Inteligente, Bonita e Gostosa

[Rodrigo Mudesto]

Em um curioso momento de nossa pantomina politica, certo ministro ganhou sua imortalidade pela gatuna afirmação “O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. Há muito que se meditar nessa frase, porque não dizer, nessa filosofia, desde que submetida à devida dialética negativa. Afinal, de ninho ruim às vezes sai bom passarinho.  A força da “máxima de Ricupero” é digna, se não de Platão,  pelo menos de Odorico Paraguaçu, tanto que de tão boa, ela foi capaz de se fazer mostrar, talvez vinda do próprio mundo das ἰδέα, quando se deixou capturar por uma antena perdida por aí.

Outra coisa boa que insiste em ser mostrada é a bunda da célebre e intelectual e feminista e francesa Simone de Beauvoir.  Escondida nos belos trajes que as mulheres elegantes e sofisticadas envergavam nos anos cinquenta, tal derrièrre era compartilhada apenas com uns poucos eleitos, mas com a força comunicacional reservada apenas ao que é bom, ganhou também a imortalidade, e o que é mais importante: a imperecibilidade derrotou a gravidade, essa inimiga das prendas femininas e, claro, das masculinas também. As nádegas de Simone (apenas duas e não quatro, como a de outras menos abençoadas) permanecerão na memória de todos que acreditam que é possível conciliar o Belo, o Bom, e o Justo.  Muitos julgavam Simone apenas brilhante, quando o mais correto seria considerá-la inteligente, bonita e gostosa.

A historia da filosofia, não apenas feminista e francesa, mas universal, é grata ao estagiário de fotojornalismo da Life Magazine Art Shay, que, sorrateiramente, aproveitou uma porta de toalete entreaberta para permitir que a bunda da namorada de seu amigo Nelson Algren fosse apresentada ao mundo. Distraída, mas nunca desprevenida, porque Simone era mulher demais pra ser pega desprevenida, a filósofa apenas pontuou que Art era um “rapaz malvado”, mas sabedora das helênicas prerrogativas do Belo, Simone bondosamente aquiesceu.

Simone de Beauvoir aquiesceu, mas o mesmo não se pode dizer da rede de relacionamentos Facebook. Um dos heróis de nossa época, o jovem computeiro Mark Zuckerberg, contratou uma rede de inquestionáveis e honoráveis censores, que por um dólar a hora, (pelo menos é o que foi possível apurar, já que há sempre muito segredo sobre o funcionamento de sofisticados aparatos de repressão) aplicam sua sabedoria em revisar as denuncias dos membros da rede. Bom, um desses profissionais de elite, por certo pressionado em seus prazos, censurou a foto do mural do fotografo mineiro Fernando Rabelo, apagou-a, e assim automaticamente nos murais de todos que tinham se empenhado em divulgar a bela foto (o que inclui vários pittaqueiros, entre os quais, moi-même). Esse ato arbitrário talvez tenha ocorrido por uma confusão entre a silhueta de Mademoiselle Beauvoir com a da famosa atriz do cinema francês Sylvia Kristel (que muitos de nós conhecemos por Emannuelle, cujo corpo nu está eternamente associado a “boa” pornografia) outro ícone da emancipação feminina. Pensando bem, seria pouco. Prefiro me conformar com a única explicação para tamanho zelo de nosso atarefado censor de fotos com potencial terrorista. Afinal, vai que usuários do Facebook descobrem que pessoas inteligentes também tiram a roupa. Seria o caos. Pra evitar o caos, por um dólar a hora, se enxuga gelo.

Menos compreensível é a atitude dos tantos, porque necessariamente muitos, usuários do Facebook denunciantes da foto. Haveria um medo de divulgar que feministas podem ter bundas bonitas? Afinal quem tem, tem medo! Ou estaria uma confraria receosa de que se tornasse público que Deus foi generoso com uma mulher e comunista e ateia? Seria a simples inveja, de quem não tem uma boa bunda ou uma mulher com bunda boa em casa? Medo de expor as crianças?  Nesse caso, é melhor furar logo os olhos das crianças, ou pelo menos castra-las (ouvi dizer que é bom pra voz, galopeeeeeeeeeeeira!!!). Já vai longe o tempo em que era preciso roubar a Playboy do porta-luvas do pai ou de cima do guarda-roupas da mãe. Tempos que passaram em parte pelas próprias ideias da Simone. Penso que melhor assim. Talvez crianças criadas num mundo menos bobo, não vejam sentido em dizer que quem tem bunda tem medo.

 ***

Um grande bônus dessa estória foi ter descoberto o belo acervo de fotos históricas que Fernando Rabelo montou em um de seus álbuns no Facebook. Fernando é generoso, e aceita inscrição para assinantes. Ele faz atualizações cotidianas que permitem conhecer um pouco fotógrafos e fotos que marcaram época. Fora a bunda da Simone tem mais um belo par de peitos por lá, mas a imensa maioria é de fotos recatadas. Como estas abaixo.

No dia 29/03/2012 o endereço do perfil de Fernando Rabelo era https://www.facebook.com/fernando.rabelo2. Vai lá, vai. E depois diz pra gente o que achou.

© Art Shay_ Simone de Beauvoir_ Chicago_ 1952

© Foto de Lawrence Schiller. A atriz Tippi Hedren no volante de um carro. No retrovisor o reflexo do cineasta Alfred Hitchcock, 1962.

© Foto de Don McCullin. Paul McCartney, Ringo Star e George Harrison simulam a morte de John Lennon, 1968

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