A Carta de Bukowski e a Censura

Rodrigo Mudesto 

Na natureza, nenhuma riqueza é mais abundante do que a sabedoria. Afinal, os homens e as mulheres julgam possui-la fartamente. Sentimo-nos tão saciados que somos constantemente tomados por um altruísmo irresistível, que nos leva a distribuir as sobras de nossa bem-aventurança. O filosofo inglês Thomas Hobbes não foi o primeiro a perceber que, ao contrario de tudo o mais, em um mundo onde recursos sempre escassos são disputados a cotoveladas, estamos satisfeitos em repartir a fortuna que nos coube em sabedoria, mas percebeu também que tanta sabedoria, tanta oferta e tão pouca demanda, só pode acabar gerando violência.  Sugere-nos que a melhor maneira de escapar de dar e receber bofetadas é que “eu” e “você” abdiquemos de disputar a decisão de qual é a sabedoria mais sabia e que deixemos que um “ele” administre o excesso de razões. A teoria política legada na influente proposta de Hobbes é menos um estudo da dinâmica da disputa por poder ou liderança, e principalmente uma estratégia de evasão do conflito por meio da restrição do uso efetivo da palavra. Muitos legitimam, poucos opinam, menos ainda são aqueles que decidem. Uma visão igualmente negativa, porém ainda mais escapista da política é a que transparece na obra do escritor Charles Bukowski. Ao ser informado que a sabedoria alheia era aspergida sobre seus escritos, ele recusa a política, e prefere, com a arrogância peculiar de seus textos, cuidar de sua vida. Mas antes de lermos seu próprio parecer, aproveitarei a oportunidade pra distribuir um pouco de meus bens – natos e adquiridos – e pingar algumas moedas no chapéu da discussão sobre a censura.

As calcinhas de Gisele Bündchen ou as extravagantes propostas sexuais de Rafinha Bastos, as cestas básicas de (in)tolerância sexual e religiosa e os comentários sobre o câncer do Lula, as bravatas de Lobato ou a exposição da bunda alheia: independente de suas peculiaridades todos esses temas receberam dois tipos de tratamento à medida que se sucediam nos cestos de roupa das lavadeiras de plantão da net ao longo deste ano. O primeiro movimento é o do sarcasmo que berra: Você quer informação? Compre um livro. Internet é lugar de catarse. O segundo movimento é o do lacerdismo incomodado de que: “Eu e meus amigos estamos aqui realizando O Espirito e A Verdade no mundo e vêm às forças do mal corromper o homem comum”. Sempre o homem comum, esse receptáculo vazio, que constantemente hospeda preconceitos contra mulheres, milicos, pobres, negros, religiosos, fãs do Marcelo Adnet, LGBTT’s, índios ou empreendedores. É importante vigiar o homem comum, único ser natural carente de sabedoria.

Estas abordagens consagram, igualmente, a grande revolução dos tempos contemporâneos. Ao contrario da alardeada virada gay ou da constatação de que o mundo é dos nerds, o milagre de nosso tempo é que outra minoria foi redimida. Sabe aquele palhaço do fundo de sala? Barulhento, grande e estupido? A modernidade achou um lugar de destaque pra ele. Ele pode fazer uso de sua sabedoria espontânea, fazendo o homem comum (também conhecido como “os outros”) rir de suas piadas e afirmações tão elaboradas quanto um bom pum. Ideal de nossa mídia moderna, esse homem Bombril do conhecimento, possui ainda a qualidade de atrair publico para blogueiros e militantes diversos. Guru de Twitter com fama internacional, Rafinha Bastos é hoje o maior divulgador do feminismo no Brasil. Há alguns anos quando ouvia a expressão “movimento gay”, o nome que me vinha à cabeça era o do pesquisador baiano Luiz Mott, hoje a simples menção do termo “gay” vejo o rosto de nosso mais midiático deputado, o insigne Jair Bolsonaro. Mas contra o poder desses super-homens (Friedrich Nietzsche, não DC Comics), quem poderá nos defender?

Claro que um país com nossa historia jamais permitirá que a censura volte. Afinal censura é coisa da Inquisição ou de regime de milicos. Nós queremos, simplesmente, que as pessoas vejam a verdade. Basta que doemos um pouco de sabedoria ao homem comum e ele vai aprender como as coisas são ou se ainda não são exatamente, por um lapso da ciência, como elas serão.  Antes é preciso decidir quem somos nós e quem são as forças do mal que ficam confundindo o néscio homem comum.

Felizmente não é complicado saber quem são as forças do mal. Primeiro porque elas são burras, e não sábias como nós. Segundo, é só usar a técnica que toda criança aprende no pátio da escola: quando presenciar um arranca rabo, chute quem caiu no chão. Claro que depois tem que fazer a meia culpa e botar a culpa inteira em quem derrubou. Mas é assim que se vence a guerra, de batalha em batalha.

Além de ironizar celebridades e defender os frascos e comprimidos, um recurso muito bom pra divulgar textos nas internet é relatar dramas pessoais. Sendo assim, gostaria de contar meu primeiro encontro com a censura, e como verão na carta abaixo, se relaciona com o “drama” do Bukowski. Aos oito anos era o principal freguês da biblioteca publica (modestamente admito, lia pra caralho). Tinha lido em casa “Tarzã: o filho da Selva”, e depois de me esgueirar por baixo do balcão das bibliotecárias para fora da sala de literatura infantil, onde não havia nada mais com vida, ataquei as estantes dos adultos. Onde encontrei, feliz da vida, “Tarzã e a Cidade de Ouro”. Como sabia que não havia nada de mais naquele, como não havia no primeiro, e sabia disso porque na estante de casa já havia tido contado com bastante coisa “impropria”, imaginei que me deixariam leva-lo pra casa. Ledo engano. Tive que ouvir um blá blá blá sobre romances não serem pra crianças. Em minutos havia sido rebaixado de prodígio pra reles e estupida criança (me senti da mesma forma quando os sábios que trabalham pro Estado disseram que eu não era maduro o bastante para ver Gisele Bündchen de calcinha. No fundo todo homem comum é como uma criança estupida). Derrotado pelo Estado, levei pra casa “O Poço do Visconde”. Naquela época, Lobato era ainda tido como o autor perfeito para crianças; faltavam alguns anos pra preocupações ecológicas e raciais chegarem a Varginha, Sul de Minas.

No dia seguinte… Comecei a variar o horário ate descobrir qual era a bibliotecária menos zelosa (ou mais preguiçosa), e em poucas semanas, dobrei a burocracia estatal e ganhei, discretamente, acesso ao que quisesse na biblioteca. Eram os anos oitenta, e em pouco tempo teríamos adolescentes posando pra Playboy, uma rainha dos baixinhos de shortinho e o marco derradeiro da abertura no Brasil, a novela “Pantanal”, síntese hegeliana entre a pornochanchada e a novela das oito. Infelizmente, nova derrota. Meus pais, que me deixariam ler o que eu bem entendesse e pusesse as mãos, acharam que a tal “viagem ao interior do Brasil” os deixava constrangidos na sala da própria casa, e decidiram se poupar disso. Resumindo, devido à permanência do patriarcalismo de nossa sociedade, eu perdi a Juma pelada. Sobre o caso da biblioteca, infelizmente o tal “romance” desapareceu, na noite da repressão, e eu nunca fiquei sabendo o que Tarzã foi fazer na cidade de ouro.  Por causa desses fatos (aos quais não acrescentarei o veto de meu pai ao Didi, por não ter sentido falta nenhuma dos Trabalhões depois da morte do Zacarias), desde então formei a convicção de que censura é algo que prejudica e ofende ao publico e não uma ação que se refira ao autor, como finge acreditar nossa mídia. Como leremos em seguida, Bukowski aponta na mesma direção em sua própria lida com bibliotecas publicas.

Charles Bukowski se notabilizou durante a chamada Literatura Beat, de Kerouac e Ginsberg, embora não fizesse parte do movimento. Seus poemas e contos falam sobre uma vida de bebedeiras, mulheres decaídas e decadentes, privadas entupidas e corridas de cavalos. Era adepto do viver pra escrever. Seus leitores geralmente são jovens que provavelmente guardaram pelo resto da vida descrições de como a língua parece partida depois de que se é enfaticamente carinhoso com uma dama, ou de como parece impossível dobrar o corpo para uma auto-felação.  Talvez por isso, ele atrai o ódio de sabias corocas e diretores de bibliotecas pelo mundo todo, mas com certeza não apenas por isso, o considero o maior contista do século XX. Se você nunca leu “Kid foguete no matadouro”, “A garota mais linda da cidade” ou “Casamento zen-budista” tudo que posso dizer é que eu censuro você por isso. Mas como de Juma Marruá até Bukowski, neste momento, tudo está disponível na internet, é fácil corrigir uma formação deficiente.

Carta de Charles Bukowski sobre a Censura 

Tradução de José Eisenberg e Antonio Engelke 

22-7-85

Caro Hans van den Broek:

Obrigado pela sua carta comunicando que a biblioteca de Nijmegen  tirou um de meus livros de seu catálogo. Acusado de ser preconceituoso contra negros, homossexuais e mulheres. De ser sádico pelo sadismo que contém.

Os preconceitos que eu mais temo são contra o humor e a verdade.

Se meus escritos depreciam negros, homossexuais e mulheres, é pelas coisas ruins que aqueles que conheci fizeram. Existem muitos “males” – cães malvados, má censura; há até homens brancos malvados. A diferença é que quando você escreve sobre homens brancos “malvados”, eles não reclamam. Preciso dizer que há negros “bons”, homossexuais “bons” e mulheres “boas”?

No meu trabalho de escritor, apenas fotografo em palavras aquilo que vejo. Se escrevo sobre “sadismo”, é porque ele existe, eu não o inventei, e se algum ato terrível ocorre em um de meus livros, é porque estas coisas acontecem em nossas vidas. Eu não estou do lado do mal, se é que tal coisa abunda por aí. Em meus escritos, eu nem sempre concordo com o que acontece. Não fico chafurdando na lama por puro prazer. É  estranho também como as pessoas que protestam contra os meus escritos passam por cima dos trechos em que expresso amor e alegria e esperança, e tais trechos existem. Meus dias, meus anos, minha vida conheceu altos e baixos, claros e escuros. Se eu escrevesse sempre e somente sobre a “luz”, e nunca mencionasse o outro lado, como artista, eu seria um mentiroso.

A censura é o instrumento daqueles que precisam se esconder da realidade e escondê-la dos outros. O medo que sentem, no fundo, é somente incapacidade de encarar o real, e não consigo sequer sentir raiva deles. Sinto apenas esta tristeza profunda. Em algum momento de sua criação, eles foram protegidos contras os fatos totais da nossa existência. Foram ensinados a olhar apenas de uma forma, quando existem muitas.

Não me sinto desolado porque um dos meus livros foi perseguido e retirado das estantes de uma biblioteca municipal. De certa maneira, me sinto até honrado de ter escrito algo que os retirou de sua entediante ignorância. Mas eu fico magoado, é claro, quando o livro de outra pessoa é censurado, pois aquele livro geralmente é um ótimo livro e destes, há poucos. Ao longo dos tempos, este tipo de livro acaba se tornando um clássico, e o que antes fora imaginado como chocante e imoral, é hoje leitura obrigatória em muitas de nossas universidades.

Não estou dizendo que meu livro é um destes, mas estou dizendo que nos dias de hoje, neste momento em que qualquer momento pode ser o último para muitos de nós, causa extrema irritação e uma tristeza indescritível ver que ainda temos entre nós pessoas pequenas e amargas, os inquisidores e os que vociferam contra a realidade. Mas eles têm um lugar entre nós, são parte do todo, e se não escrevi sobre eles até hoje, deveria; talvez tenha feito isto aqui, e talvez baste.

que todos melhoremos juntos.

seu,

(assinado)

Charles Bukowski

NE. Fac-símile da carta de Bukowski disponível em: http://www.lettersofnote.com/2011/10/charles-bukowski-on-censorship.html

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4 comentários sobre “A Carta de Bukowski e a Censura

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  2. Pingback: Bukowski: Kid Foguete no Matadouro | Revista Pittacos Volume II – Em Breve

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