The Slow Science Manifesto

Em um mundo tomado pelo imperativo da produtividade desde que a capital do capitalismo era Manchester, querem agora trazê-lo para o centro dinâmico do capitalismo contemporâneo. Exigem da ciência o que ela não pode nem deve dar. Impõe aos seus autores uma lógica que destrói inteligência.

Neste momento, a Revista Pittacos torna pública uma tradução para o português do Slow Science Manifesto, cuja versão em alemão e inglês publicada pela The Slow Science Academy, sediada em Berlin, já circula há algum tempo na internet.  Para se manifestar acerca deste Manifesto, a Pittacos também convidou três ilustres desavisados que passavam aqui em frente no horário do fechamento da edição, reproduzimos seus comentários abaixo.  Leiam o Manifesto… Vale a pena… Devagarinho…

Sim. A Pittacos subscreve ao Slow Science Manifesto. 

 

O MANIFESTO SLOW SCIENCE

Somos cientistas. Não blogamos nem tuitamos. Não temos pressa.

Sem mal entendidos. Somos a favor da ciência acelerada do início do século XXI. Somos a favor do fluxo interminável de revistas com pareceristas anônimos e seu fator de impacto; gostamos de blogs de ciência e mídia, e entendemos as necessidades que relações públicas impõem. Somos a favor da crescente especialização e diversificação em todas as disciplinas. Queremos pesquisas que tragam saúde e prosperidade no futuro. Estamos todos neste barco juntos.

Acreditamos, entretanto, que isto não basta. A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler, e tempo para fracassar. A ciência nem sempre sabe onde ela se encontra neste exato momento. A ciência desenvolve-se de forma instável, através de movimentos bruscos e saltos imprevisíveis à frente.  Ao mesmo tempo, contudo, ela muitas vezes emerge lentamente, e para isso é preciso que haja estímulo e reconhecimento.

Durante séculos, slow science foi praticamente a única ciência concebível; para nós, ela merece ser recuperada e protegida. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo de que eles necessitam, e os cientistas precisam ter calma.

Sim, nós precisamos de tempo para pensar. Sim, nós precisamos de tempo para digerir. Sim, nós precisamos de tempo para nos desentender, sobretudo quando fomentamos o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não, nem sempre conseguimos explicar a vocês o que é a nossa ciência, para o que ela servirá, simplesmente porque nós não sabemos ainda. A ciência precisa de tempo.

— Tenham paciência conosco, enquanto pensamos.

(tradução de José Eisenberg; revisão Antonio Engelke)

[original: http://slow-science.org – (c) The Slow Science Academy, 2010]

***

Lionardo di ser Piero da Vinci

___ É verdade que não nos asfixiava o imperativo do publish or perish; em compensação, havia os Médici, e eles não eram fáceis. Lamento não haver concluído o desvio das águas do rio Arno com o amigo Machiavelli. As pinturas, abandonei-as porque quis, porque acontecia de ter a imaginação tomada pelo deslize das placas tectônicas, a função da bile, a exegese dos diálogos de Platão, a estabilidade das grandes embarcações, a cartografia de Firenze, o arco da ponte de Constantinopla que me foi encomendado pelo sultão Beyazid, o segundo de sua linhagem, e que não cheguei a ver concluído. Uma pena. Faltou-me o tempo, tanto mais precioso quanto mais artesanal o trabalho. Se me fosse dado escolher (este o meu sonho secreto), desejaria ter desvendado os mistérios todos da alquimia, e destilado a fórmula que fizesse parar o tempo, como o bálsamo que conserva o corpo e o espírito dos faraós. Falhei, miseravelmente.”

Álvaro de Campos

___ Slow science, slow food, slow motion, slow que não acaba mais. Slow que não acaba nunca. Queria ver uma platéia assistir El Cid na tela grande em slow motion, um obeso comer chocolate lentamente. Não conheço cientista que não seja ansioso por conhecer seus resultados. O que querem? Trânsito a 20km/h? Uma sociedade de tartarugas? O império dos jabutis? Para quê? Para quem? Passa o trem veloz na minha janela e sorrio. Se o preço da velocidade é o barulho, que passem as turbinas dos aviões. Agora, até a ciência querem nos atrasar. Não entendem que uma cagada é melhor do que duas prisões do ventre? Um charuto é slow, admito. Uma ópera não pode ter pressa. Mas prefiro um planeta apressado ao redor do sol, mesmo que sem saber ao certo onde chegar. Basta que tenha pressa. Resultados apressados derrotam dúvidas morosas. Se é para experimentar e errar – pois não é esta a vocação da ciência? – que seja logo!

Velma Dinkley

___ Achei um texto muito perspicaz! Mesmo o portador do raciocínio mais rápido precisa de tempo para refletir sobre suas conclusões. Confesso, minhas primeiras hipóteses sobre um caso estão sempre erradas. E se você soubesse quanto tempo eu perco procurando meus óculos… Acho que todos devem ter direito ao tempo de procurar pelos próprios óculos, sabe? Além disso, eu trabalho em equipe, dependo deles assim como eles dependem de mim. E cada um tem sua habilidade, cada um trabalha de um jeito. E vocês bem sabem como é o jeito do Salsicha, né? Dá certo justamente porque não tem pressão, não tem pressa!

___ [Pittacos] Já que a senhora mencionou seus colegas de trabalho, gostaria de fazer uma pergunta mais pessoal. Muito se especula por aí sobre a sua relação com Daphne Blake. A senhora poderia falar algo a respeito disso?

___ Jinkies! …Não estava preparada pra esse tipo de pergunta… Desculpe-me, mas não falo da minha vida pessoal.

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13 comentários sobre “The Slow Science Manifesto

  1. Achei a premissa do manifesto muito interessante, esse é um debate aquecido nas universidades mundo afora e precisamos fazer parte dele. Mas tenho algumas ressalvas quanto ao texto. Pra início de conversa, o parágrafo de abertura, cheio de negativas, puxa o tapete do manifesto. Cientistas não blogam e nem tuitam? Que cientistas são esses? Eu posso começar uma lista hoje e só terminar amanhã de manhã com cientistas que blogam E TUITAM, eu incluída. É o tipo de frase de efeito que está ali só para chamar atenção.

    Continuando, não entendo um manifesto que defenda o tempo de maturação das ideias e seja “a favor do fluxo interminável de revistas com pareceristas anônimos e seu fator de impacto”. O sem número de publicações que muitas vezes não são lidas por NINGUÉM e a pressão para que publiquemos muito e sempre não são precisamente os vilões dessa história?

    Mas o texto acerta em muitos pontos, principalmente no último parágrafo, quando chama atenção para o fato de precisarmos “[fomentar] o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Sobre o tema, Cássio E. Viana Hissa acabou de publicar um livro sensacional, chamado Conversações, que traz dabates de um grupo de pesquisa formado por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento.

    Enfim, queria apenas aquecer o debate. Bacana conhecer a revista e bacana também a iniciativa de publicar o manifesto.

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  2. Respondo sem pressa:

    É uma satisfação ver o tema da “ética acadêmica” levantado aqui. Os filósofos morais deveriam debruçar-se mais sobre o assunto.

    Acho que ninguém questionaria o fato de que o espírito industrial é essencial para a ciência: a preguiça (que é diferente da paciência ou falta de pressa) é ruim. O problema é quando esse espírito passa a ser regulado pela ética dos homens de negócios.

    Isso significa, entre outras coisas, que todo esse papo de unificar teoria e prática precisa ser revisado: os homens da ciência pura não são práticos e a teoria não deve melhorar a prática. Essa é, a meu ver, uma ética ruim para a ciência.

    Cito Peirce (um pragmático que não tem pressa):

    “Todo homem de ação é, precisa ser e deve ser ardiloso, mundano e desonesto […]. Quando tais homens entram em disputa, a disputa possui algum outro objeto que não é a averiguação da verdade científica. Os homens alcançam, grosso modo, o que desejam. O Governo pode ser para sempre mais importante do que a ciência; mas somente podem proporcionar o avanço da ciência aqueles homens que desejam descobrir como as coisas realmente são, sem arrière-pensée (Collected Papers 4.34, 1893 – itálicos no original).

    Bacana!

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  3. ainda pensando…

    “Há quatro obstáculos principais para compreender a verdade, que prejudicam todo homem, não obstante a sua erudição, e que raramente permitem alguém a ganhar um claro título ao conhecimento; nomeadamente, a submissão à autoridade deficiente e indigna, a influência do costume, o preconceito popular e o encobrimento de nossa própria ignorância acompanhado da ostentação de nosso conhecimento” (Roger Bacon).

    “Entre as décadas de 1900 e 1960, cerca de 45 novos periódicos filosóficos foram fundados nos Estados Unidos, no Canadá e na Grã-Bretanha, 15 deles na década entre 1950 e 1960; entre 1960 e 1970, cerca de 44, isto é, quase o mesmo número em uma década quanto nos 60 anos anteriores; entre 1970 e 1980, cerca de 65; entre 1980 e 1990, cerca de 55. Inevitavelmente, tornou-se impossível, exceto por pura sorte, encontrar o que presta” (Susan Haack).

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  4. Pingback: Slow… – Incautos do Ontem

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