Um Filme Injustiçado (“A Vila”, de M.N. Shyamalan)

Antonio Engelke

Há filmes que são bons, mas ruins. E há filmes ruins, mas bons. “A Vila”, de M. Night Shyamalan, pertence a esta última categoria. É fácil desprezar um suspense com monstros malvados, sustos e reviravoltas de roteiro. E Shyamalan parece desde então ter perdido a mão, dirigindo alguns dos piores filmes da história recente de Hollywood, como “Fim dos tempos”. Mas “A Vila” é um pequeno grande filme, em forma e conteúdo. Expõe com sensibilidade questões relevantes em matéria de filosofia política, como a impossibilidade de conciliar liberdade e igualdade, as tensões entre princípios morais utilitaristas e categóricos, ou as condições necessárias à instauração da exceção. Mas não nos adiantemos.

“A Vila” trata da utopia de uma sociedade perfeitamente harmônica. Um grupo de indivíduos, traumatizados pela violência da cidade grande, decide se retirar para o campo e fundar uma comunidade pura, intocada pelo mal do mundo – um lugar sem dinheiro e pecado. Para isolar a comunidade do contato com a civilização, mantendo sob controle a curiosidade dos jovens a respeito do mundo, os “pais fundadores” do lugar inventaram um inimigo terrível: criaturas monstruosas que vivem na floresta que os cercam, cujo território não poderia ser violado, um metro que fosse. Seres tão abomináveis que sequer tinham nome (“those we don’t speak of”).

No entanto, tudo o que os habitantes da vila mais fazem é falar sobre eles. A contradição é apenas aparente. Se o discurso interdita aquilo que ele mesmo não cessa de colocar em movimento, é para cumprir a função de reelaborar socialmente o trauma, a ferida que garante o cimento da coesão social. “A Vila” não nos deixa esquecer que o medo é talvez o mais poderoso elemento de socialização, e que a política é por vezes a arte de manter o povo suficientemente amedrontado: nem em excesso, a ponto de paralisar os indivíduos, nem em falta, de modo a abrir espaço para a desobediência. A primeira metade do filme é dedicada a esta pedagogia do medo – na infância, a inculcação da proibição de jamais ultrapassar as fronteiras da floresta, sob pena de atrair a ira assassina das criaturas; na adolescência, os rituais de masculinização inteiramente referidos ao pavor já assimilado – e à construção da história de amor cujo conflito deflagrará o motivo principal da narrativa.

Lucius Hunt ama Ivy Walker, e vice-versa. Quando enfim tornam público o desejo de se casarem, o jovem Noah, que sofria de loucura e era apaixonado por Ivy, apunhala Lucius no estômago, naquela que aliás é uma das mais belas cenas do filme, e que instaura o dilema moral em torno do qual a história se sustenta. A criação da vila pelos “pais fundadores” fora feita por sobre um pacto radical de isolamento: ninguém, em hipótese alguma, estaria autorizado a deixá-la. Pacto difícil, exigente – a cena de abertura mostra o enterro de uma criança, cuja vida teria sido salva com medicamentos disponíveis em qualquer cidade vizinha –, mas até ali respeitado. Contudo, a facada desferida coloca um problema novo: dado que Lucius fora vítima de um crime, não de uma contingência natural da vida, seria justificado quebrar o pacto a fim de buscar ajuda externa?

Edward Walker, pai de Ivy e dono da reserva florestal que abriga a vila, decide enviar a filha à cidade mais próxima para obter os antibióticos sem os quais a vida do rapaz não poderia ser salva (antes, é claro, conta a ela que as criaturas nunca existiram). O restante dos “pais fundadores” discordam, e o criticam por isso:  “Você não deveria ter tomado essa decisão sem nos consultar. Você colocou em risco tudo o que nós construímos.” Ao que Walker responde: “Qual foi nosso propósito ao vir para cá? Lembrem-se, foi por esperança, esperança em algo bom e correto. Sim, eu arrisquei! Eu espero ser sempre capaz de arriscar tudo por uma causa boa e justa. Se nós não tivéssemos tomado essa decisão, jamais poderíamos dizer que somos inocentes. E isso é o que nós viemos proteger aqui: a inocência! Não estou disposto a abrir mão disso.”

Aí o dilema: sob que circunstâncias a suspensão da ordem vigente é legítima, de modo a abrir uma exceção? E qual a base moral da argumentação usada para fundamentar a necessidade de romper, mesmo que momentaneamente, o pacto que funda a comunidade? Walker foi repreendido por haver arrogado para si o direito de quebrar o pacto sem o prévio consentimento do grupo. Ao enviar a própria filha para o contato exterior, revelando-lhe a farsa que estava na base da coesão social da comunidade, arriscara o futuro de todos. Ivy poderia despertar a curiosidade das cidades vizinhas, ou contar a todos a verdade acerca das criaturas; de qualquer forma, é provável que o episódio decretasse o fim daquele modo de vida, pelo menos tal como fora concebido até então. Era portanto em nome da inspiração que animava a utopia da vila que os “pais fundadores” julgavam preferível deixar Lucius morrer a procurar auxílio externo. Sim, uma vida seria tragicamente perdida. Mas antes a morte de um que o fim daquilo que dava sentido à existência de todos. O sacrifício de Lucius Hunt garantiria a continuação do sonho coletivo de paz e pureza.

Mas utopia (u tópos) é “aquilo que não tem lugar”. O agente que introduz a barbárie na pequena comunidade é precisamente o amor – mas o amor de um louco, alguém que não conhece regras nem limites. Ao apunhalar um de seus personagens no abdome, Shyamalan nos mostra que as paixões humanas condenam ao fracasso todo e qualquer sonho de pureza. Walker foi o único dentre os fundadores da vila a reconhecê-lo, e talvez por isso tenha rejeitado o utilitarismo de seus pares. A utopia de uma comunidade perfeitamente harmônica já estava desfeita, e a única possibilidade de recuperá-la residia na tentativa de salvar Lucius, ainda que isto colocasse em risco a continuação do lugar. Walker denuncia a contradição dos outros “pais fundadores” em pretender salvaguardar a pureza e a inocência através da conivência com um ato criminoso. Apela para um princípio moral mais elevado do que o mero cálculo de maximização da felicidade geral. Se quisessem continuar a ser uma comunidade formada por sobre uma base moral genuinamente pura, Walker parece dizer, então todos ali deveriam observar (e agir de acordo com) as motivações dos atos, não apenas suas conseqüências. Abandonar Lucius a uma morte que poderia ter sido evitada significava em alguma medida tornar-se cúmplice de seu assassinato, e isto era inaceitável.

Para além do debate Bentham vs Kant, “A Vila” coloca também o problema da incompatibilidade entre os ideais de liberdade e igualdade. Não é difícil perceber o tamanho do preço cobrado pela busca por uma organização social harmônica a ponto de desconhecer por completo a exploração, a miséria e (supostamente) a violência. As crianças crescem terrivelmente amedrontadas por criaturas que, apesar de fictícias, são o que de mais verdadeiro existe em seu cotidiano; os adultos vivem constrangendo os próprios desejos até quase a asfixia. Walker, casado, era na verdade apaixonado pela mãe de Ivy, mas jamais haveria de lhe declarar o amor, temendo a humilhação pública a que seria submetida sua mulher, que seria forçada a conviver cotidianamente com a felicidade do novo casal. Paranóia, recalque, vigilância, culpa, medo – certamente não era este o ideal de boa vida que os fundadores tinham em mente.

“A Vila” tem ainda o mérito de deixar implícita a sugestão de que todos somos criaturas com inclinações perversas das quais não falamos, ou evitamos falar. Mesmo que impulsionados por intenções as mais puras, podemos acabar fazendo o mal. E aqui a referência óbvia não é Noah, que, em sua paixão desmedida por Ivy, veste a roupa de monstro apenas para encontrar a morte, mas sim os próprios “pais fundadores” travestidos de criaturas, semeando o pânico a intervalos regulares.

Ou então não é nada disso, e o Shyamalan mirou no que viu e acertou no que não viu.

6 comentários sobre “Um Filme Injustiçado (“A Vila”, de M.N. Shyamalan)

  1. Caro Antonio, sua crítica me fez assistir este filme, numa tarde de pouco o que fazer entre o Natal e o fim de ano. Não classificaria o filme como péssimo, mas também está longe de ser bom. A ideia central é boa, mas mal explorada. Bela fotografia, excelentes atores, mas diálogos péssimos, mal amarrados, roteiro frouxo, personagens indefinidos. Na verdade, sua matéria é bem melhor que o filme propriamente dito…

    Curtir

  2. Andrea, muito obrigado.

    Pois é, “A Vila” divide opiniões mesmo… Entendo quem (como você) o acha tosco. Como disse no início do texto, é um filme ruim… Mas bom. Talvez pelas lições de filosofia que subjazem ao filme, e que me interessam mais do que qualquer outra coisa, eu o julgue com excessiva benevolência. Mas, sei lá, gosto dos diálogos e dos personagens, apesar de concordar que o roteiro é mal amarrado. Há cenas lindas, e algumas sutilezas interessantes também. Por exemplo: Ivy, mesmo cega, sabe que Lucius a ama porque ele não “encosta nela”; e Lucius observa que Walker fazia o mesmo com sua mãe, por isso sabia do amor dele, que jamais haveria de se consumar. Ou: mesmo tendo sido avisada pelo pai de que as tais criaturas nunca existiram, Ivy, ao cair naquela vala e ficar cheia de lama, imediatamente desanda a tentar tirá-la da capa amarela: reflexo automático de uma vida inteira de terror aprendido. Ou ainda: Noah não apenas mata os coelhos, ele retira suas peles, revelando-lhes as entranhas vermelhas (a cor proibida), como se inconscientemente fizesse questão de mostrar a todos os habitantes da Vila aquilo que os pais fundadores tentavam esconder: que, por baixo do verniz civilizatório, o homem é afinal um bicho, um animal, e nada mais. Gosto do final do filme também (“Lucius, I’m back”), um corte seco, que não “termina” a história propriamente dita (o rapaz se salva? a Vila continua? a verdade é revelada aos mais jovens?), coisa rara no cinema de Hollywood.

    Mas, é claro, isso é apenas a opinião (pra lá de parcial) de alguém que utiliza o filme em aulas de filosofia política…

    Abraço

    Curtir

  3. Caro Antonio.
    Costumo passar esse filme para os meus alunos de graduação (na disciplina Filosofia da Educação) e exploro vários dos aspectos que vc abordou. Costumo colocar para a discussão a questão: é ético fundar uma comunidade moral sob a égide do medo, ainda por cima difundido por meio de uma mentira? Quanto à qualidade do filme, discordo da Andrea. Não acho os diálogos fracos nem o roteiro frouxo.Há ainda questões subsidiárias, como a repressão ao desejo simbolizada pela rejeição à cor vermelha, associada às criaturas da floresta. Nesse aspecto, Walker e a mãe do Lucius dão uma aula de renúncia…
    Parabéns pela análise!
    Renato

    Curtir

  4. Maravilha de análise! Muito perspicaz e esclarecedor! Obrigado por enriquecer as minhas possibilidades de leitura desse filme que adoro! Parabéns!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s