V de Vingança: Clone ou Terrorista?

Marcus Vinicius Matos

Hoje ninguém mais subestima o poder das imagens. Um exemplo recente sobre o qual é preciso fazer esta discussão foi o uso das máscaras de Guy Fawkes por manifestantes nos movimentos Occupy em vários países.

Como é possível que um evento ocorrido em 1605, durante a Guerra Civil inglesa, possa ser reapropriado por uma das mais importantes mobilizações políticas globais do século XXI – as recentes ocupações organizadas por jovens nos centros financeiros e políticos de dezenas de cidades? A pergunta pode parecer boa, porque remete a eventos passados e coisas estranhas, causando certo assombro. Mas este é, na verdade, um falso problema. As máscaras de Guy Fawkes utilizadas por centenas – ou milhares – de militantes nos movimentos iniciados por Occupy Wall Street se referem, na verdade, ao filme V de Vingança (2006), levado às telas globais a partir da comic novel homônima de Alan Moore, escrita entre 1981 e 1988 – quando o autor já notava o crescimento da suspensão de liberdades em nome da segurança ou do mercado, numa Inglaterra governada há mais de uma década por neoliberais. Mas isso também é óbvio.

Interessa nesse texto levantar a hipótese de que talvez o uso das máscaras da personagem “V” – terrorista e herói – por jovens, no mundo inteiro, seja o fato mais importante para a compreensão do fenômeno Occupy e suas implicações até o presente momento. Para isso, podemos dizer que o fenômeno do Occupy funciona e se comporta como uma imagem. Uma mudança no regime de visualidade das imagens atuais – que se multiplicam de maneira descontrolada, quase como um vírus digital, a partir de sua produção no cinema, ou na internet – é uma das teses de W. J. T. Mitchell, que sustenta que as “bio-imagens” seriam a fundação técnica deste novo regime visual, estético, político e moral que corresponderia à biopolítica. Para compreendê-lo, seria necessário traçar aproximações entre alguns avanços técnicos e a violência política da contemporaneidade. A bio-imagem seria resultado da fusão de antigas formas espectrais e fantasmagóricas que, através das tecnologias digitais, alcançariam uma vida técnica. Especificamente, o autor destaca duas principais características deste novo regime visual, que seriam constitutivas de suas imagens: a possibilidade de sua multiplicação indeterminada, a “clonagem”; e o “terror” que as acompanha.

As figuras do clone e do terrorista seriam as chaves para compreender as mudanças constitutivas das imagens contemporâneas, e se expressariam em uma imagem, um ícone principal de nossa época: a figura de um homem mascarado (ou encapuzado), como aquelas produzidas a partir de prisioneiros torturados na base americana de Abu Ghraib. Estas imagens digitais carregariam fantasmas de imagens seculares e religiosas, semelhanças que provocariam personificações de figuras de soberania e sujeição, que acompanhariam “tradições cristãs, judaicas e muçulmanas”. Assim, as imagens de um indivíduo encapuzado – ou mascarado – seriam centrais porque reuniriam, em si, dois medos globais: o temor da clonagem, na possibilidade de que existam “inimigos sem rosto” com capacidade de se reproduzir em número infinito; e o medo do terrorismo como tática de guerra, onde às vezes é impossível determinar quem, ou “o quê” é o inimigo. O medo resultante desta junção entre clonagem e terrorismo seria responsável por promover uma paralisia política nas sociedades ocidentais.

A questão central aqui é a inversão total, na política e no direito, da relação entre as imagens e as palavras. O poder das imagens e, em particular, das imagens digitais produzidas no cinema contemporâneo – com suas posteriores mutações na internet – é inigualável. Um exemplo disso foi o que ocorreu com as imagens do filme Cavaleiro das Trevas (2008), que se multiplicaram em infinitas variações durante a campanha eleitoral pela presidência dos Estados Unidos da América (EUA), reproduzindo aleatoriamente clones de Obama-Joker e Batman-Bush não apenas pela internet, mas também em arte de rua. Estas montagens apontavam para a personificação do Estado de Exceção na figura dos heróis e dos soberanos, através de um arquétipo – o cavaleiro negro, figura recorrente na literatura ocidental – que, como já argumentamos, relaciona-se com a suspensão da ordem e a transgressão pelas razões de Estado.

Como um duplo simétrico e invertido deste argumento, a figura do herói e terrorista “V” talvez funcione como personificação do contrário do Estado de Exceção, mesmo de seu antídoto: a personificação do Poder Constituinte – ou da Soberania popular – na Multidão que ocupa os centros financeiros das cidades. É como se a máscara do herói, multiplicada sem controle, se tornasse o maior símbolo de resistência ao capitalismo financeiro mundial, através das ocupações urbanas que tomam conta dos centros econômicos mundiais. Curiosamente, na narrativa de “V de Vingança”, a personagem nasce – ou renasce – através de testes biológicos com um vírus, do qual “V” é o único sobrevivente. Seus criadores são, ao mesmo tempo, seus maiores inimigos; seus poderes vêm da monstruosidade ética daqueles que o aprisionaram.

Neste contexto, as imagens ocuparam um papel central na vida: seu poder de mobilização, de multiplicação incontrolável e de ressignificação por meio das técnicas só são comparáveis ao poder de entidades de poder abstrato e imensurável – de características divinas – como o Mercado, ou o Estado. E o papel ocupado pelas imagens se tornou mais importante do que aquelas instituições. Esta é apenas uma das conseqüências da de-simbolização provocada pela técnica, que isola culturalmente os indivíduos.

Justiça e Vingança podem ser coisas diferentes, mas as vezes coincidem. O mercado é tão técnico, de-simbolizado e incompreensível no momento, que esbarrou num paradoxo fundamental (ou fundante): se é independente da política, se não pode ser regulado para que seja livre; como podem as decisões que salvam os mercados financeiros de suas crises vir das mãos dos políticos? Se eles podem salvar investidores, bancos e sistemas, devem poder mudar a realidade injusta em que vivemos. Se podem até emprestar suas imagens soberanas para campanhas publicitárias inusitadas, com beijinhos bonitinhos entre inimigos, talvez seja nesse gesto – o uso da máscara – que resiste o germe da redenção.

Portanto, aqueles que dizem que não há agenda por trás das propostas dos “99%” que se manifestam em Occupy All streets, ou agem de má fé, ou simplesmente não conseguem entender estas mudanças – ou não querem conviver com elas. Talvez não haja palavras de ordem simples, que busquem reformas específicas, pontuais e técnicas para os dilemas que vivemos. Mas as imagens produzidas por estes movimentos, constituídos por jovens que já nasceram nesse novo regime visual, dão sentido concreto a este mundo onde ficção e realidade já não são mais acessíveis diretamente nem simbolicamente, mas apenas em termos técnicos e de eficácia. Por trás das máscaras de “V” resiste uma multidão de anônimos que se recusa a se submeter as mãos invisíveis do mercado e aos olhos onipresentes dos Estados que os vigiam.

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