negro de macaco é exercício regular da liberdade de expressão.

O contexto não é o apanágio das gracinhas “politicamente incorretas” de Rafinha Bastos e companhia. Pelo contrário, é o que tira delas toda a sua graça. O problema não está em ofender alguém; o problema está em achar que reproduzir ofensas que perpetuam uma ordem social discriminatória tem alguma graça. Quando a chacota tem uma dimensão subversiva, quando o humor rebaixa quem está no alto, igualando-o aos comuns, ridicularizando a afetação dos ricos, ou a incompetência dos governantes, ou ignorância dos famosos, por exemplo, ela pode ofender pessoas pertencentes a esses grupos. Mas, ainda assim, terá graça, pois faz do humor um campo de batalha entre iguais, em que o dinheiro, o poder ou a fama, que podem proteger de outros julgamentos, não permitem a completa blindagem dessas pessoas contra a ridicularização humorística.

Logo, o problema das piadas do “proibidão” não reside num humor politicamente incorreto, mas sim num humor incorretamente político, que, em vez de se arriscar na contestação dos valores vigentes, escancarando suas inconsistências e o que têm de ridículo, se protege na zona de conforto de exaltar como quem está por cima mantém os demais abaixo. Para escancarar o quanto as mulheres são colocadas em situação de inferioridade e de sujeição à violência por parte dos homens, ou o quanto os negros são discriminados por brancos, não faz sentido recorrer ao escárnio; para isso já temos todas as outras coisas sem a menor graça que fazem questão de cuspir isso na nossa cara, o tempo todo, como estatísticas de empregabilidade e violência, notícias de jornal, etc.

Ou seja: o problema de “piadas” como essa feita com o músico negro, não é que possam ofender alguém – há boas piadas que também podem ofender muita gente. O grande problema dessas piadas é que elas são profundamente sem graça, por lhes faltar sagacidade na compreensão do contexto em que estão inseridas e da potencialidade do humor não para reproduzir e manter esse contexto, mas para denunciar o que ele tem de inconsistente e o quanto sua caricaturização escancara o seu ridículo. Exemplo dessa interação entre piada, contexto e subversão são as brincadeiras com o ex-presidente Lula que, quando ridicularizam alguém que foi presidente do país, focando tal característica, podem ser engraçadas, mas quando usam a figura pública do ex-presidente apenas para representar um analfabeto, ridicularizando uma situação já socialmente rotineiramente rebaixada, são sempre bobas, recheadas de preconceito e profundamente sem graça.

Aproveitando a referência ao ex-presidente, vejamos outro caso relativamente recente que exemplifica bem as dimensões da ofensa e do contexto no humor. Lula foi um dos responsáveis direto pelo Sistema Único de Saúde do país durante os oito anos em que foi presidente. No ano passado, ele ficou doente e alguém disse que ele deveria se tratar pelo SUS. Muita gente ficou chateada com a piada, se sentindo de alguma forma ofendida, tomando as dores do presidente. Mas isso, por si só, não tira da brincadeira a sua graça. Sem entrar no mérito das qualidades do SUS, ou de quanto é infinitamente melhor tê-lo do jeito que ele é do que não tê-lo de jeito nenhum, o fato é que o SUS não “beira à perfeição”, como afirmara o ex-presidente, e que é de extremo mau-gosto com quem sofre algum tipo de problema de saúde fazer uma gracinha, como ele fez pouco antes de descobrir sua doença, dizendo que até gostaria de ficar doente só para fazer uso das convidativas instalações da unidade de saúde que acabara de inaugurar. A brincadeira de que Lula deveria tratar sua doença no SUS, escancarando a falta de consistência e sensibilidade no discurso presidencial serve bem para mostrar que, independentemente do status ou poder, no erro, na insensibilidade, nos exageros retóricos, etc., o ex-presidente não conseguia estar acima dos “comuns” e podia ser exposto ao ridículo como qualquer um.

Ou seja, o humor tem de interessante exatamente poder fazer com que ex-presidentes e demais poderosos, aparentemente tão acima dos “normais”, tenham exploradas as suas falhas, deixando claro como, nos erros e no ridículo, disputamos todos em situação de igualdade. Para fazer, num sentido contrário, com que negros, mulheres, gays, gordos e demais discriminados, colocados tantas vezes abaixo dos padrões branco, masculino, hetero e magro, continuem tendo destaque justamente nessa posição subalterna não é necessário humor. Não é necessário nada. É só deixar tudo como está. E é a isso que tem servido o suposto “humor” desses humoristas, em tese, “rebeldes”, que, por mais ofensivo que seja, não tem na agressividade seu maior problema, pois muito mais grave, em se tratando de humor, é a sua completa falta de graça.

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