Chuck Norris Libertador do Haiti

[Black no Mucho]

O ator americano Danny Glover – é aquele de Maquina Mortífera, e não aquele de Conduzindo Miss Daisy – vem tentando há alguns anos filmar o evento mais impressionante da historia do continente americano, a Independência Haitiana. O potencial fílmico da estória (e História) que ele quer contar, já havia despertado o interesse de realizadores como Eisenstein (O Encouraçado Potemkin), Orson Wells (Cidadão Kane) e Spielberg (esse todo mundo lembra), mas sempre esbarra no mesmo problema chato: por mais que pensem, ninguém consegue encaixar um herói branco no enredo.

A independência lá veio bem diferente do caso Brasileiro, que foi surpreendido pela sua independência de Portugal, declarada por um príncipe de ceroulas que arrastava sua comitiva da casa de uma amante para a de outra, o que, claro, não deixou de ser um atestado da macheza de nosso povo.

O pequeno Haiti, que se localiza na Ilha de São Domingos, também conhecida como Ilha de Espanhola, também conhecida como Ilha do Haiti (e que abriga também outro país, a Republica Dominicana), era, no século XVIII, uma colônia francesa. Na verdade “a” colônia francesa, respondendo por 60% dos lucros coloniais do Império de Napoleão. Lembram que na escola ensinam que o ciclo do açúcar no Brasil termina por causa da concorrência com a tal de “As Antilhas”? Bem essa ultima aí é o Haiti. Era o Haiti o centro de uma tensa disputa militar entre França, Espanha e Inglaterra, mas que já envolvera anteriormente também a Holanda, com escaramuça e alianças e traições mil entre esses países. Bom, um dia, os Haitianos resolveram que, diferente do resto das demais colônias americanas, que permitiram que seus ex-colonizadores escolhessem entre ficar e continuar explorando ou voltar pra Europa e continuar explorando, o mais pratico era cortar logo os pescoços dos branquelos. Vem daí o problema de Hollywood: como contar a história de um povo que se liberta sem ser pela mão de um jovem e rebelde loirinho. Afinal, só jovens loirinhos em busca de redenção, e que se apaixonam por princesas nativas inconformadas e possuidoras de nariz aquilino, podem libertar um povo.

Voltando a Danny Glover (que fez “O Predador II”, em “Matrix” era outro cara), ele assumiu pra si um projeto que já fracassara na mão dos negões Sidney Poitier (Ao Mestre com Carinho) e Harry Belafonte (A Cor da Fúria). Ele, que é casado com uma brasileira (É do Brasilsilsilsil…), foi, durante muito tempo, para o Spielberg o que o Pitanga era pro Glauber. Se Steven fizesse um filme que não fosse sobre ETs ou sobre judeus, lá estava o Glover, encarnando a negritude afro-americana; foi assim em Amistad e em A Cor Purpura. Esse impulso inicial permitiu que ele se tornasse protagonista na maioria dos seus filmes, mesmo que vez por outra tenha que dividir a cena com um Mel Gibson da vida.

Há alguns meses, Danny veio a publico e contou que vinha tendo problemas em financiar seu filme, que o projeto era acolhido por entusiasmo pelos executivos, mas que eles insistiam na necessidade do tal de herói branco. Fica fácil entender porque tantos pesos pesados foram convencidos a abandonar esse projeto, ao longo de todo o século XX. Deve ser mesmo horripilante pra alguém com pouca melanina, seja ele do povo eleito ou da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, ou um WASP mediano, assistir um filme em que uma turba de afro-centro-americanos armados com facões e foices, esparrama tinta vermelha em tecido branco.

Mas esse é um medo infundado. Não foi assim. Eles tinham um líder, autodidata que se especializou nas mais civilizadas artes da guerra do período Napoleônico. Um gentleman: François-Dominique Toussaint. Conhecido em vida como “O Napoleão Negro”. É a biografia desse cara que D. Glover quer filmar.

Toussaint lutou primeiro contra os espanhóis, e depois barganhou com os franceses para que, em troca da vitória contra os Ingleses, a escravidão fosse abolida. Entre os jovens mestiços (ainda se diz mestiço?) que compunham a elite da ilha, as ideias do iluminismo francês eram extremamente populares, e havia certa admiração pela Revolução. Ele venceu. Os franceses o traíram, e ele, então, organizou a independência; mas, novamente traído, acabou seus dias em uma prisão francesa. Pior para os franceses.

Alguns anos depois, já derrotado pelos vizinhos europeus, em seu exilio na pequena ilha de Santa Helena, Napoleão (o outro “o Corso”) admitiu que sua derrocada aconteceu por não ter tido visão suficiente para perceber que o esforço de guerra francês era financiado pela pequena possessão caribenha, que deveria ter reconhecido sua autonomia, elevando-a a província e fazendo de Toussaint governador. Pobre Napoleão dos Brancos… Seu vacilo custou o pescoço a mais de 4.000 brancos na ilha. Em 2004, o Haiti comemorou o bicentenário de sua independência da França.

Uma curiosidade: Henrich Von Kleist (1777-1811), um dos nomes maiores do romantismo alemão, escreveu um conto chamado “O Noivado em São Domingos”, obra-prima, como tudo que saiu de sua pena, em que um oficial branco é abrigado por uma família de negros insurgentes haitianos. O chefe da família, um dos homens de Toussaint, instruiu sua esposa e filha que atraíssem jovens inimigos para que fossem mortos; a jovem “mulata” (será que ela tinha nariz aquilino?), no entanto, se apaixona pelo jovem herói branco, e ambos acabam morrendo tragicamente. Legal né? Parece Titanic + Avatar + O Vento Levou, tudo num filme só. Graças a Deus Hollywood não conhece esse texto, e com a proteção de Xangô e um pouco de sorte, Danny Glover vai poder contar a História como ela deve ser contada. Com um herói negro em cima de um cavalo e vários corpos não-negros esparramados no chão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s